A CIDADE AUSENTE, por Iuri Müller

Caminho pela cidade vazia. Escolho os horários em que o vazio se acomoda e me ponho a caminhar. No primeiro dia, na verdade uma noite, fazia frio: frio e garoa, em uma segunda-feira, naquela cidade, já espantariam uns tantos; como havia, ainda, algo semelhante a um toque de recolher, o lugar era uma coleção de esquinas ermas. Subi em direção ao Centro, andei pelas ruas principais, desviei da Avenida, evitei as travessas; mesmo nas vias iluminadas se acumulavam as faltas. Durariam pouco, o frio, a garoa e as ruas tão imensamente vazias. Logo depois ventou, veio o vento morno e mesmo quente, o vento que antecede as mudanças bruscas na temperatura, nos ânimos, no anseio. O vento, na madrugada, espalhava os ruídos, os que restavam: o apito dos trens de carga a chegar e a deixar a estação, os carros que passam, as motos que entregam comida, o barulho de uns raros caminhantes que batem os pés na calçada e no asfalto, balançam as chaves nos bolsos da calça, alcançam a conversa breve, ao telefone, e ainda há os sussurros de quem caminha falando sozinho. Não estava mais erma, a cidade, mas seguia ausente. Caminho, desta vez no sábado, por quase duras horas. Busco agora outras direções. Deixo o Centro, desço algumas das ruas que me obrigam a dobrar e pegar outro caminho, pois em algum momento terminam; contorno o clube, costeio o estádio, venço o cemitério, deambulo, desta vez, por ruas estreitas de um bairro de casas baixas. É sábado, o vento morno está vigente, faz quase calor. Suo as mãos, sinto cansar as panturrilhas, percebo uma ligeira dor na perna esquerda. Volto com escolhas que são, penso, semiconscientes, pois estou cansado; descarto as ruas já percorridas, escolho com pouco critério as que ainda não andei e que me levam ao mesmo lugar. Não ando em linha reta, e nem poderia, mas me esforço em demorar-me; piso para trás e para os lados, adio a chegada ao parque. As ladeiras se acentuam, fazem o corpo cansado descer veloz. Já é quase noite, o crepúsculo de um sábado, e mesmo ali, onde vibram lâmpadas amarelas, lâmpadas que convidam, incitam a permanência, vejo uns poucos rostos e não reconheço nenhum. Não reconheço nenhum rosto. Ando mais alguns metros antes de encerrar o périplo, subir as escadas, tirar os sapatos. Depois de certo ponto, é mais fácil seguir andando que deixar de caminhar. Mas termino. O cansaço nas pernas, as gotas do suor, confortam ou domam o pensamento. O vento se exaspera à noite e na madrugada; os trens, atordoados, parecem apitar mais que o normal – ou é o vento que força bifurcações no som, os leva mais longe, os arrasta pelos gramados, pelos bairros da zona, como que a esmo, por gosto e desejo, somente, em descontrole. Mesmo com o calor, mesmo com o vento, a cidade está ausente. Noto as luzes apagadas, quase todas, menos uma, ou são duas, no hotel que enxergo pela sacada. Nos edifícios ao redor, reconheço as janelas iluminadas, as de sempre, com suas silhuetas, provas de alguma presença. No dia seguinte, à tarde, caminho pela Avenida. Percorro-a do primeiro número ao endereço final. Está vazia, a não ser por alguns que esperam por ônibus que devem demorar, e pelos que entrevejo não na calçada, mas às janelas dos prédios antigos da via. Há lancherias abertas, mas vazias, e hotéis funcionando, não sei se ocupados. Troco de calçada mais de uma vez, atravesso o asfalto, os carros passam longe, sequer preciso cuidar ao cruzar. A Avenida termina logo depois do hotel dos turcos e da loja de pássaros, ali é preciso escolher entre esquerda e direita, não há como seguir reto; vou pela esquerda para cruzar os trilhos a pé e vejo, do outro lado, entre o mato alto, telhas soltas e cães vadios, a estação. Nenhum trem se aproxima naquela hora. Desço na direção dos morros, o declive auxilia o trabalho das pernas, dos pés cansados da véspera; dobro outra vez à esquerda mais adiante, adentro o bairro, não me envergonho de olhar para dentro das casas, das lojas, do comércio pequeno. Vejo pouco ou nada, no entanto: nada além de uma cortina vermelha, da louça por lavar, do retrato de um homem velho e muito pálido na parede. Começa a anoitecer quando retorno; já está escuro nas proximidades da vegetação, na encosta verde do morro. Há algum ruído, um pouco mais, quando faço o caminho de volta. Passo pela esquina em que, há quase cem anos, dois homens caíram depois de uma confusa troca de tiros; a cidade era outra, dez vezes menor, havia cinemas ao ar livre, terrenos baldios a metros da Avenida, duelos de armas de fogo, mortes sem desvendar. O fim de tarde entrega umas poucas, breves presenças, presenças sem permanência. Duas mulheres que abrem uma porta em um subsolo, um homem que passeia com o cachorro branco e preto, um rosto na janela do hotel, a funcionária que acomoda uma cesta de frutas no umbral do mercado. As luzes da iluminação pública então se acendem de modo brusco, simultâneas às luzes de outras janelas, das lanternas dos carros, do letreiro de um bar. Não preciso ir outra vez ao começo da Avenida para encerrar o trajeto, posso deixá-la para trás algumas quadras antes. Dobro à esquerda, entrevejo o parque, o verde da grama já engolido no ocaso, diminuo o passo, viro agora à direita, não há motivo para correr, a cidade por estes dias está ausente.

Iuri Müller é jornalista, escritor e pesquisador em Literatura.  Publicou, em 2016, o volume de contos “Luz em nevoeiro” (Modelo de Nuvem editora). O conto “A cidade ausente” é parte de um novo volume em construção.

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