5 poemas de Carlos André Moreira

Profilaxia

Esfrego as mãos até a pele
Pelando, desfazer seus nós
E sabe-me a saibro e sabão
A pasta vencida das horas
Os olhos nublados da areia
vestígios de lágrima e pó
Tateio nos vincos da face
o rosto antigo que não tenho

Por mais que tome cuidado
Me corto todas as manhãs
No gume afiado do dia.

Amarcord I

Na cidade, vivia o Almirante
Apesar do nome, proezas náuticas
não havia em seu currículo de PM
Sempre sentado sozinho na varanda
Boca aberta como bebendo o sol
Perna ausente oculta no cobertor

“Maldição. Chutou a porta de um terreiro uma vez”
Diziam
“Espancou a amante a pontapés e ela rogou praga”
Diziam
“Pisou a cabeça de um cachorro. Deus castigou”
Diziam

Como era intrigante o quanto
as histórias cambiantes mantinham
intacto um único elemento
Uma maldade agressiva, feroz
Que não se via mais nos olhos baços
do velho alquebrado na entrada

Os boatos pintavam um homem
Que talvez não mais existisse,
seu mal ressecado ao sol
como ferida purulenta
Seu fel exaurido, esgotado,
sangrado até a anemia

E ainda assim

“A mãe de santo rogou: essa perna tu não tem mais”
Diziam
“Mau que nem a peste. Chutava puta grávida”
Diziam
“Escoiceava bicho só de ruim. Mereceu o castigo”
Diziam

A cidade o cumprimentava na varanda
Perguntava de seu dia. Respondia os acenos
Mas por dentro, fermentando como a febre
A cidade não perdoava
A cidade não esquecia

A voz do fogo

Caminho sem rumo pelas ruas quentes
De uma metrópole em que prédios queimam
Em que as disputas se resolvem nas chamas
E a política é fogo e querosene

Caminho e espero que a chuva amenize
o calor visceral de um ódio tão antigo
que paira no ar e percute meu peito
como uma angina que queima por dentro

Nesta cidade em que até vozes queimam
A ponte sobre o lago está bloqueada
E o próprio lago se tornou charco e lama
O verde se vai pela serra ou pelo vento

Nesta cidade que a natureza odeia
O sol no céu, arregalado e sem pálpebras
tal qual um olho mau, ígneo e sinistro,
Nos vigia com a constância das câmeras

Nos aquece com a força de um forno
e branqueia o ar como um osso calcáreo
Sem carne tendões nervos pele seiva.
Nesta cidade eu caminho sem rumo

E me equilibro, enfrentando o medo
de arder se parar por um só minuto
de me incendiar se desabar no solo
de derreter a qualquer movimento.

Amarcord II

Na cidade, vivia o Coração
bigode basto escovão eriçado
Sorriso fácil e poucas palavras
Camisas amassadas de manga curta
camisetas gastas de políticos

Melena eriçada e grisalha
um rosto vermelho e esquecível
Nenhum traço sequer de espanto
Nenhum grama sequer de escândalo

A não ser

Pela lenda à boca pequena
Coração não era seu nome.
Coração não era sobrenome
Coração era a condição mesma
que o tornava um milagre vivo

“O coração dele fica no lado inverso”
Diziam
“O sistema circulatório é do avesso”
Diziam
“O Arterial onde o venoso, e vice-versa”
Diziam

A minha mãe frisava sempre
que encarar os outros era falta
passível de punição física
Ainda assim, quando Coração
abordava meu pai na rua
para uma breve e afável conversa
Eu criança, cão-guia do pai cego
não conseguia afastar os olhos

E só sabia pensar admirado
Como podia Coração ser tão raro
Um caso para as Rider’s Digests
que minha avó empilhava no banheiro
Como Coração andava, falava, sorria
à solta e em paz. E quanto tempo teria

Até que a Nasa viesse
o colocasse em uma tenda
e o dissecasse, como nos filmes.

Réquiem

Nesta primavera
selvagem sem
seiva sem margem
enterramos nossos
mortos
e esperamos
tensos
a sentença.

Certeza, só uma,
desterrada e tesa
a de que tanto tempo
e ainda é inverno.
Haverá um verão,
se ainda tarda tanto?

Carlos André Moreira nasceu em 1974, em São Gabriel (RS). É jornalista formado pela UFRGS e cursou o mestrado em Literatura Portuguesa na mesma instituição. Publicou o romance “Tudo o Que Fizemos” (2009) e contos em coletâneas como “Fake fiction” (Dublinense, 2020), “O que resta das coisas” (Zouk, 2018) e ”Tu Frankenstein II” (2015). Mantém o canal Admirável Mundo Livro (Youtube.com/admiravelmundolivro).

POESIA

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