‘DENTES NO COPO DE UÍSQUE’, DE DORALINO SOUZA

Por Robertson Frizero

É difícil ser inovador em um gênero que, por vezes, se mostra tão formulaico. Mais que isso, é uma aventura ainda mais arriscada quando o autor não tem fôlego ou verve para abraçar esse gênero com um olhar próprio, capaz de oferecer ao leitor estranhamento no que é quase sempre clichê, ou novidade em um terreno tão dominado pelo lugar-comum dessas narrativas. Pois a minha grande surpresa de 2020 foi conhecer este pequeno grande livro de contos que me capturou a atenção desde o inventivo título: “Dentes no copo de uísque”.

Para ser honesto, preciso confessar-me perante o leitor: não sou um grande fã de Pulp Fiction, e mesmo o gênero noir, que conheço um pouco mais, não é exatamente minha primeira escolha na fila de minhas leituras. E talvez essa seja a principal razão pela qual o livro de Doralino Souza tenha me cativado tanto. A pequena coletânea de contos é coesa, organizada de modo a conduzir o leitor de história a história sem muito permitir que respire ou passe incólume por cada texto.

Prende-nos ali a linguagem precisa, com uma forte e bem construída marca de oralidade; nada ali parece gratuito, dispensável. Dividido em duas partes, “Solidão” e “Desespero”, o autor faz desfilar diante de nossos olhos uma sequência de crimes brutais – não por apelar para o caminho fácil do gore, mas por serem tão reais e próximos ao que encontramos no cotidiano de nossas cidades. Há, aliás, um contraste muito interessante entre o meio rural e o urbano no livro, mostrando que a violência é um mal recorrente ao qual estamos submetidos, não importa onde estejamos, e dela somos vítimas, nem que seja pela ameaça constante de sua ocorrência. As histórias são de uma verdade interna estupenda, pois ali está exposta a razão do problema: a violência no país é atávica, bem diferente dos discursos políticos e dos ativismos sociais; ela está de tal modo entranhada no imaginário e nos costumes, que se faz natural que mortes sejam o pagamento por uma traição ou mesmo uma mera suspeita, que uma paixão mal resolvida seja ocultada sob sete palmos, que o amor familiar não impeça uma rivalidade fatal, que a homofobia esconda o desejo mal resolvido de alguns, que o tormento precoce pode levar à brutalidade tardia – o país real, tão bem retratado nos contos de Doralino Souza, está ainda muito além do alcance das boas intenções proclamadas nas mídias sociais, mas pouco praticada no cotidiano dos lares e no segredo das alcovas.

O perfeito registro de um sotaque regional que foge à caricatura encanta, certamente, os leitores que conhecem o Rio Grande do Sul em suas várias realidades regionais; mas, ao mesmo tempo, não dificulta ou torna o livro uma obra encerrada nos limites do estado. A violência é universal, sempre próxima, em maior ou menor intensidade, na atualidade em que vivemos. E o livro, que se consegue ler em um só fôlego, é capaz de furtar a respiração de leitores de todas as partes. ´

Como bem retratou em seu prefácio o escritor Rodrigo Tavares – outro mestre da narrativa, prova viva de que devemos prestar mais atenção às vozes literárias distantes da capital gaúcha –, Doralino Souza aprendeu muito bem a lição sobre como dar ao conto uma história secreta, que neste livro emerge de forma insuspeitada de cada história. É um pequeno livro de contos precioso e necessário, que assinala um passo firme de um autor até então dedicado à literatura juvenil na direção de uma sólida carreira literária. Se ele foi capaz de converter este leitor bissexto de literatura noir, o que farão esses textos com os que apreciam e cultuam o gênero e, como eu, torcem para que ganhe força a pulp fiction brasileira… Mas “Dentes no copo de uísque” vai além disso: é boa literatura, escrita com precisão e segurança de um autor ciente de suas escolhas, um arquiteto de boas histórias, capaz de prender nossa atenção até a revelação final de cada conto.

Oxalá os leitores e os críticos literários descubram-no sem demora.

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