‘O AVESSO DA PELE’, DE JEFERSON TENÓRIO

Por Marcos Weiss Bliacheris

A Porto Alegre de 2020 elegeu uma inédita bancada de mulheres e jovens negros para a Câmara de Vereadores e um inédito patrono da Feira negro, Jefferson Tenório, no ano em que o evento se mudou da praça com jacarandás para as telas e telinhas.

É a mesma cidade que assistiu ao violento assassinato do negro João Alberto Silveira Freitas no estacionamento de um hipermercado e à morte da líder comunitária negra Jane Beatriz Silva Nunes em uma ação policial na Vila Cruzeiro.

Mas também é a capital onde um candidato derrotado atacou essa bancada invocando sua suposta pouca “qualificação formal”, onde as pessoas acreditam que a morte no Carrefour foi merecida ou, pelo menos, causada por ele e que a ativista do morro faleceu em decorrência de um mal súbito sem qualquer ligação com o contexto que aconteceu, a invasão de sua casa.

Essa Porto Alegre dos assassinados é negra como o patrono e vereadores eleitos de 2020.

“O avesso da pele” percorre as ruas desta Porto Alegre na qual o protagonista tem seu pai assassinado pela polícia. Racismo estrutural, violência policial, o fracasso da educação pública, são vistos em um exame do passado e da relação de pai e filho. O racismo “cordial” e recreativo do brasileiro vai invadindo tudo e não deixa nada a salvo: relações amorosas, familiares e o direito de ter voz ou andar despreocupado na rua.

Em recente entrevista, Jefferson lembrou as abordagens policial que sofreu (mais de uma dúzia) e confessou evitar o shopping Moinhos de Vento em razão de incômodos com os seguranças do local. Já a mãe do protagonista de “Marrom e Amarelo”, de Paulo Scott, evita pisar no Zaffari Ipiranga, pois lá “não se via um funcionário negro”.

“Marrom e Amarelo” é outra obra que traz essa Porto Alegre e que considero um livro irmão de “O avesso da pele” ou, no mínimo, um grande amigo, que se encontrariam em um dos bares do Bom Fim ou do Partenon ou em alguma parte da Santana. A obra de Scott também traz à tona as relações familiares e amorosas permeadas pelo racismo que se inicia com a cor da pele mas vai se entranhando e se apossando de tudo.

Pedro, o filho do livro de Tenório, é instruído por seus pais para que “não chame a atenção dos brancos. Não fale alto em certos lugares, as pessoas se assustam quando um rapaz negro fala alto.”

Sorte que o escritor não seguiu esse conselho e com sua voz potente, falou alto e chamou a atenção dos brancos em um livro indispensável para ser lido no Brasil da pandemia. Aquela “gripezinha” que mata mais os negros, mostrando que o fantasma do racismo segue assombrando no “novo normal”.

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