‘ARANHAS’, DE CARLOS HENRIQUE SCHROEDER

Por Aguinaldo M. Severino

“Aranhas” é o volume publicado mais recente de Carlos Henrique Schroeder, respeitado e premiado escritor, crítico literário e roteirista catarinense, atualmente radicado em Jaraguá do Sul. Trata-se de uma reunião de trinta e dois contos: dois terços deles narrativas bem curtas e um terço comparativamente textos bem mais longos. O leitor é informado no início do livro que as histórias surgiram em meio a pesadelos associados a duas pinturas de Odilon Redon, pintor e gravador francês, um dos seminais mestres simbolistas. Todavia, como sempre na boa literatura, sempre é bom enfatizar, o leitor não fica a saber se as imagens das duas aranhas, a triste e a sorridente das gravuras de Redon, impressionaram o autor Schroeder ou impressionaram o narrador de suas histórias. No último dos contos, Armadeira (Phoneutria nigriventer), ecos de boa parte das trinta e uma histórias anteriores são evocados, reunindo os muitos protagonistas delas em uma espécie de jogo, um jogo macabro, fantástico, de sonho. A exemplo deste último, os contos recebem como título o nome de uma aranha. As histórias gravitam temas fortes, violentos, como a hipocrisia; as relações de poder; os relacionamentos tóxicos; a tensão sexual entre indivíduos que vivem próximos; a memória de acontecimentos da infância que aflora e perturba adultos; a doença e a morte. Por vezes o narrador das histórias conversa com o leitor, confessando certas indecisões e justificando as guinadas abruptas delas (talvez exista nelas um excesso de mortes – claro, estamos no mundo das aranhas, muitas delas venenosas – entretanto estas mortes parecem saídas fáceis para as histórias, desfechos de ocasião, que talvez pudessem ser desenvolvidas um tanto mais). Gostei particularmente de alguns dos trinta e dois contos, sobretudo naqueles em que se sobressaem um registro particular de linguagem (como as gírias ou a língua cifrada de certas tribos urbanas catarinenses, alguma antigas, outras contemporâneas) ou quando encontramos elaboradas descrições de ofícios, atividades, profissões ou atos bobos de nosso cotidiano. Em todos os contos mais longos Schroeder alcança mostrar seu arsenal estético, para deleite do leitor. Já nos contos curtos, nem sempre isso acontece, pois parecem que ficam a dever algo (ao menos para mim, o menor dos anões dentre os leitores). De qualquer forma, trata-se de um livro muito bom, de um costumeiramente bom escritor. Enfim, das boas leituras que fiz, neste terrível, macabro, porém inesquecível, 2020. Vale!

Leia mais do autor em “livros que eu li”.

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