‘A OBSCENA SENHORA D’, DE HILDA HILST

Por Ana Emilia Klein

O leitor acostumado com romance de travessão e letra maiúscula certamente estranha a prosa de Hilda Hilst em A obscena senhora D (1982). A costura do fluxo de consciência da narradora-personagem e dos diálogos reais ou não entre ela e, principalmente, seu companheiro, Ehud, materializa-se na realização particular do texto, conferindo-lhe o efeito de um tempo não linear e de delírio. Esse modo de narrar não é daqueles que vai embalar o leitor para um sonho tranquilo, é antes, como bem define Alcir Pécora, uma pancada justa e certeira, tendendo muito mais a noites insones. Quando nos lançamos em uma obra como essa, precisamos estar atentos, pois significa andar de mãos dadas com Hillé em seus próprios devaneios; temos tanta dificuldade quanto ela para distinguir os acontecimentos concretos do que é fruto de seu pensamento (preocupação que é mais nossa do que dela, na tentativa de organizar o que está diante de nós). Assim sendo, as voltas da narradora são as nossas voltas: a confusão acontece lá e aqui durante a elaboração de ideias, a rememoração de situações e a fantasia de outras tantas. Se é possível chegar a algum lugar, isso o leitor terá que descobrir.

O disparador dessa situação pode ser a perda de Ehud, mas a sensação de incompletude da narradora não se dá somente por conta do luto. Explico: o caráter questionador de Hillé – que não duvida, por exemplo, da existência de Deus, mas quer compreendê-lo, afinal, que amor é esse que empurra a cabeça do outro na privada e deixa a salvo pela eternidade sua própria cabeça? -, esse comportamento, como vinha dizendo, já era notado por Ehud quando ambos estavam na casa dos vinte anos. Perto dos sessenta, um ano antes da morte de seu companheiro, ela decide abster-se o máximo possível do que é terreno, passando a morar no vão da escada. Por outro lado, Ehud é uma pessoa que chamaríamos de “pé no chão”, pois parece capaz de dominar o tempo e procura incentivar Hillé a sair daquele local e a viver a vida vivida. Em resumo, as questões metafísicas da narradora chocam-se e complementam-se com a vida prática de Ehud. Com a perda desse ponto de conexão com o que há de mais cotidiano e banal, acentua-se a angústia dela em relação ao sentido das coisas.

É preciso deixar claro, no entanto, que a narrativa não para nas questões acerca de uma compreensão ontológica do ser e da realidade; a busca da narradora ainda é pela vida, na sua concretude. Esse querer, porém, aparece em conflito com a impossibilidade de vida, culpa desses nadas do dia a dia que vão consumindo a melhor parte de nós – afinal, quantos atos de liberdade eram/são possíveis? O desejo latente em Hillé talvez seja um dos aspectos que me impele para a leitura e releitura dessa obra. Tal como a narradora, acredito que buscamos (quando nos lembramos ou quando nos é possível lembrar) um lampejo de vida onde parece quase não haver; enquanto isso, no íntimo, permanecem a consciência da solidão e a sensação de abandono, condições que contrariam nossa natureza gregária, mas que estão cada vez mais dadas na modernidade. Inveja, mencionando de novo o Alcir Pécora, daquele que tem o terrível gosto de ler Hilda Hilst pela primeira vez.

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