CLORETO DE FLERÓVIUM, por João B. Cabral

“Você pode muito bem usar cloreto de moscóvium, mas o de fleróvium também resolve. Os efeitos duram menos, mas é um terço do preço…”, o sujeito com cara de fuinha me diz mostrando no seu contrafator as opções que tinha. Eu precisava decidir sem olhar para ele porque, caso olhasse, não me animaria a colocar na corrente sanguínea nada oferecido por uma cara daquelas.

“É, pode ser…”, digo-lhe e em seguida continuo: “Mas vou ficar com o de moscóvium!”.

Ele então passa a mexer na sua tela e concorda: “Muito bem… Boa escolha!”. Depois, avisa que por ser uma encomenda expressa deveria chegar bem antes da hora marcada, e que eu esperasse pelo drone na porta mesmo.

“Olha lá hein…”, eu o alerto. “Se chegar depois, não adianta nada. Aí eu cancelo o crédito e você nunca vai ver a cor do meu dinheiro, entendeu?”, é a minha vez de ameaçar o sujeito que se afasta um pouco para trás e mostra dentro da boca, num gesto ofendido, as placas que denunciavam um vício antigo em ácido brumoso. A mesma merda que acabou com a vida do meu pai quando eu ainda era criança e fodeu com a vida da minha família. Com aquele sorriso em meia boca, o sujeito garantia que o pacote já estava a caminho e que eu não me preocupasse. E logo foi dando um jeito de desligar porque, de acordo com ele, tinha muitos outros clientes para atender, como se eu estivesse interessado em saber.

Fico ainda um pouco mais assistindo o seu sumiço e as outras ofertas do canal pensando na sorte que eu tinha de ter um terraço para aproveitar sozinho o descortinamento. E ainda por cima um terraço situado fora da zona central e suas luzes. Eu aproveitaria muito melhor o evento, por exemplo, do que todos os meus colegas. Daí que todos estavam mais interessados em fazer outras coisas, como assistir ao inacreditável torneio de futebol ou o de sempre: emular pelo contrafator.

Eu não entendo, mas o descortinamento é dos poucos eventos que a pré cognição não permite antever. A gente só fica sabendo no dia mesmo. Só sendo muito idiota ou entediado da vida para não se interessar pela única oportunidade de desestupidificação de que dispomos, mas os meus colegas são justamente essas pessoas. Para eles, nada tem graça que eles não precisem reestimular. No fundo, eu penso que eles têm mesmo é medo de conhecer outras dimensões porque há um rumor por aí dizendo que muitos têm a consciência evadida no evento e que isso pode ser definitivo. Bem, além de achar que isso tudo é besteira, se isso acontecer o que mesmo vou estar perdendo nessa pocilga de planeta?

É por isso que, além de usar as lentes ampliadas do contrafator, eu vou fazer questão de ampliar a experiência. A porra do moscóvium com esse nome soviético certamente fará um bom trabalho e vai abrir mais dimensões que os outros todos poderão notar. Todos os que não o usarem também, é claro. Eu espero que sim, que faça o máximo de efeito possível, mas agora vem vindo quem deve ser o meu entregador, um dos trogs capengas do serviço estatal. Isso é o que eu chamo de expresso, o fuinha não brinca em serviço.

Tomo o pequeno embrulho que ele traz a bordo e aproveito para perguntar pelo contrafator embutido como estavam as entregas hoje. “A última vez que esteve assim foi a última grande evasão”, diz o atendente com ar de quem tem interesse em mim. Não satisfeito em me responder, pergunta: “Você tem certeza mesmo que vai arriscar?” Seus olhos nem de longe se parecem aos do fuinha, pelo contrário, parecia alguém muito interessado no que eu faria. “Pensa bem”, ele diz e, antes de desligar de vez, finaliza sua palestra: “Se quiser se juntar aos outros, toma esse endereço e chega uma hora antes. Não é longe daqui.”

Coloco o polegar na tela e transfiro para mim o pequeno panfleto enquanto ouço o jingle do serviço de entrega afastando-se aos poucos, mas não subo de volta ao apartamento. A rua já começava a secar e o vento que provinha do norte parecia exageradamente quente. Em redor, as pessoas estavam no horário de fim de expediente e muitas crianças corriam ainda em direção à praça, aproveitando o entardecer, bem como eu fazia quando tinha o seu tamanho.

Sentado em frente ao prédio, olho o contrafator intacto. Zero notificações. No bolso da camisa, lá dentro sacudia uma dose de cloreto de moscóvium suficiente para quintuplicar a consciência expandida e talvez até mesmo descortinar para sempre. Bem, eu havia gastado o último centavo da herança do meu avô nisso. Faltava ainda a decisão por expandir a esse ponto, mas isso era o de menos, o principal era poder, quer dizer, a sensação desse poder. A outra opção era a colônia de mindfulness do panfleto e o meu dinheiro de volta, mas lá haveria só gente arrependida. Tem a mãe também, que poderia ficar muito triste se eu não voltasse, mas ela já é triste mesmo comigo aqui. Se eu tiver chances noutro lugar e enviar mensagens de vez em quando, ela vai se acostumar, eu sei que vai.

É mindfulness vs cloreto de moscóvium. O que vai ser então, João Bernardo?

João B. Cabral nasceu em Cascavel – PR (1995) e mora atualmente em Porto Alegre – RS. É microbiologista e pesquisador na área de infestação industrial. Tem contos publicados sob pseudônimo em Strange Horizons, Lightspeed e outras.

FICÇÃO

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