‘POR CAUSA DE VOCÊ MENINA’, DE MARIA OTTILIA RODRIGUES

Por José Eduardo Degrazia

Não vou cair na cilada de dizer que Maria Ottilia Rodrigues é um fenômeno por estar escrevendo tão bem e com tão pouca idade. Nem vou comparar com Casimiro de Abreu, nem muito menos com Castro Alves, pois desejo uma longa vida literária para ela. Nem aproximarei Maria de Rachel de Queiroz que aos vinte anos tinha publicado o romance O quinze. Todas essas aproximações pareceriam fora de lugar e desnecessárias. Porque Maria Ottilia tem uma personalidade literária especial, um lado romântico só dela, mesclado a uma insatisfação por conhecimento e entrega à vida só dela. O outro motivo para não fazer comparações é que ela é simplesmente uma escritora desde sempre. Comporta-se como escritora, fala como escritora, escreve como escritora. Tem muito a apreender ainda? E quem não tem? Escrever foi o caminho para o qual foi destinada ou escolheu para o bem ou o mal. O que se vê nela é a paixão pela escrita, uma arte visceral.

Tendo se lançado nas letras com o livro de poemas Savanália, nota-se a entrega, já antes falada, à vida, ao corpo, ao amor e ao mundo. Um livro ainda incompleto, de material adolescente, mas que mostra os abismos possíveis, os caminhos e as pontes para uma criação mais elaborada. Tal acontece no seu segundo livro de poemas, Canibalística, Editora Class, Porto Alegre, 2020. Apesar do Mario Quintana dizer que ele nunca evoluíra, sempre fora ele mesmo (mas bem, ele publicou o seu primeiro livro quando já tinha quarenta anos), o que se nota na trajetória da maioria dos escritores é um maior domínio dos seus processos criativos a cada livro que passa ou fica. É o caso desta nova coletânea de versos. Uma personalidade poética que se com/forma e se declara, como nesse poema Genética, p. 14:

                                               Nasci com olhos cansados
                                               e castanhos feito tronco
                                               madeira forte…bem forte
                                               mas os olhos…esses olhos
                                               pena deles! Tão bandidos 
                                              não queira observar muito
                                              verás aflição também.

Uma pesquisa nos ritmos clássicos da poesia não faz mal a ninguém, pelo contrário, organiza a fala poética e lhe dá forma. Daí as redondilhas, os decassílabos, o soneto. Mas sem abandonar o verso livre onde tem muito bons achados, como em Navegante Sou, p. 30:

                                                 Sou barco. Sim, barco
                                                 Este que enxergo em completo abandono
                                                 Em uma casa deixada à margem do tempo

Chegamos, assim, ao seu livro de prosa, a novela ou romance Por causa de você menina, Editora Class, Porto Alegre, 2020. Já o título nos chama a atenção pela escolha do você, em relação à segunda pessoa usada na narrativa. Mas à proporção que vamos lendo, entendemos que o título vem de uma canção do Jorge Benjor. E se mostra uma característica importante da personagem explicitada no capítulo 35, p. 84: “Ouviam Por causa de você, menina, Jorge Ben Jor. Ela fumava seu cigarro olhando as paredes, as estantes, a mesinha de centro e auxiliar, quando levantou, largou o cigarro aceso no cinzeiro e começou a rodopiar. Fechou os olhos, não se importando com a probabilidade de esbarrar nos móveis e quebrar algo, apenas queria sentir a música penetrando em seu corpo.”

A música faz parte da evolução da narrativa e da formação da personagem, que não tem nome, sendo chamada apenas de Menina. Ela é quem diz, na mesma página, a importância da arte para ela: “Ela disse que entendia que a arte podia ser inútil. Olhar o quadro daquela linda mulher nua que estava pendurado podia ser inútil, ouvir uma música podia ser inútil, mas nessas pequenas coisas que ela encontrava algum motivo para continuar viva, para não viver a monotonia dos dias.”

É, portanto um romance de formação, onde a personagem indaga, pergunta, argumenta, pensa. É um romance de ideias, sem que se perca, em nenhum momento, a dimensão da vida. A menina busca através de encontros e desencontros, de perdas e ganhos, uma dimensão maior na existência onde o amor pode ser tudo isso ou nada, numa despedida para sempre, por exemplo. Mas tudo permanece, tudo se recupera, e a palavra, o texto, é a teia que Maria Ottilia prepara para seus personagens, ao mesmo tempo livres e prisioneiros de suas atitudes. É o que ela diz sobre isso, na p. 30: “A escrita é uma espécie de passado recorrente. É algo fatal, como a morte. Sabemos que iremos morrer e continuamos com nossas histórias, nossos contextos estranhos. Uma espécie de livro da vida (…)”.

Nessas histórias, nesses contextos estranhos, a personagem se perde e se encontra e leva o leitor consigo. O que podemos desejar mais? Que Maria Ottilia nos dê mais poemas e narrativas como essa primeira, desenvolvendo cada vez mais o seu talento.

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