‘DIÁRIO DO AÇO’, DE BETZAIDA MATA

Por Mar Becker

Um romance de limiar. De fronteira. É assim que Betzaida Mata escreve seu “Diário do Aço” (Penalux, 2019) – como um romance que se equilibra tênue entre o dizível e o indizível.

A história se passa na região do Vale do Aço, interior de Minas Gerais. Já de início Mata assume que a linguagem fracassa, que há de fato coisas sobre as quais não se pode falar. O início de tudo, o gênesis – ou, como ela lembra, “o sertão” de antes do vale, esse escapa à voz. “Para os portugueses recém-chegados aos trópicos, não existia Vale do Aço”, comenta. Só havia “um conjunto de terras inóspitas, povoado por índios botocudos e mosquitos transmissores de malária, atravessado por um rio. Sem cercas para estabelecer fronteiras, nem armas para lhe domar a geografia, foi, por muitos anos, um lugar esquecido”.

Penso que o compromisso dramático de Mata é este, o de dizer o indizível, tocar o “bicho que atravessa o mundo”, como sugere Herberto Helder. O resultado é o “Diário do Aço”, um livro forte, intenso. Vivo. Porque não há palavra mais luminosa, mais lúcida, do que aquela que está à beira do abismo de si, que se encara diante do espelho da sua própria noite. Quando afirma que está disposta a narrar a história do vale, ela se compromete com um exercício de escritura que dá voz ao que foi calado. Sabe que, embora o passado não possa vir à palavra de forma direta, ele volta – sempre volta, sorrateiro. Basta “um descuido da razão – sono, embriaguez ou delírio”, e ele ressurge.

Como ressurge? Nos detalhes. Pelo “verde evanescente” da paisagem, a fumaça da fábrica confundindo-se com os tons do que sobrou de uma espécie de Éden – imaginado, talvez. Pelo modo como os próprios nomes das cidades da região intercambiam-se, desembocando uns nos outros como afluentes de um mesmo rio clandestino, subterrâneo. Ressurge nos punhos dos metalúrgicos em greve, no leite derramado no chão da fábrica. No batom borrado das bocas das putas. Sim, ressurge também na gargalhada estridente de Jonas, na luz que incide sobre a face oculta de Gabriel, o aluno-anjo-mensageiro. Na picada de uma cobra. Num suicídio.

Há aqueles que diante do que não pode ser dito decidem calar-se. Betzaida Mata, por sua vez, segue escrevendo, e nisto muitas vezes abaixa-se e põe o ouvido colado à terra, atenta às vozes que foram enterradas pelo tempo. Outras vezes se ergue até a ponta dos pés – como uma árvore de arbustos muito altos. As mãos em gesto de ave, sentindo escapar entre os dedos um fio de fumaça. Talvez aí esteja o corpo que habita este “Diário do Aço” – um corpo-campo de intermédio, que faz fronteira com demônios, de um lado; e com deuses, de outro.

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