COMO NASCEM AS BALAS PERDIDAS, por Pablo Morenno

Sou pardo, mais pra branco, embora tive um avô negro e uma avó indígena. Tenho um filho mulato, um irmão negro e, como todo branco gosta de dizer, tenho amigos negros e isso já parece ser um álibi antirracismo.

No seminário – acreditem, estudei para ser padre – nunca tive um colega negro. Na faculdade de Direito, também nenhum colega negro. Sou funcionário público federal e, em quase 30 anos de trabalho, tive apenas dois colegas negros.

Como dizem que não há racismo, acho que ser branco no Brasil, de alguma forma, está ligado a algum tipo de sorte, um ICI – índice de coincidências incríveis.

Nunca fui parado andando de bicicleta, e mesmo quando uma viatura passou na Vila Vergueiro, enquanto eu tirava fotos, não fui abordado nem me exigiram documentos. Até já me desentendi num caixa de supermercado e ninguém me matou, e nunca fiquei naquela posição em que policiais apalpam as pessoas. Isso é inacreditável.

A coisa mais sortuda da minha vida de branco é nunca ter me encontrado com uma bala perdida. Vejo no noticiário que ser preto, e ser pobre, junto ou separado, aumenta a chance do universo de que você se encontre com uma bala perdida mesmo se estiver dentro de casa.

Balas perdidas são seres criados com o fim de servirem de alimentos para pobres, ração para bichos de estimação, adubo para plantas e, especialmente no Rio de Janeiro, são produzidas para alimentar os peixes e garças da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Apesar dessa natureza das balas perdidas, se elas não acham esse rumo tão bonito para o qual foram criadas, elas se transformam em zumbis metálicos cheios de ódio. E, não sei por quais cargas d´água, as balas perdidas acabam se tornando mortais quando encontram alguém preto, ou preto e pobre, sejam qualidades juntas ou separadas.

Negros e pobres, por alguma razão do universo, contrário de mim que sou branco, tem o azar de encontrar uma dessas balas perdidas que não tiveram o fim humanitário para o qual nasceram. Essa coincidência incrível de alguém preto se encontrar com uma bala perdida não é na mesma intensidade, desse mesmo sujeito, de conseguir estar na faculdade, ou em algum cargo de maior relevância. É como se nascer pobre e preto tivesse um destino. É algo muito parecido do destino com que nascem as balas perdidas, só que na proporção inversa.

Kethlen Romeu foi uma das últimas pessoas negras que, justamente, nessa semana, encontrou-se com uma bala perdida. Por causa do ICI (índice de coincidências incríveis) ela era negra e pobre, embora não morasse na favela. E estava grávida de um bebezinho negro que, muito antes de nascer, já fez partes das estatísticas.

Para ser sincero, como homem branco, eu não tenho argumentos para explicar de modo claro como nascem as balas perdidas. Só sei como morrem os tão pobres e tão pretos quando se encontram com elas.

Pablo Morenno é licenciado em Filosofia e Bacharel em Direito. É servidor Público do Tribunal Regional do Trabalho da 4a Região. Escritor e editor. Recebeu o Prêmio AGES Livro do Ano em Crônicas em 2010 e o Troféu Carlos Urbim em Literatura Infantil (2020).Finalista do Prêmio Açorianos em Crônica em 2010. Inclusão no Catálogo de Bologna e no Acervo Básico da FNLIJ. Instagram: @pablomorenno.pf

CRÔNICA

2 comentários Deixe um comentário

  1. O texto me levou lá para as aulas de Física do segundo grau, faz tempo, para aquelas lições sobre lançamentos de projéteis. Aqui as balas desafiam essas leis. Texto bonito, uma sensível denúncia. Parabéns.

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