De ‘POEMAS SOLITARIOS’ e ‘POEMAS MISTICOS’ (Ricardo Guiraldes), por Lucio Carvalho

Eu já me perdi de mim mesmo.

Às vezes, tomo as lembranças entre as mãos, com carinho, e busco a infância distante, onde ficaram minha fé e minha força. Eu as vejo ainda lá, detrás de uma intransponível transparência no tempo mostrando com desprezo minha impropriedade de agora e mais admiro a chama tremeluzente de sua firmeza.

Perdi-me de mim mesmo quando mais fundo me busquei, como se a força de viver houvesse morrido.

Levo meus braços a frente e o que há é um sem fim. Como alcançar?

Espero.

Uma voz maior me dirá: Vem!

E, a partir daí, caminharei com tudo revelado, de joelhos, num campo de feridas, carregando na garganta o travo da vitória.

O fim dessa dor será antecipado pela foice dos meus passos, como uma saudação do trigo ante a segadora.

Perdi-me de mim mesmo e espero.

Senhor, eu tenho os braços estendidos…

O homem sofre a sua vergonha na minha carne.

As palavras hostis e as ofensas me parecem a verdadeira fortuna.

A culpa de cada um é de nós todos. Por que não sofrê-la? Preciso aprender:
a resistência à dor que tuas mãos me impõem;
serenidade intransponível ante a quem me ultraja.

E, melhor que julgar aos demais, limpar-me das próprias imundícies.

Se tenho ao alto as mãos, quanto mais baixo meu gesto aconteça, que ele então seja esquecido.


Fe

Me he perdido a mí mismo.

A veces tomo entre mis manos los recuerdos con cariño y busco largamente mi infancia, mi fe y mi fuerza. Las veo allá, detrás de una infranqueable transparencia de años, señalando con desprecio mi actual desvío y admiro su firmeza de brújula.

Me he perdido a mí mismo cuando más hondo me buscaba, como si a fuerza de vivir hubiese muerto.

Tiendo adelante mis brazos y todo es adelante ¿Cómo saber?

Espero. Una voz más grande me dirá: ¡Ven

Y desde entonces caminaré con la vista de mi frente abierta, de rodillas, en un campo de heridas, llevando en la garganta el trago de la victoria.

Y una cesación de dolores precederá la hoz de mi paso con salutación de trigo unísono ante la segadora.

Me he perdido a mí mismo y espero.

Señor, yo tiendo arriba los brazos.

El hombre sufre su vergüenza en mi carne.

Las palabras de hostilidad y de daño me parecen dichas en complicidad conmigo.

La culpa de cada uno es de nosotros todos. ¿Por qué no sufrirla? Tengo que aprender:

Resistencia a los dolores que tu mano me impone.

Serenidad invencible ante lo que me ultraja.

Y, más bien que juzgar a los otros, limpiarme de mis propias inmundicias.

Si tiendo arriba las manos, cuanto bajo mi gesto suceda, debe ser olvidado.

Os rostos são inexpressivos

Os rostos são inexpressivos.
O riso, o pranto, são de um a um e não de alguém a niguém.
Quanto tempo ante ao pampa desolado!
Com quem rir? Por quem chorar?
O silêncio nos lábios é tão habitual, que a palavra consoladora de nada serviria.
Somente ante a si mesmo o homem pensa e sua expressão transborda introspecção.
Rugas não virão senão como marcas do tempo.
E idades há apenas três:
A idade em que tudo o que se diz é: eu ainda não posso. A idade em que se pode sem dizer. A idade em que se diz: não posso mais.
Mas é na maturidade que se unificam a alegria de ter chegado já e o pressentimento da decadência.
Não protestamos porque para nós tudo é aceitação.


Los rostros son inexpresivos

Los rostros son inexpresivos.
La risa, el llanto, son de hombre a hombre no de hombre a desierto.
II cuántas horas ante la tierra desnuda!
¿Con quién reír? ¿A quién llorar?
El silencio de los labios es tan habitual, que la palabra descansadora no los ha ablandado.
Solo ante sí mismo el hombre piensa y sus facciones expresan atención interior.
Arrugas no vendrán sino como tarjas del tiempo.
I edades no hay más que tres:
La edad en que se dice: todavía no puedo. La edad en que se puede sin decir. La edad en que se dice: ya no puedo.
Pero en la edad de los hechos se une el goce de haber llegado a la tristeza de sentir el descenso.
No protestamos porque para nosotros todo es aceptación.

Acostumei-me a estar só

Acostumei-me a estar só, como o ombú foi acostumado à pampa.
Minha alma é uma esfera observando o próprio centro de sua força.
Para caminhar pela vida, mantenho-me nas pernas da vontade e da coragem.
A noção de minha própria existência me impede de desabar.
Viver é a obrigação a ser mantida.
Ignoro a covardia quando digo-me “eu devo”.


Me he acostumbrado a estar solo

Me he acostumbrado a estar solo, como el ombú se ha acostumbrado a la pampa.
Mi alma es una esfera mirando su centro que es vigor.
Para caminar por la vida, sé sostenerme sobre las piernas de mi voluntad y mi coraje.
La noción de mi propia existencia me impide caer.
La vida es una obligación que mantener.
Ignoro la cobardía cuando me he dicho: «DEBO».

Infinito

Meu Deus… Escrevo sob a tua proteção.
Por minha boca infantil reduz-se o amor pelas coisas que há em ti, sem diminuí-lo.
Tua palavra se simplifica, e eu de ti me enalteço.
Insignificante, sofro por me exceder e minha alma anda pela sentença como um cego cheio de luz.
Dá-me a tua lei para que cresça até merecer mencionar-te.


Infinito

Mi Dios bajo tu amparo escribo.
Por mi boca tan chica se empequeñece tu amor por las cosas que están en ti sin dismuirte.
Tu palabra em mí se reduce, y yo de ti me agrando.
Pobre cosa tuya sufro de sobrarme a mi mismo y mi alma camina en la frase como um ciego lleno de luz.
Dame tu ley para que asi crezca hasta merecer nombrarte.

19

Tudo cresceu muito na solidão.
O poente une o mundo com as estrelas.
O céu foi dormir.
E um homem que canta desliza a alma pelas encostas das montanhas rumo à imobilidade.
Pequena antena de carne alucinada do impossível, aguardo na tensão de todos os meus anseios que algo grande como um Deus me eleve
[à harmonia universal.


19

Todo se ha agrandado en la soledad.
El crepúsculo hermana al mundo con los astros.
El cielo se ha dormido.
I un hombre que canta, desliza su alma por la falda de las montañas hacia la
[quietud inamovible.
Pequeña antena de carne alucinada de imposible, espero en la tensión de todos
[mis anhelos que algo grande como un Dios me eleve a la armonía
[universal.

Lucio Carvalho é editor da Sepé – revista de literatura.

POESIA

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