‘O DUQUE DA SENZALA’, DE VALDOMIRO MARTINS

Por Luís Roberto Amabile

Como sempre, muito, muito difícil escolher as leituras do ano, pois, claro, foram tantas, e nos meio das tantas há sempre mais que algumas que cativam. Então selecionar sobre quais escrever significa deixar outras de fora que também mereceriam estar aqui. Mas vamos lá, com foco em livros (injustamente) menos conhecidos, de editoras independentes:

O duque da senzala (Class/ Bestiário, 2019), de Valdomiro Martins.

Comecemos pelo óbvio. Valdomiro Martins, um autor negro, escreveu um romance histórico narrando a jornada de Ábedu Lecur, O duque da senzala, um fictício ex-escravo que busca espaço no meio social e político no Rio Grande do Sul da século XIX. Tal fato já deveria servir para que se olhasse este livro com atenção. E, olhando o livro com atenção, lendo-o de cabo a rabo, encontramos, além da questão da representatividade, uma narrativa cheia de som e fúria. Valdomiro, mestre e doutorando em Escrita Criativa, domina a técnica da escrita romanesca. Reconstrói com cenas poderosas a guerra conhecida como Revolução Federalista e conduz seu personagem ao “coração das trevas”. Cito um trecho: Ábedu Lecur apenas ouvia as palavras de Egas Faraó a se repetirem como se fosse a multiplicação de um pesadelo. Não havia resposta alguma para isso, nem uma compreensão possível”. Por fim, arrisco-me a dizer que se o livro fosse publicado por um dos conglomerados editorais que dominam o mercado brasileiro e assim tivesse à disposição todo o aparato midiático, eu seria mais um apontando-o como uma das leituras memoráveis do ano.

Luz em nevoeiro (Modelo de nuvem, 2016), de Iuri Müller.

Esta revista Sepé antecipou minha indicação de uma das leituras do ano, publicando um dos contos de Luz em nevoeiro. O livro, lançado no final de 2016 e, para mim, foi um daqueles que comprei e coloquei na lista de obras a serem lidas. A pandemia fez com que saísse daquela lista e entrasse em outra, nesta. Iuri Müller cultiva, digamos assim, “uma paixão porteña”. Tudo que se relaciona à Argentina e, principalmente, ao Uruguai, o interessa. A paixão está representada neste livro – mais uma obra resultante da pós-graduação em Escrita Criativa –, que faz o leitor, às vezes, pensar que está diante de uma história de Felisberto Hernádez, de um do contos de Benedetti em Montivideanos. É isso, mesmo se têm como cenário Porto Alegre, as narrativas parecem se passar numa nostálgica e algo decadente capital porteña. Talvez seja o nevoeiro do título, que tudo confunde, mas no meio do qual o autor nos aponta o caminho. Uma última consideração: acho que mais gente comprou o livro e não o leu de início, pois é incompreensível que não tenha sido finalista dos prêmios literários gaúchos.

Karen (Todavia, 2018), de Ana Teresa Pereira. Cito mais um livro de alguém, a exemplo de Valdomiro Martins e Iuri Müller, pouco afeito à badalação dos eventos literários. Avessa às entrevistas, a portuguesas Ana Teresa leva uma vida discreta na Ilha da Madeira. Por isso, certamente, era quase desconhecida no Brasil até 2017, quando seu romance Karen ficou em primeiro lugar no Prêmio Oceanos, a primeira mulher a obter a distinção máximo em quinze edições do prêmio. Foi por isso que resolvi começar a ler seu romance e não consegui parar. Ana Teresa, descobri depois, já publicou mais de 30 obras e construiu um estilo com marcas muito próprias, o que se ressalta em Karen, um romance circular, pós-moderno, repleto de intertextualidade, principalmente com o cinema. Uma narrativa enxuta e onírica, com ecos de Hitchcock e Kafka. Difícil falar mais sem dar spoiler, então digo: #leiamulheres, #leiaanateresapereira, #leiakaren.

Leia do autor o lançamento O lado que não era visível para quem estava na estrada (Zouk, 2020).

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