‘DECLÍNIO E QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO’, DE EDWARD GIBBON

Por José Francisco Botelho

Tenho algo em comum com Iggy Pop: a escolha de livro predileto. Tanto eu quanto o ex-vocalista de The Stooges somos aficionados pela sereníssima e avassaladora obra-prima de Edward Gibbon (1737-1794), História do Declínio e Queda do Império Romano.

Digo sereníssima, porque a obra contém uma das prosas mais límpidas da literatura inglesa: um oeil d’oiseau que sobrevoa quatorze séculos da história humana, às vezes observando vastos panoramas com fleuma olímpica, às vezes dando rasantes em vertiginosos detalhes, como se a impessoalidade do passado subitamente se abrisse e sentíssemos o pulsar da vida e da morte em criaturas idênticas a nós, há muito desaparecidas da face da terra.

E digo avassaladora porque o efeito geral da obra é ao mesmo tempo de aniquilação e grandeza: vemos nossos semelhantes, hoje transformados em pó, envolvidos em suas intrigas e peripécias, tão cruciais para eles quanto para nós as nossas próprias desventuras; e se cada uma dessas figuras espetaculares e efêmeras está gravada nas páginas do grande livro, o fluxo do tempo os igualou a todos, como nos igualará também. O Declínio e Queda do Império Romano não é apenas nosso passado, mas também nosso futuro.

Iggy Pop costumava ler Gibbon durante suas turnês, de madrugada, em quartos de hotéis baratos, entre doses de uísque e de drogas. Segundo ele, a obra de Gibbon lhe proporcionava “grande conforto e alívio, por me mostrar que houve outros como eu, que viveram e morreram e pensaram e lutaram tanto tempo atrás; eu me sinto menos tiranizado pelo presente.”

Quanto a mim, ao ler Gibbon, me impressiona sentir que todos aqueles personagens – imperadores e assassinos, concubinas e rainhas, mendigos e traidores, embusteiros e mágicos, santos e guerreiros – viveram suas vidas sem compreender a história completa à qual pertenciam; sem serem sequer capazes de ler o capítulo que lhes cabia. Todo ser humano vive a vida sem saber de fato quem é; toda obra é um encaixe numa grande ânfora quebrada, cuja forma final pertence ao tempo. Também o livro de Gibbon é parte de um outro Livro. Um livro que não leremos – ao menos não aqui, não agora, e nãos com estes olhos.

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