‘O INVERNO E DEPOIS’, DE LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL

Por Jair Portela

Acabo de ler O inverno e depois, de Luiz Antonio de Assis Brasil. A obra também poderia chamar-se Outrora, ou Al otro lado del río… Ou simplesmente Constanza. É um romance refinado, instigante, exigente, especialmente lindo, com um vocabulário rico e sofisticado, mas ao mesmo tempo palatável.

Apresenta o protagonista como um homem tímido, introspectivo, mimado e observador, características invariáveis de todo filho único. Julius, o personagem, é violoncelista, e leva a vida dentro de uma partitura, fria e exata, que executa quase sem desafinar. No primeiro movimento é regido pelo seu talento imberbe e a vontade de tia Erna, que o cria após tornar-se órfão. Troca de regente, mas se mantém no primeiro movimento quando vai desenvolver-se na escola clássica de Würzburg, na Alemanha. Lá é assaltado pela sensação própria dos mortais, que não estilizam sentimentos nem os definem com frases mentais. Ao invés das frases, se queda a descrição frenética do óbvio: “Estou apaixonado, é isso”.

Julius conseguiu sair do primeiro movimento quando retornou ao Brasil, dolorido, deixando para trás uma parte de sua vida “a mais rara, a única que foi capaz de amar”.  Passando para o segundo movimento com a regência da esposa Silvia, e dali só começou a sair para o terceiro, 25 anos depois, ao “chocar-se” com Antônia, a meia-irmã, causa de dissabores familiares, quando descobre o afeto e a cumplicidade que só existe entre irmãos, ainda que irmãos pela metade. A obra conspira no terceiro movimento, que tem um momento decisivo, quando Julius despretensiosamente, mira o espelho do camarim exclusivo, de visão poliédrica e, enfim, vê um homem.

O inverno e depois é um romance em que vamos entrando devagar, quase que imperceptivelmente. Uma espera cansativa no aeroporto; uma viagem ainda mais cansativa ao pampa desolado, às lembranças que nunca morreram.  Desconfio, entretanto, que não se consegue sair tão cedo desse enredo.  Ao término, vi um filme, o meu filme de roteiro inacabado, com os personagens me olhando atônitos esperando as últimas falas. Ao invés disso, eu apenas repito a Julius o recado do Elton John, e que Constanza, seu único e definitivo amor, levou a pé da letra: and never forget I’m your man (e jamais se esqueça de que sou seu homem).

Vivo de ser um latinista, em forma e conteúdo. Portanto, da mesma maneira que passei um terço do livro aborrecido com Julius e suas inseguranças, sempre batendo em retirada, me apaixonei perdidamente por Constanza. Nela coloquei todos os rostos dos meus amores, os que tive e os que imaginei ter, e todas as amarguras que se sucederam após as eventuais separações, sempre temperadas por sons, jeitos e músicas de época.

Onde andará a minha Constanza? Cheirando a água Farina Gegenüber, misturado com tabaco e cloro de piscina?  E súbito me dou conta que ela está aqui, bem aqui ao meu lado, me olhando curiosa. Que não tem segredos ou mistérios, porque deve estar no pacote das atenções de quem ama, perscrutar as entrelinhas do outro.  É assim que se faz, seu Julius! De resto, jamais esperar trinta anos para viver cada segundo sem hesitar, como ensina o Elton.

Sei, e não vou esquecer tão cedo como são, em vida, todos os personagens de O inverno e depois. De Julius a Peter Ustinov, passando por Boots, Antonia e Mickey Rooney. Os reconheceria na rua, caso nos cruzássemos. Já Constanza estará sempre comigo.

Dvorak compôs a obra, obsessão de Julius, em três movimentos, como a vida que vi no protagonista. Este, entretanto, porque custou a descobrir-se e pelas intercorrências que viveu, contentava-se em executar somente o primeiro. Ao fim, entretanto, não poderia, depois de um lapso tão longo de tempo, um amadurecimento repentino, culminando com uma extraordinária sucessão de “coincidências”, deixar de executar a obra completa, que tinha “de cor e salteado”, à plateia do presente; do pretérito que poderia ter sido mais-que-perfeito, e para um especial futuro do pretérito.

Depois de ouvir Dvorak, porque se impunha que ouvisse, fui ouvir as Bachianas, do Villa Lobos. Quando Bidu Saião terminou, me fui àquele que, de certa forma, inspirou o romance. Fui ouvir Elton John e sua apostolar I Guess That’s Why They Call It The Blues (Acho que é por isso que eles chamam de tristeza – ou algo assim). O texto instiga a ouvir clássicos concomitante e compulsivamente.  

Sempre há muito que dizer das obras do mestre Assis Brasil. Mas ao fim sempre faltam adjetivos, e eu vou me cansar de procurá-los.

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