De ‘PAREDES DE BARRO’, de Nei Duclós

EXAGERO

Vamos morrendo um a um
Tanto o próximo quanto o ausente
Todos nos fazem falta

Não temos mais o que dizer
Força, meus sentimentos
Vai passar, nada melhor que o tempo
Falamos sem certezas
A não ser a proximidade da morte
Que estava longe e hoje invade o bairro

Ir às compras é temerário
Não há mais funerais; velórios
A não ser as tumbas, as cinzas, as orações sem despedidas
Cartas de suicídio, depressão
A não ser a lua que se soma
Às nossas necessidades de beleza

Venha musa, amiga, princesa
Cubra o mundo com teu manto puro
Diga que me vê
E aos meus semelhantes
E diversos seres humanos
Junto aos animais e as plantas
Vida é o que devemos
Vida. E seu exagero

BARCA NO OCEANO

Nenhuma alma imortal foi soprada
neste material de pântano
A Criação se retirou quando fecharam a porta
e as janelas que davam para o Paraíso enlutaram
com o desfile invisível de corpos

O que foi feito de nós, criaturas de lodo
que um dia transcenderam pela dor
sua origem suspeita?
É cedo para o Apocalipse, flor sinistra
da profecia. Subornamos o anjo
para que não anuncie
mas ele traiu o acordo e hoje nos atormenta
com sua rouquidão de funérea roupa

Uma hora será a vez de ganhar o mundo
para ver o estrago. O poema prepara
esse momento. Recito para as pombas
que trará o ramo até a esta barca
à deriva no espesso oceano

PAREDES DE BARRO

Confino o momento em paredes de barro
Cozido em fornos de granito e aço
Sinto que é dia, vejo pela janela
Lá fora a manhã, aqui dentro o cansaço

Espero sair sem ter mais cuidados
Os bancos da praça, as praias lotadas
Ficar de castigo quando há tanta vida
Qual foi o crime, guardião dos pecados?

Não finjo inocência, sou fruto do tempo
Mas há uma parcela de humano convívio
Que me dá o direito de ser perdoado

Desenho a paisagem que me absorve
É o poema, esse acervo da sorte
Sossego de outono sem a primavera

ESTRANHO

Perdemos este outono
Que transcorre fechado
Sem nosso transtorno
Sem passeio ou festa
Sabemos apenas que as flores
Continuam ativas sem noção do que passamos
E as frutas tombam sob o céu azul

Perdemos o rumo, o namoro
Ficamos em celas e sítios
E conversamos sem a rede de segurança
Que trapezistas providenciam para não haver drama

Padecemos do medo neste abril estranho
Que de costas para nós avança o calendário

CASAS ANTIGAS

Essas casas antigas que envelhecem conosco
E que não podem ser vendidas
Porque somos parte delas como um osso
Esses quintais sem cuidados
pois já não somos moços
E custamos a abrir a porta cheia de ferrolhos

Não saímos aos domingos porque não há mais calendário
E os dias se sucedem sem visitantes ou sonhos
Sentados esperamos o café ficar pronto
E nos gritam da rua que algo está queimando
É apenas a memória, respondo para a lua
Que nos olha vermelha cobrindo o horizonte

E o tempo vem conversar cansado na varanda
Pergunta se vai chover pois ele também está velho
E dizemos talvez passe alguma nuvem
E nos leve para sempre como se fôssemos crianças
A viver de novo, só que em outro corpo

Nei Carvalho Duclós (Uruguaiana, 29 de outubro de 1948) é um jornalista, poeta e escritor brasileiro. Tem 17 livros (entre ebooks e impressos) lançados de crônicas, contos, poesias, romance e ensaios. Além de inúmeros textos publicados na imprensa brasileira, sites e blogs e redes sociais. Citações em vários trabalhos acadêmicos, de graduação, mestrado e doutorado. Poemas e contos traduzidos para o italiano pela revista virtual Sagarana, editada em Lucca, e poemas traduzidos para o inglês para a revista Rattapallax, editada em Nova York.

POESIA

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