De ‘NOITE ADENTRO’, de Tailor Diniz

Claridad Aguillera deu três batidas na porta com os nós dos dedos e esperou. Como ninguém respondesse, segurou a maçaneta com a mão direita e baixou-a com cuidado, para não fazer barulho. De dentro da sala veio uma nuvem quente de fumaça, que logo trespassou a porta, demorando em se desfazer. Ao fundo, no outro lado de uma mesa de mogno, sentava-se Torté Navaja, a cabeça escorada numa grande almofada amarela sobre o espaldar da cadeira, a boca aberta, dentadura à mostra e os olhos fechados.

Em um primeiro momento, Antônio achou que estivesse morto. Mas fora só uma impressão passageira, já que Torté roncava alto, movimentando a língua quando puxava o ar pela boca. Casualmente, ao botarem os pés para dentro, Torté Navaja tivera uma forte apneia, dera um salto na cadeira, movimentara a cabeça para os lados à procura de ar, para só depois abrir os olhos, e assim retomar a respiração e continuar dormindo.

Sobre a mesa, que devia ser a mesa de trabalho de Claridad Aguillera, havia um laptop fechado e uma agenda de papel arredados para um canto. Diante de Torté, ao alcance da mão, uma garrafa de uísque vazia, um copo com gelo derretido, um balde coberto por uma toalha de algodão, uma caixa de cohibas e um charuto pela metade, com um resto de brasa ainda a queimar na borda de um cinzeiro de porcelana abarrotado de cinzas. Ainda sobre a mesa, alinhados em duas filas de três, havia seis telefones celulares, com os respectivos visores virados para baixo. No lado esquerdo de Torté Navaja, uma janela de vidros fumê mostrava uma ampla visão da pista, do palco até quase a porta de entrada, já que a sala fora construída como um avanço, de viés sobre a parede do andar de baixo.

Não havia qualquer possibilidade de Torté Navaja acordar por conta própria. Claridad Aguillera, então, contornou a mesa e bateu no ombro dele, que continuou a dormir. Foi aumentando gradativamente o peso da mão sobre seu ombro, até que ele abriu os olhos, movimentou-os em círculo, contraiu as pálpebras, e tentou olhar em volta. Quando fechava novamente os olhos, Claridad lhe bateu outra vez no ombro, agora com mais força, e disse, próximo ao seu ouvido: “Tortélio! Despertáte, Tortélio! Mirá, Tortelito, están acá los hombres!”.

Ainda imóvel na cadeira, Tortélio Navaja abriu bem os olhos. Fitou Claridad Aguillera, que sorria, o rosto muito próximo ao dele.

Qué pasa!?”.

Tirou a cabeça do encosto da cadeira, sem notar a presença dos outros. A marca de sua nuca ficou afundada na almofada amarela, parecendo o molde tirado para a reprodução de sua cabeça em uma futura estátua de gesso.

Claridad Aguillera puxou três poltronas para a frente da mesa, e ela mesma mandou que Aramendía, Gonzalito e Antônio se sentassem.

Torté Navaja espichou o braço em direção ao copo de uísque, pegou-o e tomou o resto de gelo derretido. Fez uma careta e se virou para Claridad, que lhe pediu para esperar, ia trazer mais uísque. Mas ele primeiro devia despertar, os homens o aguardavam. Vinham ansiosos, esperavam-no havia horas. Nesse momento, enquanto devolvia o copo vazio para a mesa, Torté percebeu a presença dos outros, sentados à sua frente. E disse, sonolento, esboçando um bocejo: “A ver… Aramendía, Gonzalito e… Antônio… A ver… Antônio de que mesmo, si le pregunto?”.

Aramendía respondeu, ainda sem se acomodar direito na poltrona, o corpo pendendo para os lados.

“Messias. Antônio Messias”.

, seguro. Antônio Messias, brasileiro como Tinoco Ramalho. Seguro.”

E fez o sinal da cruz.

Claridad Aguillera saiu da sala e voltou com outra garrafa de uísque e um novo balde com gelo. Trazia junto os copos dos outros, que haviam ficado no mezanino. Largou-os diante de Torté Navaja, desejou-lhe suerte e disse que ia sair para deixá-los à vontade, se precisassem de alguma coisa, era só chamá-la, ela ia ficar no mezanino ao lado.

Enquanto ela saía, bem-disposta e solícita, acendeu-se a luz do visor de um dos telefones de Torté e se refletiu sobre o tampo lustroso da mesa. Mas ele não viu. Aramendía apontou para o telefone e avisou-o. Torté pegou-o, virou o visor para cima, conferiu alguma coisa e colocou-o outra vez na posição anterior, sem atendê-lo.

“Bobagem”, disse.

Antônio olhou pela janela, o palco só não estava vazio porque um segurança cruzava a pista em direção à porta de saída e um dos músicos colocava o acordeom dentro de uma caixa forrada de cetim vermelho. Mesmo com a janela fechada, dava para ouvir, em um volume menor que a música ao vivo, que alguém havia colocado um cd no aparelho de som. Era um blues que Antônio não conseguiu identificar, um prolongado solo de harmônica calçado apenas por um baixo, algo que lhe lembrava um filme antigo, uma estrada deserta e empoeirada ao entardecer, um sol, que fora escaldante, sumindo já pela metade no horizonte avermelhado.

Antônio enfiou a mão no bolso e pegou o que Claridad ali enfiara. Era um pedaço de papel dobrado. Procurava ser discreto, embora fosse pouco provável que Inácio Aramendía e Gonzalito prestassem atenção em qualquer movimento seu.

Desdobrou o papel e leu o que estava escrito.

Até quando, Senhor, tu serás neutro

e estarás assistindo a tudo isso como puro espectador?

Teve um sobressalto. Se a bebida até aquele momento havia lhe turvado a memória, a ponto de, às vezes, não saber ao certo se o que ouvia e via era um sonho ou verdade, aqueles versos funcionaram em seu estado de consciência como a fagulha que precede a uma explosão, que, em um átimo de segundo, transportava-o a outra dimensão de tempo. E passou a juntar fatos passados e longínquos, quase apagados da memória, com fatos presentes ou muito recentes.

“Salmo 34”, ele pensou, um poema de Ernesto Cardenal, do livro que vira na estante de Torté Navaja e que pensara em trazer consigo horas atrás, quando estivera na casa dele, mas que fora impedido pela presença na sala de Clemenza e depois de Torté e Aramendía. Não havia dúvidas de que o papel entregue por Claridad chegara até ele vindo de Clemenza Ruíz. Ela vira-o manusear o livro e até se aproximara dele, certamente para dizer algo de seu interesse. E havia ainda outras referências a fazer. O livro fora presente dele a Valentina Torquato, quando foram colegas de aula na universidade e durante a militância estudantil de ambos. E se o livro fora parar na estante de Torté Navaja, era porque Valentina o conhecera. E, principalmente, se Clemenza lhe enviara os versos, em especial “aqueles versos”, era porque algo sobre Valentina, importante ou não, relevante ou apenas curioso, ela tinha para lhe revelar.

Enquanto isso, diante de Antônio, os cotovelos apoiados na mesa, Torté Navaja olhava-os de frente, rosto por rosto, querendo extrair de cada um, do seu formato e das suas expressões, algo que o animasse a despertar por inteiro. Estudou bem as palavras que ia dizer. E disse, a voz pastosa com um fundo grave, típico de quem acaba de acordar: “Que bom que voltaram. Temi que tivessem partido para sempre”.

Antônio, Aramendía e Gonzalito entreolharam-se. E esperaram Torté continuar, mas sua fala ficou nisso.

Então, Gonzalito, que parecia o mais ansioso e lúcido, disse, adiantando o corpo para diminuir o espaço entre ele e Torté Navaja: “Não tínhamos como partir. Esperávamos por vos, Don Tortélio. O El Penitente”.

Torté Navaja jogou-se para trás num único impulso. Arrancou da cadeira giratória um barulho seco e incômodo, de ferros e de molas soltas.

“Seguro! A ver…”

E outro vazio de palavras se transpôs entre eles. Uma penumbra de fumaça e vapores baixou do teto, que lhes turvou a visão.

Gonzalito ia dizer algo, mas Aramendía colocou a mão na sua coxa, sinal para aguardar, para dar tempo a Torté de se ajustar a um foco de pensamento compatível com o assunto que os levava ali. A nuvem de fumaça tornava o ar pesado para respirar e ardia nos olhos, um ingrediente a mais na sala para que o diálogo seguisse truncado e de difícil compreensão.

Torté mexeu as pálpebras e mirou-os, um por um.

“Mas não vamos nos descuidar das pequenas coisas”, disse, de súbito, como se tivesse finalmente acordado.

Mas foi só um pequeno rompante, depois disso se calou, e seus olhos quase se fechavam à medida que os segundos se adiantavam no tempo. Até que reabriu a boca, a voz retomando outra vez o peso sombrio da sonolência, num contraste com o conteúdo da frase.

“Não podemos desanimar agora. Todos quatro estavam lá. E só um fala em ladrão salvo. Porque acreditar nele e não nos outros?”

Entreolharam-se os três. Tiveram a impressão de que alguém gritava no lado de fora. A seguir, cães latiram nas vizinhas, seguidos de um alarido de gatos. Logo uma nova música começou vinda do palco vazio, e os sons externos, que já iam distantes, deixaram de ser percebidos.

Embora também relutasse para se manter em alerta, com dificuldades para alinhar o raciocínio sobre os versos tirados do livro de Cardenal, Antônio teve a impressão de que em algum lugar já tinha lido ou ouvido aquelas falas de Torté Navaja, em um teatro, em um banco de praça, embaixo de uma árvore, em uma estação rodoviária. Eram falas vagas, algo de desolação, falas que poderiam servir para abordar qualquer conversa sobre o vazio e o nada, ou sobre uma expectativa que acabou em frustração; de algo que podia ter resultado da travessia equivocada de uma pequena ponte, da dor de alguém que combinou um encontro e tem dificuldades para entender porque o outro não apareceu, não avisou e não voltou a aparecer nunca mais. Por que acreditar nele e não nos outros?,a pergunta ficou lhe martelando na cabeça, enquanto persistia a absurda mudez de Torté Navaja no outro lado da mesa.

Tailor Diniz tem 18 livros publicados, entre eles Em linha reta (Grua), semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura (2015), Crime na feira do livro (Dublinense), traduzido para o alemão e lançado na Feira de Frankfurt em 2013, e A superfície da sombra (Grua), traduzido na Bulgária e adaptado para o cinema em 2017.

Dedica-se também a roteiros de cinema e televisão, com prêmios nos festivais de Gramado e Brasília. Seu mais recente trabalho é como corroteirista da Série Chuteira preta [Dark Soccer], disponível em sistema de streaming na Amazon Prime.

Seu livro Noturno em Punta del Diablo foi finalista do 5o Prêmio Kindle de Literatura, 2020.

FICÇÃO

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