‘BAU MENSAGEM (FERNANDO PESSOA)’, DE ANDRÉ LUIZ OLIVEIRA

Por Juarez Fonseca

No tempo da velocidade, do raso, do efêmero, do monetarizado, o que dizer de um homem que “gasta” mais de 30 anos de sua vida em um projeto que contradiz tudo isso? Esse homem se chama André Luiz Oliveira, 73 anos, baiano radicado em Brasília desde 1991 e que desde a década de 1980 se dedica obstinadamente a revelar em música os segredos do livro Mensagem (1934), único em língua portuguesa que Fernando Pessoa publicou em vida, com poemas sobre personagens da história/glória de Portugal. Para  marcar os 80 anos da morte do poeta, em 2015 André lançou com o título Mensagem, uma caixa de madeira reunindo três CDs, dois DVDs, um álbum de fotos e o próprio livro. O formato remete ao famoso baú de Pessoa, descoberto depois da morte dele, em 30 de novembro de 1935, com mais de 27 mil textos inéditos.

A caixa, com as inscrições em baixo relevo, é um espanto: os 44 poemas ganham vida nas vozes de 32 grandes intérpretes brasileiros de três gerações, como Elizeth Cardoso, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Edson Cordeiro, Mônica Salmaso, Fagner, Zeca Baleiro, Moraes Moreira, Ná Ozzetti, Renato Teixeira, Cida Moreira, Zé Ramalho, e portugueses, entre eles António Zambujo, Dulce Pontes, Carlos do Carmo, também o caboverdiano Mário Lúcio (do grupo Simentera). O primeiro disco é ainda do tempo do LP, foi lançado pelo selo Eldorado em 1986, com 12 músicas, tendo como faixa de abertura Padrão, por Caetano Veloso – “O esforço é grande e o homem é pequeno./ Eu, Diogo Cão, navegador, deixei/ Este padrão ao pé do areal moreno/ E para diante naveguei.” (…)

Esse não é o poema que abre o livro, André não se preocupou com a ordem, foi musicando os poemas que primeiro “chegavam”. O mesmo ocorreu com o disco 2, que só viria 17 anos depois, em 2003, com 13 músicas e lançamento independente. Mais 12 anos e enfim o disco 3, de 2015, e encerrado por O Quinto Império, na voz de Gil – “Grécia, Roma, Cristandade,/ Europa – os quatro se vão/ Para onde vai toda idade./ Quem vem viver a verdade/ Que morreu D. Sebastião?”. André parece se valer de uma das faces de Pessoa, a mística, para falar de seu processo criativo.

– Minha música é instintiva, intuitiva. Sou tão impregnado desses poemas que as músicas vinham ao natural, não sei como fui capaz de fazer isso. E agora, ouvindo-as pela ordem do livro, fiquei impressionado.

A porta de André para a arte foi o cinema, na efervescência tropicalista de Salvador. Estreou em 1969 com o longa Meteorango Kid – O Herói Intergalático, filme cult do cinema marginal. Sua última obra é o documentário O Exu Iluminado, de 2012, sobre o artista plástico Mário Cravo. A mais conhecida é Louco por Cinema, de 1995, melhores filme e diretor no Festival de Brasília, que narra parte de sua experiência em um manicômio judiciário durante a ditadura. Fugindo da repressão, em meados dos anos 1970 foi para a Índia com a mulher, que lá engravidou, e decidiram ter a filha Rama em Portugal, onde viveram de 1977 a 79, movidos também pela euforia pós-Revolução dos Cravos. Ele diz que a temporada em Lisboa foi uma espécie de redenção. Violonista aplicado, por necessidade conseguiu trabalho em uma casa noturna tocando violão.

– Comecei lá a tomar corpo como músico, e aquela atmosfera do fado, o amigos que ia fazendo, o aprofundamento em Fernando Pessoa, mudaram minha vida. Quando voltei ao Brasil fui morar no Guarujá, litoral de São Paulo, e de repente me vi dando música aos poemas, logo fiz 15 canções. Eu estava alimentado por uma paixão pela vida e a obra dele, atordoado de como me reconhecia nos seus escritos. Mensagem é uma essência poética, o resumo do que mais admiro nele, aquela transversalidade, o oceano imenso de símbolos e sinais sobre a gente e a vida, sobre a identidade de Portugal, por extensão a do Brasil. Há ali embutidas ideias que fascinam os leitores, embora alguns não entendam, nem seus conterrâneos. É uma provocação à inteligência.

Desde o início André pensou em vozes conhecidas para interpretar as músicas e levar adiante sua mensagem. Praticamente todos os artistas que convidou aceitaram o desafio, e falam sobre o que sentiram nos DVDs que integram os discos 2 e 3. Além de imagens das gravações em estúdios e de Portugal (o Tejo, ruas de Lisboa, os lugares freqüentados por Pessoa etc.), os DVDs incluem entrevistas e depoimentos de intelectuais como Carlos Felipe Moisés, professor aposentado da USP, que prefaciou a primeira edição brasileira do livro. Caetano Veloso: “Fernando Pessoa é a justificativa da existência da língua portuguesa. Foi para a língua portuguesa que ele escreveu Mensagem”. Milton Nascimento: “Esses versos saem tão lá de dentro que não tem erro cantá-los, fica simples”.

Mesmo gravados com tanto espaço de tempo entre um e outro, mesmo “desobedecendo” a ordem do livro, mesmo tendo muitas variações (fado, baião, vira, morna, toada, afro-brasileiros, música sacra) e com tantos intérpretes diferentes, os três discos têm grande unidade. O “instintivo” André revelou-se um compositor de amplos recursos, com sólido apoio em música clássica e certeza na escolha dos arranjadores para levar a cabo esse formato de obra una. O primeiro disco tem arranjos de Francis Hime, o segundo de Leandro Braga, e o terceiro deles e mais alguns. Dezenas de instrumentistas foram mobilizadas para as orquestrações sinfônicas, sem contar violonistas, acordeonistas, bandolinistas, percussionistas. Vale saber que, lá no início, André não tinha “a ambição” de musicar o livro inteiro.

E a esta altura, vem a pergunta: de onde saiu dinheiro para tudo isto? Ele responde:

– Eu estava tentando vender o primeiro disco para as gravadoras, sem sucesso. Não sei como, o projeto caiu nas mãos de um empresário arrojado, Eugênio Staub, dono da Gradiente, que comprou a ideia. Em 2003, voltei a encontrá-lo, no elevador do Ministério da Cultura, e me propôs dar continuidade ao projeto, de novo sem interferir em nada. Para completar, em 2014 tive a sorte de conhecer outro empreendedor, José Roberto Freitas, da empresa paulista Benfica Turismo, que me apoiou no último disco e patrocinou uma coisa cara desta, a caixa de madeira com a obra completa. Sempre sem leis de incentivo. Mas só sei fazer, não sei administrar.

André Luiz Oliveira sempre volta a Fernando Pessoa ao ter que racionalizar sua ação. Diz que está há mais de 40 anos filmando e só fez quatro longas-metragens, por exemplo. Entre os álbuns de Mensagem, lançou dois quase desconhecidos discos autorais, África-Brasil (1990), com participações de Adriana Calcanhotto, Almir Sater, Djavan e outros, e Ser Fã (2009). Neste, faz psicomusicalização no modelo de autores como Caymmi, Gonzagão, João, Caetano, Paulinho, Itamar. No caso de Mensagem, desde o início teve o suporte das produtoras Fidellio e Madam, responsáveis por questões burocráticas e jurídicas complexas como a liberação dos 32 intérpretes no que diz respeito a gravadoras e direitos autorais. Faz raros shows. Divide com a mulher, em Brasília, uma clínica de musicoterapia para crianças autistas.

Independente do que ele venha a produzir, a caixa Mensagem já tem status de obra-prima.

Leia mais do autor em Sepé.

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