‘EU AMO DICK’, DE CHRIS KRAUS

Por Fabrício Silveira

O livro Eu Amo Dick nos impõe inúmeros desafios. Lançado originalmente em 1997, a obra de Chris Kraus foi reeditada em 2006, tendo saído no Brasil em 2019, com tradução de Taís Cardoso e Daniel Galera, pela editora Todavia. O livro já foi saudado como um manifesto feminista, muito oportuno, forte e capaz de suscitar polêmicas. Uma das dificuldades colocadas diz respeito ao dimensionamento das características que lhe garantem essa atualidade contínua e sempre requalificada. Outro fator de problematização – e que ampliou o debate em torno do texto, além de contribuir para meu interesse pontual – foi o lançamento da série televisiva homônima, através do canal Amazon Prime, em 2017. O que nos permitiria assim discuti-lo – de modo muito frequente, aliás, nos estudos interartes – é a adequação da adaptação televisiva, sua pertinência e sua fidelidade ao escrito original.

Além de tudo isso, Eu Amo Dick abre discussões sobre identidades de gênero, sobre as fronteiras entre teoria e autoficção e sobre a própria catarse narrativa que fazia a autora misturar, à época, de modo até então inédito – ou melhor: inédito em razão da radicalidade obtida – um relato íntimo e corajoso, em primeira pessoa, discutindo o modo como a experiência de um triângulo amoroso impacta sobre sua visão do casamento e, a partir daí, sobre a percepção que tem de sua própria feminilidade, desejo e vida adulta, sexualidade e envelhecimento.

Mais do que isso, entretanto, pode-se acrescentar um outro tipo de polêmica: um dos vértices do triângulo amoroso em torno do qual a narrativa se estrutura teria sido o crítico cultural inglês Dick Hebdige – o Dick do título. Isso traz uma pimenta adicional à discussão, como se o livro estivesse tocando num ponto em que ensaios sobre arte contemporânea, escritos de acento teórico e indiscrições pessoais se hibridizam, num tecido de reflexões e situações, reais e ficcionalizadas, indiscerníveis. Um crítico se referiu ao romance de Kraus como um “mix de fofoca e teoria”; outro alegou tratar-se de uma “invasão de privacidade”, um episódio de “exposição pessoal”; um terceiro nos disse que o livro poderia ser visto como um caso de “compartilhamento excessivo”, tendo antecipado fenômenos subjetivos (ou um modo de subjetivação) hoje muito mais nítidos, mais facilmente localizáveis.

Como dito, Eu Amo Dick narra a história de um triângulo amoroso. Chris Kraus é o nome da narradora da trama (ou, pelo menos, um de seus narradores centrais). Kraus é casada com Sylvère Lotringer. Ela é uma cineasta em crise, às voltas com um projeto artístico frustrado. Ele é um crítico literário de meia-idade, tentando revigorar a carreira. Lotringer é convidado para dar uma série de palestras numa pequena cidade, no interior da Califórnia. Kraus o acompanha. Lá, ambos conhecem Dick, outro acadêmico de meia-idade, que havia encaminhado o convite e se encarregara de receber e supervisionar os convidados.

O que se desenrola, a partir daí, é a obsessão erótica do casal com a figura rude e misteriosa de Dick. Kraus e seu marido passam a escrever cartas endereçadas a ele. A essas cartas vão se intercalando ensaios sobre arte contemporânea e temas afins. Sendo esse próprio jogo entre narrativas epistolares e narrativas teóricas – amplificado pelo trânsito entre autoficção e história factual, proximidade e distanciamento – outro de seus apelos, outro dos desafios que impõe ao leitor interessado ou mesmo àquele que queira ler o livro como um objeto de estudos, um sintoma da cultura, um rico enigma a ser decifrado. Foi uma das minhas melhores leituras de 2020.

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