‘PONCIÁ VICÊNCIO’, DE CONCEIÇÃO EVARISTO

Por Maria Alice Braga

O ano de 2020 ficou marcado pelo isolamento social em função da pandemia, mas, para  mim, especialmente, pelos livros que li, e não foram poucos. Uns se destacam mais que outros, no entanto, minha indicação de leitura é o romance de Conceição Evaristo, Ponciá Vicêncio. A primeira edição foi em 2003, financiada pela autora e publicada pela editora Mazza, mas eu só o conheci em 2020, 3ª edição, depois de ler Olhos d’água, da mesma autora. De tanto gostar fui atrás de outros livros de Evaristo e adquiri Ponciá. O exemplar chegou na minha casa em uma tarde de maio, desembrulhei o pacote do volume de vários livros, e a capa me chamou a atenção pela cor, rosa intenso, e pela marca d’água, uma mulher negra, vestida de branco com olhar ausente, uma mulher alheia do seu eu. Nem precisaria dizer que, em poucas horas, devorei a história. Reli mais duas vezes  a narrativa  que  me desassossegou.

Evaristo afirma que a história de Ponciá estava guardada há mais dez anos à espera de ser publicada, o que me permite inferir que esse longo período de incubação talvez tenha sido necessário para o amadurecimento do profundo e doloroso percurso de Ponciá. Do início ao fim da história, é a memória o fio condutor das ações tanto da protagonista como das demais personagens, pois são as lembranças de Ponciá que nos conduzem aos seus ancestrais, que agonizaram nas próprias terras, invadidas, colonizadas, exploradas.

No romance de Conceição Evaristo, notamos que as mulheres e os homens, as crianças e os velhos se imbricam em identidades de pertencimento, forjadas duramente pelo senhor das terras/colonizador, tornando-se identidades híbridas.

Na história de Ponciá Vicêncio existe um atrelamento entre as experiências da jovem protagonista, assim como a experiência coletiva representada, principalmente, pela figura de seu avô, Vicêncio, escravo que enlouquece após matar a própria mulher, mutilar-se e tentar matar os filhos frente a dolorosa ameaça de vê-los escravizados para sempre.

Sobre esse aspecto, a permanência da escravidão para seus descendentes perturbava o Vô Vicêncio que não vislumbrava nenhuma outra possibilidade para os seus, pois o significado da escravização e do apagamento dos negros, no mundo, na vida e na memória transmutava as pessoas em não seres humanos.

Em Ponciá Vicêncio, a continuidade do avô é garantida por sua neta, que carrega consigo as marcas da lembrança da ancestralidade. A memória, elemento de identificação que conduz a história, assim como o esquecimento, são recortes plenamente identificáveis em Ponciá, a protagonista, e nas demais personagens de Evaristo, tanto em suas travessias pelas terras, quanto nas errâncias.

A escrita de Evaristo mostra ao leitor as marcas de um passado não muito distante e carece da memória para (re) afirmar sua identidade e sua cultura. Uma obra necessária.

Leia mais da autora em Sepé.

🛒 Clique e encomende o seu exemplar

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s