De ‘MILONGA DE UM PAMPA ESQUECIDO’, de Carlos Guilherme Vogel

1.

Abro a janela e coloco a cabeça para fora, sem me importar com a poeira que levanta da estrada de terra vermelha. O mormaço desta tarde de janeiro é tal que piso no acelerador, na expectativa de que um vento um pouco mais forte apazigue as gotas de suor que brotam da fronte e escorrem pelo meu rosto. Mesmo assim, o calor mal se desfaz e o suor ensopa a gola da minha camiseta, causando-me um misto de desconforto e irritação no pescoço.

A velha estrada de terra corta não mais as coxilhas do meu tempo de criança, mas lavouras de soja que se estendem ao longe, formando um imenso tapete verde e raso. Do solo, raramente brotam árvores. Puxo pela memória, e, para mim, aquilo é completamente diferente do que eu havia conhecido. Fico na dúvida se já existiam tantas lavouras naquela época, mas tenho quase certeza de que não. Os campos e o gado parecem ter desaparecido, e mesmo as florestas de eucalipto, que naquela época já roubavam o espaço da mata nativa, agora praticamente sumiram. Ou talvez seja minha lembrança que já se apagou, depois de vinte anos sem percorrer esse caminho.

Calor. Muito calor. Limpo o pescoço com a manga da camiseta, única parte do tecido que ainda não está molhada de suor. Tusso uma tosse mais seca que a poeira da estrada. Ergo os vidros e ligo o ar condicionado. Que merda! Estou aqui reclamando justamente desse mundo artificial, dessa proliferação de lavouras transgênicas que invadiram até os lugares mais remotos do Rio Grande, e sem me dar conta fecho a porra do vidro do carro para me isolar no friozinho de um iglu ambulante. Confesso que fico na dúvida entre abrir o vidro e sentir o calor do mundo real ou ficar protegido, nesse espaço vip climatizado. Parece que o progresso nos torna mais vulneráveis. Estamos nos tornando seres frágeis, conservados em temperatura ambiente. Aliás, quem definiu o que é e o que não é temperatura ambiente? Convencido da minha própria argumentação de que os trinta e tantos graus lá fora são, de fato, a temperatura daquele ambiente, desligo o ar, abro novamente a janela e sinto outra vez o sopro quente deste dia de verão.

Lá adiante, numa baixada, finalmente avisto um conjunto de árvores que seguem em uma linha reta, cortando ao meio o verde das lavouras. Lembro do meu pai, de nossas idas para a fazenda. Enquanto dirigia, ele me explicava as coisas do mundo.

– Tá vendo aquela lista de árvores que segue pra longe?

– Onde?

Aí ele diminuía a velocidade e, com paciência, me apontava o caminho que as árvores formavam em torno do leito de um rio e dizia, numa linguagem simples, para que eu compreendesse:

– Tem um rio que corre no meio daquelas árvores. Elas ficam em volta pra proteger a água.

– Proteger de quem?

– Do desmatamento, da erosão, do veneno das lavouras…

E aquele conhecimento se acumulava aos poucos na minha cabeça de guri. Mas agora, mais do que o conhecimento que ele me passava, sinto falta de ouvir a voz dele me ensinando coisas e do jeito como ele se enchia de orgulho quando eu demonstrava, perto de outras pessoas, o que tinha aprendido. Ele certamente acreditava que eu seria um cara foda, um pica das galáxias em uma área qualquer. Pensando por esse lado, talvez até tenha sido bom ele ter partido cedo. Só assim não precisou ver o que eu me tornei, ou melhor, o que eu não me tornei. Posso até ter feito algumas coisas legais, alguns bons trabalhos como fotógrafo, mas, no geral, me sinto um jornalista fracassado, correndo atrás de qualquer pauta minimamente interessante pra cumprir minha meta de postagens diárias em um sitezinho medíocre. A verdade é que há tempos me sinto incapaz de fazer qualquer coisa que seja no mínimo interessante e que possa atrair a atenção de alguém.

Percorro mais alguns quilômetros, e finalmente o rio se aproxima. Um gaúcho a cavalo, de bota e bombacha nesse calor dos infernos, galopa na minha direção e acena para que eu reduza a velocidade. Logo adiante, outros dois caras, no mesmo estilo campeiro, vêm conduzindo uma tropa de gado. Os animais não são muitos, mas paro a minha Fiat Strada, toda surrada, no costado da via para que eles passem.

Presto atenção às vacas que andam em bando, algumas soltando mugidos, outras me olhando com olhar curioso. Esboço um sorriso para uma delas, na tentativa de obter uma resposta. Tenho a impressão de que ela sorri de volta, respondendo gentilmente ao meu cumprimento.

Apesar de tudo, o mundo ainda parece teimoso. Em pleno século vinte e um, com as estradas abarrotadas de caminhões para transportar gado, ainda existem caras como esses gaúchos, que tropeiam vacas como se vivessem em outra época? Gaudérios que não deixam de vestir suas bombachas mesmo numa tarde insuportavelmente abafada como esta. E eu me preocupando em ligar ou não o ar condicionado do carro.

Sigo mais um pouco e, antes de cruzar a ponte, decido encostar minha camionete à sombra de um cinamomo solitário. A árvore teima em permanecer viva, mesmo que praticamente tomada pela erva-de-passarinho, que lhe abraça o tronco e se estende por seus galhos, sugando-lhe toda sua energia vital.

Desço do carro e, pela força do hábito, ligo o alarme, como se estivesse em uma rua movimentada do Rio de Janeiro. Ando até a cabeceira da ponte. O rio corre lá embaixo, a muitos metros do nível da estrada. Ao longe, na outra cabeceira da ponte, vejo um rapaz que olha distraidamente para o leito do rio. Quando me vê, ele se afasta e segue lentamente seu caminho.

A ponte tem o lastro de madeira, mas é sustentada por uma estrutura de concreto, em pilares que se fincam ao solo por entre as águas escuras que correm sabe-se lá para onde. Chego junto ao guarda-corpo e olho para baixo. É impossível não pensar na sensação que eu teria se me jogasse dali, na euforia que provavelmente sentiria durante os momentos que antecederiam a pancada do meu corpo junto à superfície da água. Sorrio, imaginando o que seria aquela sensação de liberdade e autodestruição. Penso em quais as razões que eu teria para não fazer aquilo e não encontro nenhuma. Mesmo assim não faço. Primeiro porque não tenho coragem, segundo porque a curiosidade que eu sempre tive sobre o dia de amanhã me algema a essa vida que às vezes parece não ter o menor sentido.

Ando um pouco pela margem e acomodo-me à sombra de uma árvore, em um ponto de onde eu posso contemplar a água seguindo seu curso. Respiro fundo, tentando sentir aquele cheiro de campo que estava armazenado em algum drive acoplado ao sistema operacional do meu cérebro, mas só consigo sentir um odor estranho, meio irritante. Deleto.

Tiro do bolso da bermuda o baseado que trouxe especialmente pra viagem, um camarãozinho de uma blackberry kush que comprei de um amigo que participa de um clube de cultivo. Aliso a seda tranquilamente contra minha perna e preparo meu beque curtindo o ritual. Esse é o meu momento de desconexão.

Enquanto fumo, relaxo e contemplo aquele resto de tarde sem nenhuma preocupação, a não ser um certo incômodo nos olhos causado pelo reflexo do sol na superfície enrugada do rio. Fecho os olhos e me desconecto. Aos poucos um sono gostoso vai tomando conta de mim e adormeço. O dia praticamente se foi quando desperto, ao som de cavalos a galope. Com os olhos ainda embaçados e um tanto confuso, percebo um grupo de cavaleiros se aproximando da cabeceira oposta da ponte.

Carlos Guilherme Vogel é natural de Cruz Alta. Graduado em Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), atualmente está cursando Doutorado em Comunicação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde realiza pesquisa sobre a produção audiovisual brasileira. Formou-se também em Roteiro pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro e realizou cursos na Escuela de Cine y TV (Cuba) e na Prague Film School (Rep. Tcheca). Contador de histórias, atua como diretor e roteirista cinematográfico. Faz sua estreia na literatura com o romance “Milonga de um Pampa Esquecido”, lançado em maio pela Editora Bestiário.

FICÇÃO

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