De ‘FABRÍCIO BOMTEMPO E AS RELÍQUIAS IMPOSSÍVEIS’, de Christian David

A MALDIÇÃO DO MEU TIO

A história do meu tio é meio enrolada e já aconteceu faz um tempão. Não ouvi a história direto da sua boca, ele vivia viajando, deforma que fui criado pela minha tia. Nem cheguei a conhecer meus pais que morreram cedo. Mas a história que a minha tia me contou, e eu dei um desconto já que ela deu para embaralhar alguns dados no final da vida, foi a seguinte:

Lá por meados da década de 1950, ou algo parecido, meu tio era o proprietário de uma grande extensão de terras na recém-criada e emergente cidade de Duas Palmas. Não satisfeito com toda a terra que já tinha, procurou maneiras de expandir o que ele chamava de “Império dos Bomtempos”. Como havia feito anteriormente, expulsou, junto com seus capangas, todo o povo que morava ao redor. Não importava se o sujeito tinha documento de posse ou autorização da prefeitura: se fosse mais fraco e não tivesse a quem recorrer, meu tio mandava embora.

Bom, uma parte das terras desejadas pelo meu tio era habitada por índios aqui da região — minha tia não soube precisar à qual tribo pertenciam. Para esse povo, meu tio preparou um evento especial de horror. Em uma noite fria, atacou com sua jagunçada e foi colocando fogo nas malocas. Logo depois começou uma chuva torrencial e, no meio daquelas pessoas assustadas, apareceu uma mulher muito idosa, mas cheia de vigor, que se colocou em frente ao meu tio, entronado no seu cavalo. Ela proferiu a seguinte maldição:

Gente das garras do maligno ofício
Despejador da gente verdadeira
Com fogo amaldiçoa os carente’
Com fogo vai vive’ a vida inteira

Pra sempre as palha’ das casa’ mais erguida’
Os teto’ das morada’ de todos os edifício’
Quando a cabeça cansada repousa’ na cabeceira
O fogo vai queima’ até a última poeira

Isso a minha tia sabia de cor, de tanto que ele repetiu pra ela.

O que se “assucedeu” então foi meu tio não dando a mínima para o que a velha índia falou. Saiu do lugar rindo e galopando com toda a sua cambada de capangas. Mas a vida dele nunca mais
foi a mesma.

(…)

Christian David tem graduação em Ciências Biológicas e Especialização em Literatura Brasileira pela UFRGS. Já recebeu diversos prêmios como o Prêmio Saraiva 100 anos, Prêmio AGES, Prêmio Off-flip, Prêmio Sintrajufe-RS pelo conjunto da obra, Prêmio Cidade de Passo Fundo, Troféu Carlos Urbim (Prêmio ARL), inclusão no Catálogo de Bolonha, Acervo Básico da FNLIJ e Selo Altamente Recomendável da FNLIJ, além de Finalista do Prêmio Açorianos e Prêmio AEILIJ. A primeira parte do livro “Fabrício Bomtempo e as Relíquias Impossíveis” foi publicada primeiramente como a HQ “As Aventuras de Fabrício Bomtempo, Vol I: O Anel Cardinale”, uma parceria das editoras Physalis e Libretos, e recebeu o Prêmio Le Blanc de Quadrinhos 2021.

FICÇÃO

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