De ‘O JOVEM ARSENE LUPIN E A DANÇA MACABRA’, de Simone Saueressig

3 – QUASÍMODO

Na manhã seguinte, Paris despertou com um estremecimento. “Despertou”, se é que a capital dormia. Aparentemente, nas sombras da cidade-luz, coisas macabras jamais descansavam.

A notícia que corria solta tornava o incrível quase concreto e dava contornos ainda mais sinistros ao misterioso vulto noticiado pelos jornais, dias antes. Da Porte Saint-Denis ao Parque Montsouris, das sombras do Bois de Boulogne aos passantes da Praça da Nação, todo mundo comentava à boca pequena, com infinitas variações, o episódio bizarro vivido por uma vendedora de uma das modernas galerias de departamento, ao voltar para casa tarde da noite, após algumas horas divertidas em um teatro. A mulher, chamada Philipa, andava com uma vizinha sua, então, desta vez, não era apenas o relato de um passante qualquer, mas a palavra de duas trabalhadoras de Paris.

A história era de arrepiar: elas tinham acabado de descer de uma carruagem alugada, próximo de onde viviam, e estavam atravessando o Jardim dos Grandes Exploradores, quando viram um homem mais à frente, andando com muito esforço, puxando uma perna e exibindo uma corcunda gigantesca. O sujeito parecia buscar, sempre, as sombras das árvores do passeio, como se quisesse ocultar-se. Philipa puxou a amiga para trás de um dos troncos mais robustos, junto à cerca baixa que circundava o parque, a fim de que não fossem vistas pelo sujeito. Ali, escondidas, o observaram parar em frente a um dos banheiros públicos. Depois, tirou das costas o volume que elas até então tinham achado ser a corcunda e o jogou no chão com um palavrão. Ato contínuo, agarrou o conteúdo do volume e o dobrou, forçando-o com o peso do seu corpo. A vendedora jurava ter ouvido um estalar de ossos, mas sua companheira não o confirmava, porque, a essa altura, estava tão assustada que não conseguia mais “distinguir o Céu da Terra”, de acordo com o seu depoimento. Finalmente, o homem endireitou-se. Ouviram um ruído áspero e agudo, como o de um portão de ferro se abrindo, e então… o homem desapareceu como se o chão o tragasse. Um segundo mais tarde, o volume sumiu da mesma maneira.

Curiosa, Philipa aproximou-se sempre à sombra das árvores, atravessando o portão de acesso ao parque, que se encontrava inesperadamente aberto. Súbito, seu pé tocou em algo, e ela abaixou-se para ver o que era. De início, pensou que poderia ser um galho de árvore caído e o agarrou, com o intuito de defender-se, caso o homem voltasse. A coisa era fria e pegajosa, o que lhe despertou um alarme interno. Ao voltar-se para a luz distante da luminária pública, olhou o que tinha em mãos.

Então… o horror!

Philipa segurava os ossos de um antebraço humano, do cotovelo até os dedos, que se moviam insanamente com o movimento que ela fazia.

A mulher largou os ossos com um grito e tentou fugir, mas encontrou o homem, que voltara para recolher o pedaço faltante à sua terrível carga. Ele avançou para ela, um vulto grande contra a luz da rua, murmurando palavras que Philipa não entendeu. Na cabeça estranha, um único olho brilhante fixo, e esticava as mãos na direção do seu pescoço. A mulher gritou outra vez.

Ao longe, ouviu o apito de um guarda. Então correu, saindo por onde entrara, sem olhar para os lados, e por pouco não foi atropelada por uma pequena charrete que passava na avenida. Naquele momento, esquecera a amiga, esquecera si mesma, esquecera o mundo, presa do medo e do olhar do “monstro louco”, conforme suas próprias palavras.

Mais tarde, na presença de um policial, a companheira de Philipa confirmou toda a história — menos a parte em que o homem tinha voltado para matá-la. Afirmou que não viu nada disso, mas também é verdade que a encontraram abaixada atrás da árvore em que tinham se escondido, desfiando uma ave-maria atrás da outra.

Uma busca imediatamente organizada pela polícia, contudo, não encontrou ninguém: nem o homem, nem o fardo, tampouco os ossos que a mulher, ainda trêmula, afirmava ter segurado nas mãos. Haviam desaparecido como fumaça, em plena avenida.

(…)


Sobre o livro

“O jovem Arsène Lupin e a Dança Macabra” surgiu graças a um convite que Artur Vecchi me fez. Sou leitora do personagem de Maurice Leblanc desde a adolescência, e foi uma alegria muito grande poder mergulhar no universo parisiense do final do século XIX. Além disso, é uma forma de retribuir o que a família Vecchi fez pela minha formação como leitora, já que a casa editorial homônima era a responsável pela edição dos livros no Brasil, na segunda metade do século XX. Passei horas divertidas – claro que é a minha ideia de diversão… – “caçando” os volumes antigos nos sebos de Porto Alegre, e outras ainda mais animadas lendo as aventuras do Ladrão de Casaca. A ideia é escrever livros que enfoquem as aventuras de Arsène Lupin no período que vai aproximadamente dos 12 anos, quando ele fica órfão, aos 18 ou 19, quando aplica o seu primeiro golpe – e se estrepa vergonhosamente. É este hiato temporal que pretendemos explorar na série “O jovem Arsène Lupin”. Um desafio, porque o personagem tem vida literária própria. Mas um desafio divertido, que já me “levou” a viajar por uma Paris simplesmente incrível, que não existe mais: o período que dá início à belle époque, e que só é acessível através da arte.

Simone Sauressig nasceu em Campo Bom (RS), em 1964. Estreou na Literatura em 1987. Tem vários títulos publicados dentro do gênero do Fantástico como “A Noite da Grande Magia Branca” (2007), “A Estrela de Iemanjá” (2009), “A Máquina Fantabulástica” (1997), e o livro de contos “Contos do Sul” (2012) bem como a saga “Os Sóis da América” (2013-2014). Participou de diferentes antologias, como “Duplo Fantasia Heroica 3” (2012), “Autores Fantásticos” (2012) e “Ficção de Polpa: Aventura!” (2012). 

FICÇÃO

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