3 poemas de Mário Baggio

Parto

Quando você não tiver nada,
restará pelo menos a escrita.
Foi algo que você prometeu em público,
ao vivo:
escrever até morrer,
morrer se não escrever.

Se, por acaso,
até escrever for difícil,
quando nenhuma ideia lhe ocorrer,
nem nova nem velha,
abra a garganta e grite.
Coloque esse grito no papel.
Sei que é só um grito,
mas vale mesmo assim.
Preferível é gritar a se asfixiar.

À falta de algo melhor,
mais elaborado,
escreva um poema.
Um simples poema,
um poeminha,
uma pequena punção na altura do pescoço,
suficiente para aliviar o sufoco.

Funciona como uma cesariana:
o pequeno bastardo não sai por onde deveria,
nem como deveria,
mas sai.
Se você tiver sorte, ele vai respirar.

Resumo

seis dias, Universo, descanso,
barro, costela, tentação,
serpente, maçã golden, expulsão,
Caim e Abel, crime, danação,

bichos, arca, Noé, chuva,
Babel, não te entendo, foda-se!
Abraão, não precisa matar o Isaque, era brincadeira,
maná, mandamentos, Mar Vermelho, o último é mulher do padre!

virgem, carpinteiro, Ave,
Reis Magos, frio do cão, estrela brilhante,
Filho do Homem,
os doze, amor e nada mais, pregação, detenção,
calvário, cruz, INRI, sete palavras, chagas,
Madalena, Pietá, sepulcro, ressurreição,
dou-lhes a minha paz, fiquem com ela.

inveja, ambição, poder, vaidade,
ricos, pobres, miséria, ódio, pranto,
santos, demônios, medo,
armas, guerras, mortes, genocídios,
bestas,
Armagedon, Apocalipse.
Fim.

Herança

Diz a moça:
— Minha mãe me ensinou a bordar,
o dedal no dedo do coração,
usar o fio em meadas curtas,
me ensinou a fazer o ponto chevron,
que era francês,
e a arrumar a mesa com porcelanas, pratas e cristais:
primeiros os pratos, depois taças, em seguida talheres.
Minha avó me pôs para passar
os lenços, os lençóis, as toalhas,
a fralda do menino se dobrava em triângulo,
para facilitar na hora do uso,
a camisa do cavalheiro tinha que ter vinco
na manga comprida de punho inglês.

— Então você veio de uma boa família.

— Não, sou uma das filhas da empregada.

Mário Baggio é jornalista, escritor e blogueiro. Mantém o blog http://www.homemdepalavra.com.br, em que divulga diariamente sua produção literária. Publicou 4 livros de contos: “A (extra)ordinária vida real” (Autografia, 2016), “A mãe e o filho da mãe e outros contos” (Autografia, 2017), “Espantos para uso diário” (Coralina, 2019) e “Verás que tudo é mentira” (Coralina, 2020). Teve textos publicados em várias revistas eletrônicas, entre elas Vício Velho, Diversos Afins, LiteraturaBR, Literatura&Fechadura, Gueto, Ruído Manifesto, Crônicas Cariocas, Escrita Droide, InComunidade e Subversa. Participou da “Antologia Ruínas”, da Editora Patuá, e da coletânea “Fragua de Preces”, editada em espanhol.

POESIA

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