5 poemas de Armando Moura Filho

Animal microscópico sobrevive
Vinte e quatro mil anos em geleira
Da Rússia;
A vida é virtualmente eterna
Fora do circuito religioso.
Isso, confesso, me entusiasma.
O texto que segue ficou prejudicado
Com a descoberta –
Tenho 77 anos de idade e
Apenas dois de poesia.
Não disponho de muito tempo
Para me aprimorar ( essa premissa ruiu ).
De qualquer modo, estou presente e ativo
Nas madrugadas sempre tentando meu
Melhor voo, o que dê sentido a minha
Existência e a faça digna das minhas netas.

Experiência humana
Quando do ocidente chegava
O rubro céu do crepúsculo,
E o pintassilgo vinha ao alto
Das árvores cantar a tristeza
Do ocaso do dia,
Cheio de saudade meu jovem
Coração evocava o passado,
Os inesquecíveis e intensos
Dias vividos na doce infância;
Aquele horário, aquele sol minguante,
Compunham uma imagem afetiva
Misteriosa, que me lançava ao fundo
Da existência mesma,
Na mais radical experiência da minha
Curta vida e que lhe dava sentido
E glória.

Nas épocas de mudança,
As novas ideias forjadas no fogo
Derretem a realidade, logo fazem
O mundo desabar, e o material remanescente
Serve de massa para moldar o novo mundo
Com formas novas e novo conteúdo.
Mas ainda não é o fim de tudo,
De tudo que é sólido.
Há um prazo de graça, de teste ou
Experiência em que se verifica se
O velho decididamente vai ou fica.
A resposta é oferecida com prudência
Pela sabedoria calma do tempo.
É ele sempre um exemplo…
Hoje é sábado, noite, muito vento;
Descrente, penso em tudo isso.

Nossos passos na areia
Eram seguidos como sempre
Pela leve brisa do Sul e pelo
Silêncio.
Seguíamos assim por muito tempo.
Poucas nuvens despontavam no horizonte,
Quebrando a monotonia do azul.
Já faláramos o que era preciso,
Mas eu tinha a secreta esperança de
Dar fôlego à nossa relação, que definhava
Nos útimos meses, passados junto ao mar,
Com os mesmos rituais – rituais do adeus,
Carregados de tristeza.
Como as coisas, mesmo as aparentemente
Mais sólidas, acabam de repente…

A espada risca o ar
Da manhã, no verão;
Verão também, em seguida,
Decepada, uma cabeça hirsuta
Saltar sobre o entrevero,
Nos olhos negros o desespero.
Amor e sangue, é desse tempero
Que a vida se faz,
Morrem uns na frente, depois
Os que vem atrás.
Até mais…

Armando Jorge Ribeiro de Moura Filho nasceu em Curitiba (PR) em janeiro de 1944, onde concluiu o colegial e ingressou na faculdade de direito da UFPR. Em 1967, transferiu-se para porto alegre e aqui concluiu o curso de Direito em 1970, na UFRGS. Depois de seleção pública, foi admitido no quadro de advogados da Rede Ferroviária Federal SA. Posteriormente, lecionou, no ensino superior, as disciplinas de Teoria do Estado e Direito Tributário. Em 1992, mediante concurso púbico, ingressou na Justiça do Trabalho, 4a região, como juiz substituto. Aposentou-se em 2001. Interessado por literatura desde jovem, tem na relação de seus autores preferidos, entre outros, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Dalton Trevisan, Sérgio Faraco, Rubem Fonseca, Raduan Nassar, Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Hemingway, Carver, Salinger e Calvino. Começou a escrever, predominantemente poesia, no ano passado, quando contava com 75 anos. 

POESIA

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