3 poemas de Lucas Barroso

Poema das crianças

O bebê de um ano e onze meses morto a pauladas pelo pai,
As dez crianças mortas pelo vigia que ateou fogo na creche,
O menino assassinado pela polícia dentro casa com setenta e um tiros disparados a esmo,
O garoto estrangulado pela mãe,
O garoto empalado pelo homem desconhecido,
A menina alvejada pela facção rival do pai,
A recém-nascida morta pela mãe, guardada em uma sacola plástica e descartada no container de lixo orgânico,
O garoto que vendia rapadura na rua, morto com a promessa de que teria todos doces comprados se fosse a casa do assassino,
O menino que recebeu a injeção letal a mando do pai,
O menino arrastado por sete quilômetros do lado de fora de um carro por assaltantes,
A menina atirada da janela do sexto andar pelo pai e a madrasta,
O bebê de duas semanas que foi esquartejado e teve partes do corpo comida por cães,
O menino assassinado com dois tiros no rosto antes do pedido de resgate,
O menino com síndrome de down morto com água fervente pela mãe,
A menina estuprada e que teve o corpo sem vida jogado no telhado pelo vizinho,
As duas crianças mortas em um ritual e que até hoje não foram identificadas,
O menino assassinado com uma facada no pescoço pelo pai que tinha ciúmes da mãe,
O pequeno que morreu afogado fugindo guerra e foi encontrado de bruços na beira da praia,
O bebê de noves meses morto de fome e desidratação pela mãe que o deixou por sete dias em um carrinho e saiu de casa,
E o feto de cinco meses abortado de uma menina de 10 anos que era estuprada pelo tio

Não se tornaram pessoas más,
Porque a sociedade
Não os corrompeu.

Pai e filho

É tanta informação
Que, às vezes
Esquecemos de algo
Mas que essa terra tem dono
Sabemos bem
As bombas
(Que não nos acordam mais)
Os tanques
As capturas

Hoje, a tropa aliada reconheceu um traidor
A ordem foi escalpelá-lo
(O que virá depois?)
Há diversas versões
A razão não sabemos ao certo
O homem se mostra resignado
Seus olhos vazios
Parecem não ver a aglomeração
Nem a curiosidade dos outros

É quase noite
Seguimos aqui
De cima do muro
Eu e meu pai
Assistimos a guerra

Brevíssimo conto de um mundo bom

Eles dizimaram toda a comunidade
Deixaram
De forma meticulosa
Apenas um
Para contar a história
Que se sucedera

Este
Negou-se a passar adiante tamanha brutalidade

Lucas Barroso, natural de Porto Alegre, é autor de Virose (romance, 2013), Um silêncio avassalador (contos, 2016), Um gato que se chamava Rex (infantil, 2018). Os poemas Pai e filho e Brevíssimo conto de um mundo bom fazem parte de seu livro mais recente, O tempo já não importa (poesia, 2020). Poema das Crianças é inédito em livro. Outras informações sobre o autor em lsbarroso.blogspot.com

POESIA

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