‘BELICOSAS FRONTEIRAS’, org. por Jonas M. Vargas

Ao longo do oitocentos, as Américas foram palco de profundas transformações socioeconômicas e políticas e os conflitos militares estiveram relacionados a muitas delas. Século marcado pelas independências, pelo surgimento dos Estados nacionais, pela construção das fronteiras e limites territoriais, pela abolição da escravidão africana, pelas reformas liberais que prepararam o continente para a implantação do capitalismo, ele colocou distintos grupos sociais em constante conflito: antigos membros da elite criolla e da burocracia colonial, negociantes, padres, caudilhos, indígenas e africanos de inúmeras etnias, escravos e libertos, imigrantes europeus… Homens e mulheres que a partir das muitas relações sociais de dominação e resistência na qual estavam inseridos, da defesa de seus ideais e da sua atuação coletiva nos vastos territórios do continente, também contribuíram com a constituição das muitas identidades culturais e políticas latino-americanas, ainda hoje bastante perceptíveis.

Todos os anos, dissertações e teses acadêmicas tratam de tais temas, sem contar as centenas de textos publicados em periódicos e capítulos de livros no mundo inteiro. Reunindo um seleto grupo de historiadores e historiadoras de diferentes países, o presente livro também busca trazer contribuições bastante recentes sobre muitos dos aspectos acima mencionados. Nas páginas que se seguem, o leitor poderá ler sobre os efeitos da Era das Revoluções e dos processos de independência na vida política da América Latina, o avanço dos investimentos em terras nas fronteiras agrícolas do continente e o consequente impacto dos mesmos sobre as comunidades indígenas. Também terá contato com textos que tratam da relação dos Estados nacionais em construção e dos seus agentes com tais transformações, das suas políticas voltadas para a imigração, das inúmeras guerras e de suas consequências políticas e sociais e de como a escravidão africana foi debatida nos mencionados contextos. Além do mais, questões relativas às múltiplas identidades que estavam em contato naquela conjuntura são tratadas por muitos autores, enfatizando a questão dos indígenas, das populações negras, dos imigrantes europeus e das relações transnacionais entre os moradores das regiões de fronteira.

O livro está dividido em duas partes. A primeira delas, intitulada “Identidades e nações em (re)construção: fronteiras, guerras e política no oitocentos”, inicia com um texto de Adriano Comissoli a respeito dos circuitos de informação existentes nas fronteiras imperiais do Rio da Prata. Conectando indivíduos comuns em diversas cadeias que podiam chegar até as autoridades governamentais, estes homens compunham um verdadeiro serviço de inteligência – essencial para a política imperial naquelas paragens. Murilo Dias Winter, por sua vez, trata do processo de independência do Brasil a partir da perspectiva da província Cisplatina. Partindo de um espaço no qual as crises dos impérios ultramarinos português e espanhol se relacionavam, o autor destaca, principalmente, as diferentes alternativas de futuro, os projetos políticos que foram gestados e os conflitos abertos naquela conjuntura. Carlos Augusto Bastos estuda as relações sociais estabelecidas nas fronteiras amazônicas do Brasil com as atuais repúblicas da Colômbia, da Venezuela, do Equador e do Peru, na época das independências – tema ainda pouco analisado pela historiografia. O autor demonstra como as autoridades das diferentes nações ainda em construção mantinham intenso contato, debatendo projetos políticos e buscando proteção nos territórios nacionais vizinhos contra seus adversários políticos locais. Alejandro Morea, por sua vez, analisa a atuação do Exército Auxiliar do Peru no processo de independência que marcou a década de 1810, demonstrando as íntimas relações entre guerra e política e a importância dos líderes militares naquele novo contexto.

Se a conquista e a colonização da América não se deram sobre um espaço vazio e desabitado, a construção dos Estados nacionais oitocentistas também não foi um fenômeno político que buscou ignorar completamente as instituições e sociedades já estabelecidas desde os tempos coloniais. Assim sendo, em diversas regiões, as novas autoridades tiveram que renegociar suas relações políticas e econômicas com as populações locais e as comunidades indígenas existentes, em relações permeadas por conflitos e alianças. Neste sentido, Elizabeth Salgado estudou o comportamento dos índios aldeados da Província de Antioquia, atual Colômbia em relação a redefinição identitária enfrentada pelos mesmos durante o processo de Independência de Nova Granada, entre 1808-1830. Luís Farinatti e Max Ribeiro, por sua vez, dialogam com o processo de formação das fronteiras territoriais do atual Rio Grande do Sul, propondo distintas formas de se olhar a questão a partir da experiência histórica dos guaranis.

A desagregação da institucionalidade reducional fez com que muitos historiadores tendessem a deixar de lado o estudo dos guaranis como sujeitos históricos, o que implica em interpretações incompletas a respeito das dinâmicas sociais, econômicas e políticas que caracterizaram a região na primeira metade do século XIX. Andrea Reguera analisou as expedições lideradas pelo governo de Buenos Aires até as fronteiras territoriais da província. Trata-se de um importante capítulo da história da Argentina que possibilitou a expansão agrária característica do oitocentos e acabou afetando drasticamente muitas comunidades indígenas que ocupavam as vastas áreas do pampa argentino.

O processo de construção dos Estados nacionais na América Latina apresentou distintas temporalidades e trajetórias, dependendo da região estudada, dos arranjos institucionais escolhidos pelas suas elites e da metrópole colonizadora. A Guerra do Paraguai, ocorrida entre 1864 e 1870, é um exemplo de que, na Bacia do Prata, o processo ainda não estava plenamente consolidado e antigos territórios pertencentes ao Vice-Reinado do Rio Prata ainda disputavam seus limites territoriais e defendiam suas autonomias políticas. Neste contexto, Miqueias Mugge estudou os comandantes militares do Rio Grande do Sul e, analisando mais de perto a atuação do Barão de Serro Alegre, demonstrou como os mesmos exerceram um papel político e militar fundamental antes e durante a Guerra. Bruno Segatto analisou a formação de dois partidos políticos rivais no Paraguai a partir da imprensa do país, entre 1869 e 1876, e de como, naquele contexto, Brasil e Argentina buscavam influir nos rumos do Paraguai pós-guerra. Este bloco também apresenta um belo texto de Hendrik Kraay a respeito das festas cívicas relacionadas à Guerra do Paraguai no Brasil Imperial. Estudando a imprensa da época, o autor considerou que tais eventos eram sempre festas políticas nas quais os partidos debatiam os significados da efeméride comemorada e procuravam desqualificar as festas organizadas por seus rivais. Através da discussão sobre os que participavam das mesmas, debatia-se também a natureza da nação brasileira e, por vezes, revelava-se a participação de um amplo leque da população urbana na política.

A segunda parte do livro chama-se “Escravidão, economia e sociedade em fronteiras americanas”. Um primeiro grupo de textos reúne contribuições a respeito da escravidão africana em regiões de fronteira e questões relacionadas à herança social e cultural do cativeiro. Florencia Thul Charbonnier estuda a participação de escravos e libertos no mercado de trabalho uruguaio após a independência, a importância das chamadas “papeletas de conchavo” e outros aspectos relacionados ao uso da mão de obra assalariada no mesmo contexto. Eduardo Palermo estuda as formas como o trabalho escravizado dos negros livres continuou a ser utilizado no Uruguai mesmo após a abolição do cativeiro naquele país. Os contratos de peonagem eram a principal maneira de ludibriar as autoridades fronteiriças em um contexto no qual muitos escravos brasileiros, na busca pela liberdade, buscavam fugir para o outro lado da fronteira. Como forma de evitar tais fugas e garantir aos senhores o direito sobre os seus escravos, ambos os países assinaram um tratado de extradição que favorecia os escravistas brasileiros na captura dos cativos fugidos. O texto de Rafael Peter de Lima trata dessas e de outras questões, dedicando algumas páginas para analisar a atuação de André Lamas, representante diplomático do Uruguai no Brasil, nas negociações a respeito dos conflitos fronteiriços envolvendo as relações escravistas, fugas e extradições de cativos na região. Marcelo Matheus, por sua vez, nos transporta para a atual fronteira do México com os Estados Unidos em uma época na qual o Texas, antigo território mexicano, ingressava na União como importante Estado escravista. Rodrigo Weimer e Melina Perussatto encerram o bloco buscando analisar e problematizar o emprego ou a ausência de categorias de “cor” (tais como, “baiano”, “bronzeado”, “negro” ou “homens de cor”) nas memórias a respeito da Revolução Federalista – guerra civil ocorrida no Rio Grande do Sul, entre 1893 e 1895.

O último bloco de textos inicia com uma importante contribuição teórica e historiográfica a respeito da “fronteira” como objeto de estudo. Mariana Flores da Cunha Thompson Flores nos propõe uma revisão a respeito da forma como os historiadores trataram de tal tema ao escreverem a história do Rio Grande do Sul. Especialista na área, a autora realiza importante balanço bibliográfico e aponta importantes caminhos para os que buscam conhecer mais sobre a temática. Os últimos três textos tratam de importantes fenômenos sociais e econômicos que caracterizam a paisagem agrária em regiões de fronteira no cone sul americano. Maria Inés Moraes estuda o contrabando de couros e animais no Rio da Prata, entre finais do século XVIII e início do XIX. Conforme a autora, tais transações tiveram constituíram-se em um traço estrutural daquelas sociedades formando um peculiar mercado interno colonial. Carla Menegat analisa a presença dos rio-grandenses entre os grandes proprietários de terras no norte do Uruguai. Tal fenômeno foi fator de peso nas relações diplomáticas entre o Brasil e o Uruguai, sempre gerou uma série de conflitos e esteve entre as causas das diferentes guerras que afetaram a Bacia do Prata. Finalizando a coletânea, Juan Luís Martíren nos traz uma preciosa comparação entre os projetos de colonização agrária na Argentina pampeana e no extremo sul do Brasil. Estudando os primórdios da colonização europeia, o autor contribui historiograficamente ao problematizar novas questões referentes à rentabilidade destes investimentos e as possibilidades e os limites da reprodução dos mencionados sistemas.

Em suma, os leitores têm em mãos capítulos sobre distintas histórias não apenas das fronteiras do Brasil com o Paraguai, a Argentina e o Uruguai, mas também das sociedades americanas em outras fronteiras do continente, em estudos que tratam de territórios pertencentes, atualmente, à Colômbia, à Venezuela, ao Peru, ao Equador e à Bolívia e até mesmo à fronteira entre os Estados Unidos e o México. A coletânea se insere nos quadros das linhas de pesquisa do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Pelotas, que tem como um dos principais eixos temáticos as Fronteiras e as Identidades. Os capítulos, em sua maior parte, reúnem textos de participantes das três edições do “Encontro Internacional Fronteiras e Identidades” ocorridas na mesma universidade em 2012, 2014 e 2016, e buscam estabelecer algumas reflexões sobre questões relacionadas direta ou indiretamente a tais aspectos sociais.

Boa leitura!

Jonas Moreira Vargas é mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2007) e doutor pelo Programa de Pós-graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013). Foi Professor Substituto do Departamento de História da UFSM (2007-2009), Professor Colaborador do PPG-História da UFRGS (2013-2015) e Investigador Visitante Júnior no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (2012). Possui experiência na área de História econômica e História social da política no século XIX. Recebeu menção honrosa no Prêmio de melhor Tese de Doutorado (2013/2014) promovido pela Anpuh Nacional. Atualmente é Professor Adjunto do Departamento de História da Universidade Federal de Pelotas e pesquisa a história das elites políticas e econômicas do Brasil e da região platina no século XIX e XX, História Política do Brasil Império e Republicano e História da escravidão africana no Brasil.

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