‘POETAS DA DURA NOITE’, ORG. DE RAUL ELLWANGER

Por Adriana Bandeira

Sobre poesia e escritos  tem me chamado a atenção o tal encurtamento da linguagem, quando um texto ou livro diz por si pela sua capa, pela cor e serve de enfeite na mesa de centro de alguma casa, estabelecimento, escritório ou lugar de espera. Ah! A superfície que imita uma estética, destacada por algo tão raso, tão pouco como se bastasse à civilidade qualquer espelho que não seja profundo. Talvez por isso tenho me ocupado de pensar as autorias, os contextos  que nomeiam um Autor de um texto. Não que isso seja o que diz da obra mas, cá entre nós, dizer do autor, muitas vezes é reconhecer dois campos: o da escrita e o da inscrição. Foi assim com o livro “ Poetas da Dura Noite”. Quer dizer: não foi bem assim!

No início aproximei-me da ideia do livro porque colegas e amigos próximos falavam do projeto que era uma coletânea de poemas escritos em meio a barbárie da prisão, exílio ou tortura de pessoas que lutavam contra a ditadura militar. A poesia feita em papel de cigarros, na parede de algum muro ou em cartas para os que amavam dizia de um momento, uma noite que estava por inscrever-se na história de cada um e na história de um país.

Tudo isso fez-me querer muito o livro, o objeto preciso e infinito, fez-me querer tê-lo jamais na mesa de centro.

Porém, a leitura dos escritos, ah! A leitura das poesias fez uma rasura na figura que o contexto antecipava! Cada poema gravado numa letra, palavra, dizia e diz  de uma singela homenagem ao outro, semelhante!, que por ventura quisesse e quer saber de um tempo que não passa sem parar. O livro diz de um endereçamento íntimo e universal às prisões que torturam o corpo onde mora o poema que se libera vez ou outra, e fala para sempre.

Também perguntei-me sobre os escritos das mulheres:  onde estavam? Ao final do livro, na última página, encontro com Vera , que talvez não por acaso tenha me feito ser outra, como verdade. Vera não escreveu um poema igual aos outros. Na parede do DOPS de Porto Alegre, Vera deixa uma inscrição feita com um grampo, em letra “ de forma impecável, na parede da cela número 1” :

“ Abraços aos companheiros que por aqui passarem…”

E depois de Poetas da Dura Noite, nunca mais deixei de dizer.

Leia mais da autora em Sepé.

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