‘JONATHAN STRANGE E MR. NORREL’, DE SUSANNA CLARKE

Por Simone Saueressig

Foi mais para o começo do ano. A pandemia estava instaurada, mas a perspectiva era de que a situação se resolveria em algumas semanas, quiçá, meses. Era uma miragem, eu sabia, você sabia, todo mundo sabia. Uma coisa dessas não desaparece como fumaça, não funciona desse jeito. Mas a gente mentiu para si mesmo, porque se assumisse que seria uma condição a se prolongar pelo resto de 2020, o desespero ia ser maior.

Então, como era para ser algo para algumas semanas, olhei para a minha estante e pensei: “qual livro desses poderia me ocupar por um bom tempo?” A saber: “bom tempo”, significando um tempo mais extenso, capaz de devorar os dias sombrios que via pela frente, com uma certa tranquilidade.

Meus olhos recaíram sobre “Jonathan Strange e Mr. Norrel”, da britânica Susanna Clarke. Lembrei da primeira vez que o li, e das vezes que tinha me prometido reler. Peguei o volume grosso, já antecipando a delícia das notas de rodapé: apesar da maioria das pessoas que conheço abominar notas de rodapé (coisa que eu jamais compreenderei, porque se a gente não quer ler as ditas cujas, basta com ignorá-las, letrinhas miúdas que muitas vezes tem o tamanho e o interesse de uma bula de remédio), eu gosto. Em especial, gosto das notas da Clarke neste romance, porque elas são um romance à parte. Historinhas colaterais cheias de fantasia, quase mimosas, não fosse uma certa sombra, algo meio retorcido, que dá um toque de arrepio ao que deveria ser somente divertido, como, aliás, as verdadeiras histórias de fadas são. Quem já leu algum relato mais antigo, sabe que essas criaturinhas tilintantes e fofas que se vê nos atuais desenhos animados, não tem a mais remota parecença com as fadas dos contos originais, lindas, talvez, mas malévolas, egoístas e desalmadas.

Contudo, também lembrei, que da primeira vez que li o livro, não gostei do final. O achei insosso. Parecia que faltava algo, parecia que a promessa extraordinária feita em suas páginas não era cumprida, o que me deixou com uma sensação de frustração. Mas a história era boa, os rodapés eram bons, e eu sabia que não tinha lido todos eles, na primeira leitura, tal a minha ânsia de terminar o romance – era uma promessa tão, tão boa, que eu quase saltava as páginas da narrativa central para terminar logo e ver o famoso “o que será que vai acontecer?” Assim, como tinha por diante algumas semanas, resolvi encarar a releitura.

Re-leitura? O que é isso?

Comecei o romance lembrando dessa e daquela parte. Desta estrutura narrativa, e daquela outra. Uma nota de rodapé, sim, que eu tinha lido, mas a outra… será que deixei passar? Uma parte que parecia outra parte, um acontecimento que eu não lembrava ter lido, aquele outro que… meu Deus, será que eu li mesmo esse livro da primeira vez? As notinhas de rodapé se revolvendo como novas, historinhas de fadas assombradas por acontecimentos inusitados, capítulos, partes inteiras que eu não lembrava de ter lido, e aquela passagem por Veneza, minha nossa, eu sabia que havia uma parte em Veneza mas eu não lembrava dela ser assim… tão sombria… tão incrivelmente embruxada… tão maravilhosamente densa! Ah, o fio que conduz o mago enlouquecido aos salões das fadas, seu punho batendo nas pedras da igreja. Não, eu não lembro de ter lido esse livro, se alguém o leu não fui eu, não fui eu a que chegou ao final devorando as páginas com pressa e delícia, amedrontada com a frustração da primeira leitura, e, finalmente, encantada com ele porque, senhores, eu garanto, não fui eu quem leu da primeira vez, foi outra pessoa, outra mulher que não leu todas as palavras, não desfrutou de toda a magia e, é claro não compreendeu o final fora de série em que eu tive a alegria de mergulhar e dele emergir com a certeza de que não há maneira de reler um livro. Sempre é um livro novo, seja lá quantas vezes você o lê, mesmo que as frases se repitam e reze a lenda das edições que as palavras são as mesmas e que os textos são coisas imutáveis, impressas no papel para todo o sempre, amém. Um livro não é algo tão simples. Não são apenas palavras plasmadas no papel ou na tela do tablet. Um livro é composto de duas partes: a história e o leitor. Não há livro sem leitor e o leitor nunca é o mesmo. O tempo passa, a vida acontece, perdas, danos, ganhos, conquistas, nós somos desiguais a cada dia e a cada dia somos outro, parecido com o de ontem mas nunca, nunca, a mesma pessoa. Daí que, como o leitor nunca é o mesmo, o livro nunca é igual, não existe uma releitura, existe apenas a leitura do agora, com sabor de vinho conhecido, mas nunca exatamente igual como o gole saboreado a pouco.

Precisei redefinir o “bom tempo” lá de cima. Não, não é um tempo extenso. É um tempo bom, um tempo de reencontro, de descoberta e inovação. As mesmas palavras de sempre, repetidas até a exaustão, nesse 2020, talvez, mas nunca, nunca, mesmo, presas à mesma definição.

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