De ‘NOTÍCIAS DA GUERRA E O DESTINO DE LAURA’, de Vera Ione Molina

“Laura desce para abrir a porteira. Pisa no barro. O automóvel entra. Fecha a porteira. Volta para o Chevrolet, pensando como será bom entrar na casa fechada há meses, abrir as gavetas, os armários, as janelas. A mãe pergunta se ela falava alemão nas Franciscanas. Um pouco. Sabia nomes de comidas, as horas, como cumprimentar, pedir informações. Por que nunca se interessara?

A mãe a encara. Sabia que o francês era o idioma estudado em São Leopoldo. Supunha que Laura tivesse aprendido um pouco de alemão com as Irmãs e as colegas do Vale dos Sinos. Desvia o olhar: – Vamos encontrar uma pessoa. Ninguém deve saber que ele está no Brasil. É um alemão, tripulante do Graf Spee.

A cachorrada cerca o automóvel. Ovelheiros os cheiram. Latem. Os três entram para a saleta. Tomam mate sentados em frente à lareira, por força do hábito. Em lugar do fogo, a coleção de revistas La Chacra que Laura tanto gosta de folhear. Ela não deveria se aproximar do oficial. Só seria chamada se alguém precisasse falar com ele.

Vai guardar as roupas. O quarto dela fica entre o dos pais e o do hóspede. Através da musselina que cobre os vidros da porta, vê uma sombra alta, cigarro na mão. Passos na sala de jantar. Se apressa caminhando para o dormitório.

Uma janela abre para o capão de eucaliptos. A porta comunica com o corredor que dá acesso ao banheiro. As cortinas cobrem os vidros, estendidas entre dois arames presos à janela por pregos. Cheiram a pó. A cama é de ferro. O guarda-roupa tem três portas. Na porta do meio, um espelho oval onde se enxerga de corpo inteiro.

A penteadeira tem três espelhos presos um ao outro por dobradiças. Sobre ela, um conjunto de pente e escova. Nos cabos de prata, as iniciais gravadas.

Abre a janela. Os eucaliptos brilham, molhados.

À esquerda, uma espiral de fumaça sai do quarto do alemão.

Vai caminhar ao redor das casas. Gosta do cheiro de moringa que vem da terra, do barulho dos sapatos no pasto, do gado embaixo das árvores.

(…)

Vera Ione Molina é graduada em Letras (Língua Portuguesa, Língua Inglesa e respectivas literaturas) e pós-graduada em Teoria da Literatura (ambos na PUC-RS). Nos anos 90, ministrou oficinas literárias na Casa de Cultura Mário Quintana e no Centro Municipal de Cultura em Porto Alegre. Foi jurada do Prêmio Açorianos de Literatura, do Prêmio Histórias do Trabalho em 2003 e integrou a Academia do Prêmio Fato Literário, promovida pela RBS. Atualmente realiza trabalhos de revisão e leituras críticas em prosa de ficção. Publicou ensaios e artigos em diversos jornais e revistas do estado, com ênfase para Uruguaiana, sua terra natal. Além de fazer parte de inúmeras antologias, entre elas “O Livro das Mulheres, org. Charles Kiefer, Mercado Aberto, 1997), Concurso Binacional Moviarte 90 (Biblioteca Pública de Pelotas e Grupo Eslobon Cantando La Paz, Canelones, Uruguai), organizou várias coletâneas de prosa e poesia. Vera Ione Molina publicou, entre outros gêneros , os romances “Quarentena”(IEL/Alves Editora, 1994 e PROA, 2011. Em 2017, a novela Quarentena ganhou terceira edição e novo título: “Notícias da guerra e o destino de Laura”, pela Editora Bestiário, “O Outro Lado da Ponte”, (Prefeitura Municipal de Porto Alegre, 1997) e “Gemido da Morte sob a Sola dos Sapatos” (Editora Bestiário, 2016). E também os livros de contos “Outros Caminhos” (Mercado Aberto, 1996) e “O quarto amarelo” (Editora Bestiário, 2015) “Outra e Mais Outra e Mais Outras Vezes”, contos eróticos ilustrados por Roberto Schmitt-Prym (Editora Bestiário, 2016) e “Quanto Soam as Horas”, Contos Fantásticos (Editora Bestiário, 2016). Ainda teve o livro infantojuvenil “Eram duas vezes – Histórias da vovó”, ilustração Yuji Schmidt e “Catarina abre um caminho de magia – Histórias da Vovó”, ilustração Francisco Juska Filho, ambos pela Editora Bestiário, 2016 e 2017 respectivamente.

FICÇÃO

1 comentário Deixe um comentário

  1. Me sinto uma priveligiada por ter lido a primeira edição desse romance, quando se chamava Quarentena. Um lindo retrado do pampa, pintado com um fato histórico. Relatos ficcionados por quem viveu de perto. Parabéns.

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