De ‘POR CAUSA DO VENTO NO BOSQUE’, de Myrian Beck

Tu serás sempre o menino encantador que sonhava com o campo de semente. Na estranha tarde em que morreste, depois de todos os limites entre dores e morfina, depois dos dias de esperança (nós e o beija-flor visitante), e madrugadas em vigília (nós e as corujas da esquina), naquela tarde colorida e fria voltei para casa desejando teu perfume enquanto andava pelas ruas.

Abri a porta do armário para buscar entre as roupas o precioso cheiro levemente adocicado do homem que eu amava. Mas estava tudo organizado, limpo e enxaguado com amaciante… preciso dizer o que senti com mais essa ausência tua? Lembrei da camiseta preta que me entregaram na saída do hospital e enfiei na bolsa! Puxei lá do fundo a malha, retalhada à tesoura e bisturi minutos antes do teu coração parar. Nela mergulhei meu rosto. A dor transbordando aos solavancos da alma pela garganta, então me fui de joelhos no parquet e chorei tanto….

…lembrei das nossas conversas no hospital… falavas do teu amor por uma gringa crespa louca, a gente ria porque era meio verdade meio mentira, e em sonhos misturavas tudo com lugares e pessoas da infância… no derradeiro instante, no inconcebível instante em que partias, a situação ficou parecida com aqueles tumultos de estádio de futebol: Havia gritos de mando, uns da equipe se empurrando…e quanto mais a gente se buscava mais a gente se afastava, um do outro, na confusão mortal: Pressão, batimentos, o senhor não pode tirar a máscara, adrenalina, DEIXA ELE EM PAZ!

A verdade se impôs. Com fúria. Com rapidez. Depois as coisas acabaram retornando aos seus lugares, feito a cena do ciclone no filme O Mágico de Oz. Somente tu não estarias mais. Ainda bem que trocamos nossos olhares. Foram muitos. E dos bons.

A gente sempre teve uma capacidade de galhofa na tragédia e era admirável como mantinhas teu senso de humor, tua fidalguia. Uma noite, porém, rompeste a densidade do silêncio com uma fala que estava fora da ordem do mundo.  Eu folheava uma revista qualquer. Às vezes espiava a lua enorme, ali, tão junto… O céu inteiro mais perto do que nunca… O pessoal da limpeza passava rodos com produtos desinfetantes. De repente, acentuou-se um refinado aroma de pinho, e então disseste, tão claro como a claridade do diamante:

– Gringa… o meu óbito… foi por causa do vento no bosque.

Ainda repetiste um fragmento da frase quando saltei da cadeira. Poucos dias antes havias feito um passeio entre as árvores do jardim na companhia do enfermeiro; ele mesmo me contara a travessura. Cheguei bem perto do leito:

– Em que parte do futuro andas? Por isto já não te queixas das dores da amputação? É uma delicadeza amorosa retornares do amanhã para dar explicações.

Preciso falar o que senti com o tamanho da tua revelação? De um jeito que só os amores mais antigos podem ter, acariciei teu corpo perfeito sob os alvos lençóis, brancos… sorri por nós dois ao pensar que haviam sido boêmios, e cheios de falsos pecados, os santos que rompem caminhos na curva do espaço-tempo.

Um dia parece que a gente perdeu tudo. E respirar significa um gesto de autocompaixão. Neste dia, a gente caminha pelas ruas da cidade (a camiseta do adeus feito véu de viúva na cabeça) e compreende que a solidão é sacrossanta. A gente senta no gramado do parque Moinhos e funde o corpo ao espetáculo invisível dos finais de tarde, em Porto Alegre: Uma folha, antes verde e presa ao galho foi tingida em cores quentes, alaranjado, vermelho, libertando-se do plátano. Fez do seu último instante um bailado corrupio, pousando gentilmente na minha mão. Pensei em retê-la. Queria retribuir-lhe o toque. Contudo, tive medo de destruir a forma. Por isso ficamos pouco. O quanto deu. De mãos dadas. A árvore e eu.

Menino livre no campo de semente… Se queres falar comigo, agora que estás despido de ti mesmo, fala-me com ternura a respeito do infinito: Haverá um estado puro de ser, pelo qual o sofrimento valha à pena? Haverá reencontros amorosos no mundo da antimatéria?

Myrian Beck foi ghost writer por mais de duas décadas, produzindo discursos, relatórios, palestras e artigos jornalísticas. Myrian Beck é formada em Filosofia pela PUC/RS, com especialização em Axiologia, e servidora concursada do Senado da República. Participou da Antologia de Poetas Contemporâneos do Rio Grande do Sul e por alguns anos publicou semanalmente contos no site Via Política, livre informação e cultura. Myrian fez da escrita um oficio que a projetou na área de comunicação no meio político e que a consagra no meio literário, como contista e poeta.

FICÇÃO

7 comentários Deixe um comentário

  1. Não me canso de ler e reler este conto que dá nome ao livro! E toda vez me vem um nó na garganta, ao descobrir novas nuances no texto, que é puro sentimento, intensidade, afeto, paixão, dor… simplesmente perfeito!

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  2. Cada um carrega no coração o luto de uma forma diferente. Surpreende a forma densa e ao mesmo tempo leve com que a escritora descreve a despedida e seus sentimentos. Não tem como não se emocionar. Parabéns e sucesso sempre!! Virei fã!!

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  3. Sensibilidade, densidade, talento, sentimento, dor, amor! São tantas sensações e emoções em uma leitura. Obrigada por nos presentear com essa obra, Myrian!

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