‘MULHERES EMPILHADAS’, DE PATRÍCIA MELO

Por Dani Langer

Embora tenha lido “Mulheres empilhadas” em março, sinto que o texto seguiu, e segue, a ecoar. Aquele livro que carimba o nosso eu-leitor com uma tinta persistente. Seja pela forma com que a história cola com a realidade, ou pelas múltiplas camadas de significados, o romance de Patrícia Melo foi a leitura mais marcante (ouso dizer, a mais necessária) do ano.

Como nas narrativas anteriores da autora, o romance se desvela em um cenário para lá de realístico. Neste caso, um Brasil onde o machismo cultural termina na forma de violência sistêmica contra a mulher. Além de afundar o dedo na ferida social, escancara o desprezo da sociedade em relação às mulheres pobres, pretas e indígenas.

O romance é narrado em primeira pessoa por uma jovem advogada paulistana agredida pelo namorado em uma confraternização de fim de ano. A partir da experiência pessoal, a protagonista inicia uma jornada que envolve encarar uma mudança de São Paulo para o Acre para trabalhar junto a mulheres vítimas de violência. Do concreto, nasce uma jornada subjetiva: para entender a si mesma e seu auto-engano em relação ao namorado, precisa remexer no passado e reviver um antigo trauma familiar.

Patrícia Melo estrutura o romance em três eixos discursivos alternados em capítulos: o primeiro com dicção realista e violenta onde se desenvolve um enredo típico de um romance policial; o segundo, utilizando de linguagem jornalística, relata histórias de mulheres reais vítimas de feminicídio. Em ambos, as estatísticas reais e o trabalho de pesquisa se misturam com a ficção. O terceiro plano bebe na tradição do realismo mágico latino-americano: o encontro com o onírico através de cascatas de imagens. Neles, a linguagem deixa de ser áspera e se aproxima da prosa poética. No meio da selva amazônica, a protagonista experimenta o poder do primitivo em relação à racionalidade e encontra força nas beberagens das ervas alucinógenas, nas deusas indígenas e nos ritos de guerra e cura. Destaque na produção literária contemporânea e principal representante em atividade do gênero policial no Brasil, Patricia Melo oferece ao leitor um romance que pelo tema é de difícil digestão, porém ganha força e beleza no equilíbrio da linguagem.

Leia mais da autora em Sepé.

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