‘SOBRE O AUTORITARISMO BRASILEIRO’, DE LILIA SCHWARCZ

Por Letícia Möller

Lançado em 2019, “Sobre o autoritarismo brasileiro”, de Lilia Schwarcz, é um livro importante e elucidativo, que analisa o autoritarismo no país, de raízes tão profundas quanto a nossa História desde os tempos do Brasil-colônia, e seus tentáculos que alcançam as mais variadas esferas da vida: do exercício de direitos à concepção de família, à relação com o corpo e a como se modulam nossas relações sociais.

Lilia examina a relação do autoritarismo com males históricos do país, evidenciando como ele, no passado ou no presente, autoriza, estimula, justifica e legitima a escravidão, o mandonismo, o patrimonialismo, a corrupção, a desigualdade social, o racismo, a violência urbana, o preconceito de gênero e a homofobia, traçando o retrato de uma sociedade apenas em aparência cordata e pluralista.

Ao contrário da frequentemente alegada cordialidade e tolerância dos brasileiros, o fato é que historicamente e ainda hoje aceitamos conviver com uma parcela expressiva da população relegada a uma cidadania precarizada, com o uso do Estado para fins privados, com o desvio de recursos pela corrupção, com a falta de políticas públicas suficientes para a efetivação de direitos sociais garantidos constitucionalmente e para a redução de uma desigualdade socioeconômica que está entre as maiores do mundo.

O brasileiro é “cordial”, já dizia Sérgio Buarque de Holanda no clássico “Raízes do Brasil”, lembrado por Lilia, em um preciso sentido que remete à etimologia da palavra (lat. cor, coração), usado por Holanda para tecer uma crítica à primazia das relações pessoais e afetivas no âmbito público e político brasileiro, em detrimento das instituições e das leis, quando se estabelecem relações viciadas entre indivíduos, sociedade e Estado, entre bem público e interesses privados. São exemplos os favorecimentos recíprocos, o nepotismo, o recurso a “pistolões”, o tráfico de influência e a corrupção, que agravam a falta de zelo pelo coletivo, pelo que é de todos.

E se desde o período da redemocratização parecíamos vir num movimento ascendente de reconhecimento e efetivação de direitos, com a introdução de uma agenda inclusiva e do compromisso de reduzir as desigualdades no país pela Constituição de 1988, vivemos nos últimos anos um período de maior fragilidade da nossa democracia e de conquistas que pareciam consolidadas, pelo retorno de tendências autoritárias no âmbito público, que reverberam no âmbito privado.

A corrupção se espalha quando há um ambiente a ela favorável, reflete a autora, e é essa mentalidade que precisamos combater. O desvio de recursos públicos mina o desenvolvimento social e econômico e agrava a desigualdade. A desigualdade não pode ser encarada como algo natural, imutável, tampouco como uma contingência ou circunstância acidental. Ao contrário, diz Lilia, “ela é consequência de nossas escolhas”. Cabe a nós, enquanto sociedade, fazer boas escolhas e travar as batalhas certas por uma cidadania plena a todos.

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