A TRAVESSIA, por Antonio Prates

(Homenagem a Sergio Faraco)

Estava bebendo canha no bolicho do Chico Bugre, um casebre de madeira cuja última mão de tinta deve ter sido dada no tempo das Missiones. Pelo menos assim o descreveu Seu Quintino, que tomava também seus tragos, de pé, junto ao balcão. Quintino estava tão borracho que deu pra falar bonito, para impressionar uma china ruiva e bem fornida que havia trazido na garupa da égua zaina. Ela fez cara de quem não tinha entendido o seu latim e ele implicou: “Vem cá, tu me disse que vem de São Luiz Gonzaga e não sabe o que foram las Missiones?” A china, pega na mentira, ainda tentou explicar: “Te disse que nasci em São Luís, mas na verdade me criei em Vacaria, com meus tios por parte de mãe.” Seu Quintino deu uma risada larga e a acalmou: “Não me importa se tu vem de São Luís, de Vacaria ou de Bagé, minha branca, dês que me trate bem em cima dos pelego.”

A chinoca ainda ria, aliviada, quando ouvimos os cascos de um cavalo galopando forte. O ruído foi se aproximando, até estancar bem na porta do estabelecimento. Bebiano, um piá filho da minha irmã, entrou resfolegante e me disse, bem alto, com os olhos esbugalhados: “Tio, os brigadiano tão atrás de ti. A mãe disse pra avisar que o senhor tem que fugir pra bem longe, porque eles já estão vindo pro bolicho e vão chegar daqui a muito pouco”.

Peguei o bornal que havia deixado num banco perto da janela e saí correndo porta afora. A noite sem lua estava escura como pecado de padre, um aguaceiro brabo se armando por dentro das nuvens de chumbo. Já ia subindo no petiço do Bebiano pra me escafeder dali, quando ele avisou: “Eles tão de a cavalo. É melhor o senhor fugir a pé, pelo mato aí em frente.”

O guri tem razão, pensei, duvido que me encontrem de noite no meio desse mato, que conheço como a palma da mão. Atravessei a estrada de chão e me enfiei no matagal. Debaixo das árvores quase não se via nada, mas isso contava a meu favor, pois eles iam ficar ainda mais perdidos. Por via das dúvidas corri como um louco, sem nem perceber onde pisava, as macegas mais altas me cortando as mãos e os braços.

Eu não passava de um chibeiro dos pequenos, atravessador de tecidos, perfumes e cigarros de um lado pro outro do rio Uruguai. Agarrei bem o bornal, onde por sorte, além do 38, tinha um farnel que devia bastar até os brigadianos desistirem de me procurar. Afinal os fiá-das-puta tinham mais o que fazer que ficar esperando um pobre diabo se desentocar das entranhas daquele mato fechado. Isso, é claro, se não soubessem do que eu havia aprontado dois meses atrás na Barra do Quaraí, abreviando a existência do milico que tinha me provocado numa roda de carteado. Mas não era provável, pensei, ninguém me conhecia praquelas bandas e o único que poderia me denunciar era um cabo com quem eu tinha sentado praça no Quinto de Cavalaria. Ele me devia uns quantos favores e era homem o suficiente pra ficar de boca fechada.

Tudo isso galopava na minha cabeça enquanto corria desesperado, pra ganhar o máximo de distância. A chuva começou a cair logo depois. No início eram uns pingos de nada, mas em seguida passou a trovoar alto e a água veio grossa, ensopando o chão e as minhas roupas. Melhor ainda, agora quero ver se esses frescos vão ter gana de se atolar atrás de mim.

De repente ouço umas vozes gritando de longe “Por aqui, por aqui!” Como é que conseguiram saber por onde eu tinha me metido? Será que algum dos PM também conhecia aquele mato? De qualquer forma eu tinha uma boa dianteira e no meio do aguaceiro ia ser difícil me encontrar. Deixei de seguir em linha reta, escolhi desvios, e fui gambeteando pra esquerda e pra direita. Minhas botas já grudavam no lodo, mas os coturnos deles também iam se afundar, naquele breu a vantagem ainda era minha.

Pouco depois, escutei um cachorro latindo forte, pro lado de onde vinham as vozes. Os putos tinham trazido um cusco, agora sim me compliquei! Senti um calafrio e já não sabia se as gotas geladas escorrendo da cabeça eram da chuva ou do meu suor. Eu corria em desespero, açoitado pelas macegas que já me lanhavam o rosto. O cusco ladrava cada vez mais perto e eu podia ouvir os brigadianos correndo por atrás, atiçando o bicho pra me pegar. O terreno agora se desbancava para baixo e aproveitei pra correr ainda mais rápido, saltando por cima das moitas e dos troncos atravessados no caminho.

No exato momento em que resbalei num trecho mais escorregadio, escutei o estampido alto de fuzil e o tempo meio que parou, me deixando acompanhar o zumbido da bala que se aproximava das minhas costas. Tropiquei num galho mais alto e meu corpo se arremessou para frente. Acho que foi o que me salvou, o balaço deve ter passado bem perto, nem senti o barulho dele se estilhaçando no chão à minha frente. Caí de borco numa poça mais funda e resolvi ficar imóvel, afundando o corpo na lama pra lograr o faro do cachorro. Percebi passos de gente atravessando o mato e arrastando as folhagens, vozes que foram se apagando aos poucos. Em breve, já nem o cusco acuava mais. Ouvia apenas o ruído da chuva, uma ou outra trovoada distante. Relaxei o corpo, as dores da corrida e das lanhadas foram se diluindo na água da poça. De vez em quando levantava a cabeça da lama, pra poder respirar. Fiquei ali largado por muito tempo, sem me mover, rezando para que tivessem desistido da busca. Deu certo, foi um milagre do Padre Reus, de quem sou devoto desde os anos que tentei a vida, com pouco sucesso, em São Leopoldo. Eu lhe devia uma missa, ia pagar assim que tivesse em condições.


Minha mãe é a Noite, meu pai é a Escuridão. Talvez por isso, mas nunca saberei ao certo, minha sina é esperar nessa margem pelos viajantes que me procuram para atravessar o rio. Cada um deles carrega uma história de vida, mas no que me toca todos são iguais. Todos, por exemplo, chegam bem depois de anoitecer. Na verdade não poderia ser diferente, para mim é sempre noite, não conheço a sensação do sol batendo na minha pele. Vivo e permaneço nesta margem esquerda e noturna, a não ser quando conduzo meu barco através das águas turvas do rio, para depois voltar sem companhia. Se eles chegassem aqui de dia, supondo que houvesse dia nestas grotas, não teriam como fazer a travessia, pois não poderiam me encontrar. Sim, já ouvi dizer que rio acima há outro que faz o mesmo trabalho, mas não acredito nisso, estou seguro de ser o único neste mister.


Não sei quanto tempo fiquei ali esperando depois que o silêncio se impôs. Levantei o corpo devagar, o grude da lama me puxando de volta pra poça. Procurei o bornal, mas não consegui encontrá-lo. Talvez eu tenha deixado cair no caminho, talvez o cusco tenha levado os brigadianos até ele, o fato é que eu não tinha mais nem ferro nem comida. Um visgo gelado me escorria pelas costas, entrando pelo cós da bombacha.

Sentei num tronco caído e aproveitei para organizar as ideias. Concluí que provavelmente os brigadianos voltariam no dia seguinte, com mais gente e cachorros para me procurar. Não era seguro me demorar por ali, o melhor era tentar me esconder por uns tempos no lado argentino. Eu estava bem próximo da várzea do Ibicuí, perto de onde ele desemboca no rio Uruguai. Por ali os chibeiros sempre escondiam umas chalanas, cobertas de lona escura e amarradas em troncos perto dos barrancos às margens do rio. Se conseguisse atravessar, eu iria procurar uma prima distante que vivia na vila de Yapeyú, amasiada com um tropeiro castelhano bem mais velho que ela. Sempre que passava por lá eu levava um perfume barato que separava da carga de contrabando, o que a deixava encantada. Dessa vez eu ia chegar de mãos vazias, mas ela não podia me recusar pouso por uns dias, até que as coisas se acalmassem.

Fui andando devagar, me orientando apenas pelo leve declive do terreno, já que o breu era quase total.  Um pouco adiante me embrenhei no charco do Ibicuí, a água entrando pelas botas. Em pouco tempo cheguei até a margem e a percorri para a esquerda, na direção do rio Uruguai. Então vi o vulto de um barco grande de madeira, amarrado pela proa e oscilando a sabor da corrente.


Sei que sou muito velho e minha aparência é terrível, a pele marcada por tantas rugas, a barba branca que desce até o peito, os trapos negros e grosseiros que me cobrem da cabeça aos pés, desfiados como as penas escuras de um corvo. Eu deveria causar arrepios aos viajantes, mas eles já chegam aqui com a pele gelada, incapazes de se surpreender ou de se assustar. Em geral limitam-se a me estender a moeda de prata que é o preço que cobro para a travessia. Acho que nem escutam o tilintar produzido quando a jogo para o fundo da sacola aos meus pés, junto com as outras, incontáveis. É muito raro que digam ou perguntem algo, e mesmo quando o fazem nunca recebem mais que meu olhar de reprovação, suficiente para que entendam que aqui definitivamente não é lugar para conversa fiada. Aliás, não é lugar para nenhum tipo de conversa.


Não sei se apenas pela escuridão, mas tudo no barco era preto ou cinza. Preto o costado de tábuas sobrepostas, gris o interior e as duas ripas horizontais que serviam de bancadas, cor de chumbo o vulto do homem sentado no banco de popa, empunhando os longos remos negros como quem já me esperasse. Uma manta grossa e felpuda cobria todo seu corpo e a cabeça, protegendo-o das últimas gotas de chuva. Não dava para ver seu rosto, a não ser os olhos amarelos que me olhavam foscos e diretos. Perguntei, quase gritando, se ele podia me atravessar pro outro lado do Uruguai. Ele não respondeu, mas esticou o braço e apontou para o banco de proa. Passei as pernas pelo costado e me sentei ofegante, mas aliviado. Até aqui tudo bem, o mais difícil era mesmo cruzar o rio, depois as coisas se ajeitariam como as batatas no fundo da carroça.

O vulto que remava era corcunda e encarquilhado, mas suas remadas eram surpreendentemente vigorosas. O rio estava encrespado, a correnteza exigia força e perícia, que não lhe faltavam. O homem remava em silêncio, sem pausas, sempre a me encarar com seus olhos pardos. Eu me agarrava nos costados para não cair cada vez que o barco corcoveava em solavancos de égua redomona. A lama fria grudada nas roupas já secava, me amortalhando numa couraça fedorenta. De quando em vez eu olhava para o barqueiro, mas não conseguia sustentar seu olhar de coruja caburé.

Não sei dizer quanto tempo durou a travessia, preenchida por lembranças da minha vida, de guri a homem adulto, que passavam em lampejos desordenados. A tropilha de osso que eu ia juntando sempre que meu pai carneava ovelhas e reses na estância do major Aristarco; as guerras de bodoque com frutinhas de cinamomo; a locomotiva a vapor que me assustou à noite com suas fumaças na estação de Itaqui; uma carreira de cancha reta que assisti quando nos mudamos para o Caverá; os olhos da mulatinha que me atendeu na primeira vez que fui numa casa de mulheres; o dia que me alistei no exército e fui sacaneado pelo sargento; um tombo feio que levei do meu rosilho no Cerro do Jarau, numa manobra do Quinto de Cavalaria; as ancas da filha do subtenente, que ia lhe esperar no portão do regimento a cada fim de expediente; o primeiro chibo que fiz, com a lancha dos fuzileiros nos perseguindo de perto.

Perdido nos pensamentos, só percebi que tínhamos chegado na outra margem do rio quando um tranco seco da proa contra o barranco sacudiu o barco, quase sem produzir ruído. Olhei mais um vez para o barqueiro e perguntei quanto lhe devia. O velho, sem nada dizer, apenas estendeu a mão direita para recolher sua paga. Retirei uns quantos pilas do bolso e fiz menção de lhe entregar, achando que era o suficiente. O vulto sacudiu a cabeça e falou pela primeira e única vez, numa voz cavernosa “Só aceito prata.” Não entendi a preferência, mas fui abrindo as bolsinhas da guaiaca para procurar. Me dei conta que só tinha a velha moeda de quinhentos réis que meu pai tinha recebido de herança do vô Marcírio, e que vinha passando de mão em mão na família para dar sorte nas encruzilhadas da vida. Falei para o barqueiro que esta única prata que eu levava; como já não tinha serventia de compra, eu só podia lhe pagar em papel. Ele negou a oferta com um menear de cabeça e estendeu mais a mão, num grunhido. Receando que ele pudesse me denunciar pros brigadianos se eu recusasse a lhe dar a moeda, entreguei-a com dor na consciência. O velho olhou a peça e a jogou dentro de um saco de pano, embaixo do banco em que estava sentado.

Saltei do barco e afundei as pernas na água, que me bateu no meio das coxas. Subi o barranco sem olhar para trás. Como não sabia bem a direção para a vila de Yapeyú, fui andando meio a esmo, por uma vereda de barro que descia paralela ao rio. A chuva já tinha parado há um tempo, mas as nuvens pesadas ainda sustentavam o negrume. Continuei andando, aos tropeços, sem nem sentir os bofes. Quando a trilha guinou pra direita, levando pro meio de um mato mais fechado, vi uns vultos que me esperavam de pé, como corvos agourentos, armando uma barreira, ou uma recepção, à minha frente. Cheguei mais perto e perguntei em castelhano pra que lado ficava Yapeyú. Ninguém respondeu, mas foram se chegando devagarito até me encararem de frente, a poucos palmos do nariz.

Assustado, dei um passada brusca pra trás, tombando de costas, num baque surdo. Meus olhos agora apontavam para o alto, que deveria ser o céu. Mas o que vi foi o teto da caverna, enegrecida e rígida, como meu corpo.

Um dos vultos se aproximou ainda mais. Olhando para baixo, cravou os olhos nos meus. Quase não dava para ver os traços do rosto, mas, pelo enorme rombo de bala no meio da testa, só podia ser o milico que tentou me engambelar na Barra do Quaraí.  

Rio de Janeiro, maio de 2021

Antônio Prates, engenheiro naval, nasceu em Dom Pedrito e morou em São Luiz Gonzaga, Quaraí, Resende e Brasília. Vive no Rio de Janeiro desde 1978. O mar em que mergulhou foi o acaso. De lá saíram seus três filhos, suas aventuras e experiências, suas histórias e riscos, e o amor pela literatura. Seu primeiro romance, A Carta de Niels Bohr, foi publicado pela Amazon/Kindle.

FICÇÃO

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