4 poemas de Mariana Machado de Freitas

Reflexo

Existe só uma opção e o resto está errado.
Aquela força frágil de embrião perfeito,
nutrido a sangue e cinza em cada ventre-peito,
canta: é preciso amar o amor além do amado.

Trago meu dote em saco de estopa amarrado.
Não vais achar ali mais que incrustado espelho
num coração chagado — mas olha direito:
se, quando exposto ao sol, aos olhos tem queimado,

espera a noite, que meu dote são estrelas —
as que não tenho, as que não tens. Porém, enquanto
vais ocupado em persegui-las pelos cantos,
levas na mão meu coração e o regeneras.

Um urso branco

Quando acordei, de manhã,
vi no ar-condicionado a fauce chata
de um urso polar, focinho e boca
(como um boneco de ventríloquo).

Um episódio, assim,
de extrema incomunicabilidade.

Aquela imagem vívida e inusitada
e que só minha, sem comunhão.

Eu entendi a insuficiência das palavras.

E, se tentasse te explicar
com algum sucesso e muito empenho,
tu me dirias: “fechando um pouco
os olhos, pode ser…”

E isso nunca é a mesma coisa…
não é aquilo que estou vendo,
não tem o cheiro fresco da surpresa.

E é sempre assim que se profana algum mistério.

Satélite

Perto das quatro acendo
o sol da madrugada na sacada.
Se confundi os pássaros, não sei.
Tenho um vizinho músico ou
vizinha música, deduzo; ouço
que é música de músico (insone).
Por fim, apago meu satélite de LED.
Gosto do escuro mais escuro.
Deito; projeto uma cena no teto.
Será que durmo?
São quatro e vinte e três
e um galo canta doze vezes,
em intervalos de, talvez,
vinte segundos.
Depois, afundo. Longo voo.

Duração

Abana o leque, borboleta aguda!
É grave o dia em teu filete frágil —
a verdadeira substância, o maio,
último estio antes de vir a chuva.

No mês que vem outra te continua,
com outro remo e vela e igual presságio.
Quatorze sóis dão conta do teu rastro
e em duração de flor a valsa é curta.

Não vi que vinhas junto às astromélias,
até que uma saiu pela janela…

Mariana Machado de Freitas nasceu em Pelotas (RS). Poeta, mestre em Poéticas Visuais (UFRGS), bacharel e licenciada em Artes Visuais (UFSM). Autora de Cães e astromélias, no prelo.

POESIA

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