De ‘DOZE LIÇÕES’, de Daniela Kern

Eu sinceramente preferiria ficar em casa lendo. Vai chover a qualquer momento e tenho dor nos ombros, nos joelhos, nos pulsos, nos tornozelos. Nada aparece nos exames que fiz, já me disseram que é depressão, ou fibromialgia. O que quer que seja, sou um barômetro ambulante. Aula, aula, aula. Vamos lá… Oh, céus. Mais uma primeira aula. Não gosto de primeiras aulas. Eles ficam me testando. Sim, sim, eu li os livros com os quais vamos trabalhar esse semestre, não se preocupem. Não, não, não sou de “ralar”. Leiam e estaremos todos bem. Bom, esse é o problema, ler. Não posso fazer nada a respeito, é preciso ler, eu não fui até a casa de cada um e os trouxe até aqui pela mão. Casa fechada. Ok. Desliguei o gás, fechei as janelas, estou com o celular. O táxi está lá embaixo. Deus queira que seja um taxista do ponto. Os taxistas oportunistas que param ali às vezes querem dar voltas muito longas, e preciso discutir, e não gosto nada de discutir. Por quem será que eles me tomam? Eu não sou turista, eu moro aqui, eu sei o caminho. Ótimo, taxista conhecido e que não é de falar muito, paz no trajeto. Dor e paz. Estranho. Peguei todas as sacolas? Todos os livros? Sim.

Ali está ele, nosso arco do triunfo de bolso. Perdi as contas de quantas vezes passei por aqui. De bolso. Nossa, como é pequeno. Eu já fiquei na rue de Tilsit, em Paris, praticamente colada ao Arco do Triunfo de Napoleão, majestoso e melancólico, chega a ser engraçado comparar os dois. Tão, tão pequeno. O Arco e suas circunstâncias, paciência, é o que cabe aqui. Menores triunfos, arcos menores. Bom, pensar em “triunfo” também pode ser complicado, não sei se gostaria de passar todos os dias por uma lembrança gigantesca de conquistas bélicas bem questionáveis. Estamos quase lá. A Faculdade de Medicina. A de Direito. A de Economia. A Santa Casa – muita gente na fila hoje. Fila nada triunfal. Desço aqui, na sinaleira, pronto. Todas as sacolas. Minha coluna não sei se aguenta.

Pegar a chave, assinar o ponto. Antes eu ia até o quinto andar de escadas, mas agora vou só de elevador. A dor nas articulações. E a coluna. Saguão cheio. Estão todos ali. Me olham de relance, não tenho cara de professora. Deve ser outra, eles parecem continuar a esperar. Quais seriam os sinais de uma professora de história da cultura? Cabelos bem arrumados, salão pelo menos de dois em dois meses. Com selagem térmica, de preferência. Quantos livros isso me custaria? Uma selagem custa um volume de Apuleio em latim e francês editado pela Les Belles Letres. Não, não, lamento decepcioná-los, meus caros alunos, mas prefiro Apuleio. “Os cabelos a senhora não pode baixar da Internet, professora, o Apuleio sim”. Estou esperando que um dia alguém me diga isso. Vai ouvir uma ou duas verdades. Ah, vai.

A chave, a chave. Onde a coloquei? Na sacola do Mickey. Deveria ter ficado com ela na mão, a sacola é muito funda, e agora, para me inclinar, a minha coluna, não sei como fazer. Isso não vai acabar bem. Está aqui, a chave. Bom. Vou abrir a porta. Eles voltaram a me olhar e agora estão cochichando. Sim, meu cabelo está com frizz, não pintei as unhas, estou usando tênis e sou a professora de história de cultura. O burburinho aumenta. Eu sabia. Vamos ter uma noite longa.

Eles estão entrando e se acomodando, um, dois, cinco, dez, quinze, vinte e seis, trinta. Trinta alunos. Pelo menos há cadeiras para todos. Deixe-me ver. Idades variadas, como de costume. Eles me examinam. Eu os examino. Estamos quites. O plano de ensino, que alívio, fiz cópias o suficiente. Vou me concentrar nisso, no plano de ensino. Preciso ler e explicar, ler e explicar. Faço isso. Mais burburinhos. Eles parecem preocupados. “Nós vamos ter de ler todos esses livros, professora? Inteiros?” Tenho vontade de dizer “Deveriam”, mas ao invés disso reúno minha simpatia (a sala é muito úmida, a dor nas articulações está piorando, quando vai começar essa chuva, afinal?) e o resultado é: “Não, apenas trechos. Sei que somos muito ocupados, que vocês fazem outras disciplinas, que não há tempo para ler tudo”. Eles parecem menos tensos. Um rapaz no fundo da sala não larga o iPad, não parece ouvir uma palavra do que eu digo. Por que se matriculou? E por que eu faço essa pergunta se já sei a resposta? Porque ele quer o diploma, que acha que já está conquistado com a aprovação no vestibular, e porque a disciplina é obrigatória. Eu deveria expulsá-lo da sala? Oh, não, teríamos de discutir, o clima ficaria ruim, e eu não gosto de climas ruins nem de discussões. E há minha coluna, e a dor nas articulações, só eu sei o que é.

Uma menina da primeira fila me analisa de alto a baixo. Está verificando minha roupa, vi pelo modo como se veste que se preocupa com isso. Tenho pena, ela não fará a mínima ideia do que sou ou do que sei me examinando dessa forma. E que não pense que não reparei. A blusa estampada que ela usa sob a jaqueta eu sei de onde vem, é de uma loja de departamentos que não se preocupa com peças exclusivas. Tenho uma igual, sei o que é precisar parcelar as roupas em cinco vezes.

Aquele senhor da segunda fila está olhando fixamente para os livros que coloquei sobre a mesa. E a senhora ao lado dele também. Então ainda existe esperança? Vamos ver. O rapaz do iPad está realmente me tirando do sério. Respiro fundo, melhor abstrair, a briga seria feia, muito feia. Não quero pedir licença-saúde para tratar da coluna. Já apresentei o plano, já respondi as dúvidas sobre a avaliação, muitos me mostraram que querem lucrar o máximo em termos de notas com o menor investimento possível de tempo e esforço, como se isso fosse um negócio, e eu estivesse vendendo algo. Eu, que nem sei vender. Não vou deixá-los ir já para casa. Hoje vamos ler Longo.

Antes de mais nada pergunto se conhecem Longo, ou Longus. É uma pergunta retórica, obviamente não conhecem, onde o teriam lido? Já tive um colega de pós-graduação que se orgulhava de nunca ter lido Shakespeare, esse “colonialista”. Longo, sim, certamente nunca tinham ouvido falar.

Eu ia começar a dizer que pouco se sabe sobre a vida de Longo, eu ia começar, estava preparada, as informações estavam na ponta da língua, e por via das dúvidas também registradas no power point, para o caso de eu me esquecer, o que ocorre com frequência (essa má memória, esse meu cabelo fraco e arrepiado, essa dor nas articulações e uma certa sensibilidade à luz, isso não poderia ser lúpus? Os exames não mostram nada…)… eu ia começar, e então uma menina muito alta me interrompe. Ela retoma a estrutura do meu plano de ensino. Em História da Cultura não deveríamos ver autores mais relevantes? Ela nunca ouviu falar na maioria dos que aparecem ali, Longo, Boécio, Aphra Behn – quando ela mencionou também Flaubert, eu corei. Minha nossa senhora, não conhecer Flaubert… Só falta me dizerem que nunca leram a Bíblia. A menina insiste: Não deveríamos ver Platão e Aristóteles, por exemplo?

Platão e Aristóteles. Platão e Aristóteles. Ela quer ler Platão e Aristóteles. Na verdade duvido que queira ler, deve estar me testando. Líamos Platão antes. Isso foi mesmo antes. Um aluno me entregou certa vez um trabalho em que lançava ofensas pessoais contra Platão, pois se irritara com o modo como abordava as artes n’A República. Tempos depois o menino se matou, erro na dose do remédio ou algo assim, tudo muito triste. Não há ligação de causa e efeito aqui, e de fato confesso que na época da entrega do trabalho (e não da morte) achei, de certo modo, emocionante ver que um filósofo antigo ainda podia despertar reações passionais em alguém. Já com Aristóteles não tenho nenhuma história pesada, não quis trabalhar a Ética a Nicômaco esse semestre, simplesmente isso. Platão e Aristóteles eles terão a oportunidade de ler em vários outros momentos da vida acadêmica, nesse curso optei por explorar com mais vagar uma dúzia de autores dos quais gosto especialmente. Mas não deveríamos ver temas de importância universal, ao invés de uma pequena lista baseada nos meus gostos pessoais? A menina não me dá sossego. Enquanto as “Humanidades” forem um território de “humanos”, lidaremos com gostos pessoais e questões de valor, é isso que respondo. Façam um esforço de entrar no meu mundo de leituras, vou mostrar o caminho ao longo do curso, pode ser bom, ou pode ser entediante, não tenho como garantir o resultado final, mas é lá que eu vivo, e é sobre ele que posso falar. Alguns da turma pareceram gostar do que eu, de um modo desajeitado, disse, pois assentiram com a cabeça. Mas a menina alta prefere mesmo polemizar, preciso dobrá-la, vamos ver quantas semanas levo dessa vez. Ela me perguntou então porque só veremos autores europeus. Por que não cultura brasileira? Ou africana? Por acaso são inferiores? Devíamos prestigiar a cultura local. Ela falou antes em Platão e Aristóteles porque tem alguma curiosidade, mas poderia, sendo realista, viver bem sem (não, eu nem mencionei ainda a minha teoria de que a leitura não traz necessariamente felicidade). Europeus brancos… Onde isso poderia nos levar? Por que continuar a lê-los? Oh, céus, eu sei, tudo bem, eu também já fui assim. Eu li Wayne Booth e Harold Bloom, sobre as discussões éticas nos Estados Unidos em torno do que deve ou não integrar os currículos de literatura nas escolas; eu passei noites queimando as pestanas em livros e mais livros de teoria crítica, de estudos culturais e assemelhados. Estou curiosa. O que temos aqui? Uma menina com vocação política que tem preguiça de ler? Uma nacionalista nata? Uma futura intelectual? Tudo isso junto? Perguntei a ela se já havia viajado para fora do país. Sim, é bem evidente, ela é muito orgulhosa e ficou em silêncio. Não deve ter dinheiro para ir a parte alguma. Não por isso, eu também vivi em um mundo puramente virtual e especulativo até o mês passado, quando fui à Europa pela primeira vez. Uma professora de História da Cultura que passou boa parte da vida sem dinheiro para viajar e ver as coisas “de verdade”, uma “historiadora de cola e tesoura”, como diria o meu muito querido e muito amado Collingwood, talvez uma vítima de um caso adiantado de bovarismo intelectual. That is me. Se ela não responde, respondo eu. Não aumentemos tanto assim a distância entre nós e os outros. Ouvi uma flautista brasileira que estuda em Berlim impressionada com o fato de sermos homens e mulheres em toda a parte. Há características básicas que nos unem a todos, aparentemente bestas, mas vejamos bem, absolutamente essenciais: todos ficamos alegres, e também tristes; podemos ser altruístas, ou podemos ser egoístas, e isso independe do lugar onde nascemos, sem ilusões, per favore. O que vamos ler em História da Cultura é o “pensamento congelado” de pessoas que, nem sempre nas melhores circunstâncias, gastaram sua energia tentando reconstruir o próprio mundo, ou imaginando outros eventualmente melhores ou piores. Tudo pode se perder, mas se a curiosidade em conhecer outras pessoas, a consciência de que todos somos únicos (e somos bilhões), se isso se perder também, o que nos resta? Um mundo hostil aos humanos, apenas isso, o que é muito sério. Nosso potencial criativo não tem cor, não tem sexo, não tem fronteiras de espécie alguma. Eles usam a internet e compram produtos da China, achei que essa fosse uma ideia mais clara. Preciso “achar” menos, expectativa é garantia de dor, eu já estudei o budismo, por que é tão difícil colocar em prática? Ainda estou pensando na imagem que usei, “pensamento congelado”. Ninguém na turma percebeu que essa é uma citação ao quinto livro de Rabelais, em que ele fala das palavras congeladas (ele as descreve, explodindo como castanhas quentes, é um trecho fantástico que pude ler no francês original). É por essas e outras que me sinto uma E.T. Umberto Eco parece tirar algum prazer em polvilhar o texto de referências intertextuais que quase nunca são pegas, mas eu, honestamente, gostaria de ser compreendida de vez em quando, como se o que eu escrevesse ou dissesse fosse “transparente”. Não, não, não, nada mais impossível, a história da literatura é a história dos erros de leitura, estou convicta.

Continuo minha arenga, procurando os olhos da menina alta: vamos estudar textos instigantes, foquemos nisso, vamos buscar modos mais antigos de descrever o amor e o sofrimento, vamos tentar imaginar o que nos une a eles ainda hoje, e o que nos afasta. Os alunos poderiam colocar minha resposta em um belo ímã de geladeira, realmente saiu redondinha, mas a menina alta não me parece convencida. Pelo menos não retruca, acho que está com fome, pois começa a roer uma barrinha de cereais. Em algumas pessoas as discussões desregulam o nível de açúcar. Eu odeio cada vez mais as discussões. Ela deve ter hipoglicemia. A pobre. E eu estou quase certa de ter lúpus, precisava mesmo me poupar, trabalhar aqui, nessa sala, sob lâmpadas fluorescentes, isso é um perigo e pode acabar me matando. Seria um processo doloroso, longo…

Longo. Eles estão conversando demais. Retomo o controle da situação. Longo escreveu em Lesbos no século dois. Muitos risinhos quando falo “Lesbos”. O único ponto de referência que eles têm para essa palavra são as lésbicas. Previsível. Continuo. Pouco se sabe sobre Longo, na verdade não dispomos de muitos romances do período helenístico que tenham chegado até nós na íntegra. Eu contei cinco: Quéreas e Calírroe, de Cáriton de Afrodísias; As efesíacas, de Xenofonte de Éfeso; Os amores de Clitofonte e Leucipe, de Aquiles Tácio, Dafnis e Cloé, de Longo, e As etiópicas, de Heliodoro. Fócius, um patriarca bizantino do qual sou realmente fã, gostava de comentar alguns desses romances helenísticos, ele queria orientar as leituras do irmão. Me impressiona ainda hoje a sua tolerância – ele combateu vigorosamente o iconoclasmo, que tantos estragos causara em Hagia Sofia, e também não suspendia a leitura dos romances quando encontrava situações amorosas pouco recatadas ou frívolas. Havia a beleza da linguagem, e isso deveria ser valorizado sem hesitação. Sim, a beleza da linguagem, que vai ser evocada por Poggio Bracciolini, quando redescobre o perigosíssimo De rerum natura, de Lucrécio, e que será engenhosamente evocada de novo por Zola, quando precisa defender Manet das críticas contundentes ao Dejeuner sur l’herbe e a outros quadros escandalosos. Eu me entusiasmo e emendo um comentário no outro. Eles me olham, visivelmente entediados. Nomes, nomes, nomes. Carcaças sem vida. Como mostrar a eles que tudo isso está cheio de energia? Que pode voltar a viver a qualquer momento? Que está vivo em mim?

As divagações muito abstratas poucas vezes dão certo. Mas as menções a amor e, sobretudo, sexo, sim, sim, sim, isso sempre funciona. E é por isso que começo meu curso por Longo. No Proêmio de Dafnis e Cloé Longo menciona as histórias de amor pintadas que viu em um “bosque consagrado às Ninfas”. As histórias de amor vistas, todas elas, não apenas as pintadas, iriam inspirá-lo a compor um livro que curasse doentes, acalentasse os tristes, refrescasse a memória dos antigos amantes, ensinasse a amar aos que nunca amaram, porque o amor é universal, e quem ainda não amou, há de amar, e não há como escapar a esse sentimento. Nesse momento todos me olham atentos – eu sabia! eu sabia! Todos menos o rapaz do iPad, é claro. Ele deve ser de plástico. Será que é capaz de amar? Claro que sim, afinal, ele não tira os olhos do seu brilhante “amor” a noite inteira. Aquela luz emitida pelo iPad não me faz muito bem. Isso, mais a umidade de hoje, sim, iam ter de fazer concurso para outra professora, porque eu deixaria esse mundo. O iPad nem faria bem para a minha coluna. Dor nas costas lúpica, quem sabe? Devo pesquisar isso. Talvez exista.

A menina alta engoliu em seco quando eu falei “quem ainda não amou, há de amar”. E ela não deu risadinhas quando falei em Lesbos… Não tira os olhos de mim agora. Será? Não. Não. Acho que não.

Comentado o Proêmio, distribuo a todos a primeira parte de Dafnis e Cloé. Vamos ler. Dafnis e Cloé são criados entre pastores, apesar da misteriosa origem de ambos. Vivem em uma bela paisagem, inocentemente. Mas a adolescência chega para os dois. Olho para meus alunos. Em alguns vejo espinhas. Espinhas e, no entanto, pouca inocência. Se eu falasse isso achariam um elogio. E então me ocorre: como explicar esse tipo de inocência sexual? Eles estavam lendo, mas os mais novos seguem achando a trama toda muito inverossímil. Dafnis e Cloé vão tomas banho juntos na gruta das Ninfas, ele tostado de sol e com cabelos negros, ela branquinha como leite de cabra e com cabelos loiros. Ele olha para ela e, muito bem, gosta do que vê, mas de um modo inocente. Ela olha para ele e, vejam só, também gosta muito, muito mesmo do que vê. Tudo de um modo inocentíssimo. “Como assim, de modo inocente, professora?”. A gente nunca conhece as pessoas mesmo. Com essa idade eu já devia ter aprendido. Mas eu não sei, às vezes acho que sou capaz de avaliar muito bem as pessoas. Às vezes acho que não. Isso poderia ser um traço de síndrome de Asperger. Eu me acho um tanto quanto antissocial e autocentrada. E eu realmente não estou muito segura de compreender meus alunos. Talvez eu seja mesmo um E.T., mas do ponto de vista da genética cerebral. Síndrome de Asperger, lúpus e ainda essa dor nas costas. O que foi que eu fiz para merecer isso?

“Como assim, de modo inocente, professora?”. O rapaz do iPad repete a pergunta. Acho que me distraí pensando nessas doenças todas. Não, realmente me distraí. O rapaz do iPad prestou atenção em algo do que eu disse. Eu não estava preparada para isso. Achei que ele olharia fixamente para o iPad até nosso último dia de aula. “Achando morreu um burro”, este é mesmo um dos meus ditados favoritos. Como explicar a inocência sexual ao rapaz do iPad? Oh, céus. Os professores recebem pouco diante dos desafios que enfrentam. Nós aprendemos o que não conhecemos através do que conhecemos, através de metáforas, o não familiar através do familiar, e toda a genialidade dos líderes de nossos cânones artísticos se encontra nessa humilde habilidade, a de construir metáforas, metáforas simples o suficiente para permitir a sensação de conforto proporcionada por uma ilusão, a de que “isso é fácil”, de que “isso eu já conheço”, algo que inevitavelmente conduz ao mais essencial, mais elementar e mais previsível erro de leitura. Eu disse então a eles que a novela Dafnis e Cloé, de Longo, é como o filme A lagoa azul. “Aaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhh”, eles exclamam. Riem bastante, estão se divertindo, estão felizes. Pelo menos os mais velhos, que viram A lagoa azul. Os mais novos ouviram pelo menos falar, sabem do que se trata, com maior ou menor nitidez, e por isso ainda conseguem rir. A lagoa azul, com dois jovens náufragos, perdidos em uma praia deserta, descobrindo o amor inocentemente. O amor inocente é o amor que não sabe o próprio nome. Meus alunos me ouvem, acham bonito isso – com exceção da menina alta, que me olha sempre de modo desafiador, parece que a crise de hipoglicemia está sob controle, e do rapaz do iPad, que voltou a pesquisar em seu pequeno e luminoso objeto do desejo.

O narrador apresenta de modo exemplar a ignorância de Cloé acerca do amor. Ela “sentia inquietude na alma”, desejava olhar para Dafnis todo o tempo, e só falava sobre ele. De dia não comia, de noite não dormia, e as ovelhas ficavam no campo, esquecidas. Chorava e ria sem razão, dormia para logo acordar, e quando não estava pálida, enrubescia. O narrador sabe que isso é amor, eu sei que isso é o efeito da ocitocina que nos aproxima dos arganazes do campo, meus alunos acham, os mais novos, que Cloé está “se fazendo”, e Cloé não sabe de nada, ela é uma inocente para os que têm fé na inocência.

Ela mesma apresenta, enfim, o seu mal, reforçando a descrição já feita pelo narrador.

Leio esse trecho em voz alta:

Estou doente e ignoro meu mal; padeço e
não vejo minhas feridas; me lamento e não
perdi nenhum cordeirinho; me abraso e estou
sentada à sombra. Mil vezes me arranhei
nos espinhos das sarças e não chorei;
picaram-me as abelhas e continuei sã.
Sem duvida que esta picada de agora chega
ao coração e é mais cruel do que as outras.

Pergunto a eles se já não haviam visto esse tipo de descrição do amor em algum lugar. Alguns me assentiram com a cabeça, mas não sabiam me dizer onde. Fazer relações, fazer relações o tempo inteiro, isso é ser criativo, isso é estar intelectualmente vivo, mas não há como fazer relações entre elementos totalmente desconhecidos. Para relacionar, é preciso conhecer minimamente. É preciso ter a experiência. Nem que seja virtual, como na leitura. Não viram mesmo isso em lugar nenhum? A menina alta parece estar com a resposta que eu estou esperando na ponta da língua. Mas eu me confundi de novo. Talvez seja apenas cara de fome. Construção dialógica do conhecimento, vamos lá, eu li sobre isso em algum lugar, eu preciso perguntar até que me digam alguma coisa, pois o conhecimento está neles, e não em mim, o conhecimento está todo neles, eu sou apenas uma mediadora, mas… Como convencer pessoas satisfeitas com o familiar a se jogarem no desconhecido? Freud já explicou que isso dá medo. Eu estive na casa dele mês passado, aliás. Bem iluminada, com um divã, com a plaquinha de seu antigo consultório, com uma caixinha de jogos, e eu comprei Das Unheimlich na loja do museu. Tudo muito claro lá, tudo muito organizado, sem sombras, sem estranheza. Tudo pacato e tranquilo. A não ser pelo armário com a coleção de arte “primitiva”. Dar intelectualmente um salto rumo ao desconhecido. Vejo meus alunos com preguiça. Uma hora de aula e já estão exaustos, famintos, inquietos nas cadeiras. Há exceções, é claro, não posso ser injusta o tempo todo. De qualquer forma saltos hoje me parecem impossíveis. Posso estar julgando mal, no entanto. Eu não duvidaria. Como pensar direito com Asperger e essas dores nas articulações?

Não, eles não viram a estrutura do lamento de Cloé em lugar nenhum. Eu sim. Anos atrás, em uma noite particularmente tediosa e úmida, li uma edição bilíngue dos poemas de Safo, e entre eles encontrei uma peça fundamental para o que chamo de meu dominó das antíteses amorosas. O poema não está completo, mas nele ela afirma que não consegue mais dizer palavra alguma depois que vê a pessoa amada, pois “a língua se dilacera”; a pele é tomada por chama furtiva, a visão falha, a audição também, no coração há medo, pelo corpo há suor e tremor, e a morte parece próxima. Cegueira e ardência, ardência e cegueira. Pergunto de novo: eles ainda não haviam visto isso em algum lugar? “Legião urbana”, grita do fundo da sala o rapaz do iPad, e em seguida complementa, “Amor é fogo que arde sem se ver”. Camões, retruco eu, “Amor é fogo que arde sem se ver” é de Camões, foi ele que escreveu esses famosos versos. Depois de ter lido Safo. Ou teria lido Longo? Longo leu, ou escutou, versos de Safo. E Safo? Tirou essas imagens de onde? Ou ardeu de amor sem saber e foi a fonte primordial de todas essas antíteses?

Estou ouvindo os primeiros pingos de chuva. Os alunos já começam a arrumar suas coisas, eles têm muita consciência do horário de saída. De resto, bem mais do que do horário de chegada. “Amor é fogo que arde sem se ver”. A menina alta parece falar alguma coisa, e aquele senhor da segunda fila, que ficara quieto a aula inteira, parece estar tecendo algum tipo de comentário. Eu é que não consigo prestar mais atenção, Agora tudo em mim arde, lúpus, Asperger, articulações, coluna. E eles nem imaginam. O rapaz do iPad continuaria a não prestar atenção às minhas aulas se tivesse consciência das condições sob as quais trabalho? Não, não, de modo algum, ele não prestaria. Empatia não me parece um sentimento natural. É um esforço de imaginação. Tenho que imaginar a outra pessoa, imaginar possíveis reações, gostos, características, pensamentos, preferências. Eu tenho de assumir o risco de saltar no desconhecido.

Não, não, isso é muito pouco provável. Para mim Paladas de Alexandria é que via com clareza, e José Paulo Paes, que o traduziu, também. José Paulo Paes, meu tradutor de cabeceira, que traduziu também Sterne e que, mesmo sabendo o alto preço que pagamos ao saltar no desconhecido, saltava, saltou até o fim. E se ele um dia virasse um personagem de novela? Eu ficaria feliz. Ficaria, mas agora posso apenas concordar com Paladas:

De barro és feito; por que a presunção?
Só fala assim quem se compraz em fingimentos vistosos.

Mas se buscas a verdade, recorda que vieste de um ato
de luxúria e de uma gota suja.

Paladas conheceu Hipatia de Alexandria, presenciou muitas destruições, a mais prosaica, a de seus rendimentos como gramático, a mais profana, o aniquilamento dos antigos deuses gregos diante do avanço cristão, e a mais cruel, o fim da própria Hipátia. Imagino ela e meu aluno falecido, no limbo, discutindo acaloradamente sobre Platão. Talvez ela fosse capaz de convencê-lo, de mostrar o outro lado.

Muito bem, Paladas não tinha muitos motivos para estar feliz. “Gota suja” contém uma ironia pesada, poucas vezes li palavras tão fortes. Eles iriam notar se eu dissesse? Se eu lesse em voz alta? Há tantas coisas mais escabrosas escritas agora, mais sórdidas, mais explícitas, como mostrar a tristeza real por trás das palavras? Como distinguir a encenação imaginária do sofrimento da descrição daquilo que foi efetivamente sentido e experimentado? Como mostrar o peso das palavras antigas para os que ainda não desenvolveram, não alimentaram a própria imaginação histórica? Meus poderes são muito limitados. Ler é errar, paciência.

Mas ainda assim, não sei. Eu devia ter mostrado esses versos aos meus alunos. Eles estão cansados, a menina alta emitiria alguma opinião sobre luxúria e gotas sujas, eu iria me irritar, e a coluna, que já me preocupa tanto, sofreria mais. Não, não, há riscos que não posso mais assumir.

A aula está quase no fim. Preciso mandá-los para casa daqui a uns cinco minutos. Esse tempo todo uma pergunta ficou me martelando. Eu não gosto de perguntar isso, mas às vezes me vejo obrigada. Eu realmente sempre me espanto, nem sei por que razão eu pergunto. É que eu por algum tempo achei que havia um solo cultural comum, um território de leituras universais que frequentávamos todos (leituras, longas e intensas, como se pessoas como eu não fossem agora e não tivessem sido desde sempre uma aberração). Então fiz de novo. Quantos haviam lido a Bíblia? Eram trinta. Eles já estavam com o material todo guardado, com os pés flexionados, em posição de partida, com os troncos voltados para a porta. Ainda assim dois levantaram a mão. Dois. Dois levantaram a mão. Eles leram apenas o Apocalipse (aposto que leram também pelo menos uma parte do Inferno de Dante, hoje em dia é uma espécie de “combo”). E Jó? E os Salmos?  E os Atos dos Apóstolos? E, se não fosse possível ler mais nada devido à eclosão de uma guerra, e o Gênesis, pergunto eu? Como viver sem ler o Gênesis? Eu não sei como viveria (e isso não é uma declaração de fé, pois sou ateia desde os treze anos), mas a experiência tem me demonstrado que não sou a regra. É possível viver muito bem sem leitura alguma, as pessoas dançam, nadam, olham a paisagem, comem, dormem, pescam, andam de patins. Em se estando vivo, há realmente muito o que fazer. Não iludo meus alunos. Leitura não é garantia de felicidade. Mas para mim é uma promessa. Provavelmente a iludida aqui seja mesmo eu.

Moral da lição de hoje: O salto ao desconhecido talvez seja possível apenas quando estivermos tomados pelo fogo que arde sem se ver.

Daniela Kern é escritora, tradutora e professora de História da Arte no Instituto de Artes da UFRGS. Seu romance de estreia, Doze Lições (Editora Class, 2019), realizado com o apoio da Bolsa Funarte/Biblioteca Nacional de Criação Literária 2012, foi finalista dos prêmios AGES 2020 e Açorianos 2020, tendo sido premiado com o troféu Alcides Maya pela Academia Riograndense de Letras em 2020.

FICÇÃO

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