De ‘ROUPAS SUJAS’, de Leonardo Brasiliense

Nos fundos da casa, ficavam os tanques: um de lavar roupas e o tacho de polenta e outro para lavar os pés na volta da roça – no inverno, lavar os pés era o banho do dia a dia; o completo, só no sábado. Atrás dos tanques, eram os dois banheiros, tudo de tábua, as paredes e os assentos. Mais atrás, a horta, para lá do poço.

Geni, por ser a mais velha, cuidava da horta e da cozinha. Maria Francesca lavava a roupa. Quando a mãe era viva: ela cozinhava, Geni lavava a roupa e Maria Francesca nos vigiava. Com a morte da mãe, todos ascenderam nas funções, e ninguém estava preparado.

O natural seria que a primeira filha casasse antes e fosse embora, a mãe continuando viva na cozinha. Mas tudo estava errado em nossa casa. E o pai, talvez pela fraqueza que a desarmonia lhe deu, consentiu o casamento de Maria Francesca. Aquele João Wagner era um rapaz bom, ninguém diria o contrário. Pena ele ter escolhido a noiva errada. Mais uma coisa fora do lugar. Tínhamos que ser fortes. Principalmente Geni, com o sentimento de ter sido preterida pela sorte. E de certa forma, Valentina, que em breve passaria a lavar a roupa.

Quem não se afetava com qualquer mudança era a dupla de irmãos homens, que na idade – dezenove anos – ficavam entre Geni e Maria Francesca.

Estevam e Ferrucio, gêmeos, subiam com o pai toda manhã para a roça, voltavam ao meio-dia, comiam mais que nós outros todos juntos, em seguida era a roça de novo enquanto houvesse um raio de sol. Muitas vezes, à tarde, subiam sozinhos, o pai costumava ir ao distrito fazer negócios. Estevam e Ferrucio não falavam muito.[1] Eram iguais em quase tudo: magros e altos, o cabelo quase ruivo penteado para o lado direito. Mas Ferrucio não tinha uma orelha, perdeu quando criança numa brincadeira boba com facas – eu não gostava de olhar para o buraco.

Para os gêmeos, mudar a cozinheira dava no mesmo: de qualquer modo não seria mais a mãe.

A questão era ainda a morte da mãe. A saída de Maria Francesca nos soava como um eco. Mais uma deixando a família, que encolhia, ficava menos família. O que seria de nós?, todos deviam perguntar cada um para si, nunca em voz alta.

Exceto Valentina e eu, que comentávamos tudo entre nós…

– Onde é que ela vai morar? – eu perguntei.

– Acho que longe. Ontem ouvi ela dizendo para Geni que vai para bem longe, que não volta mais.

– Isso é certo?

Valentina era nova demais para me responder. Mas nós dois sabíamos, tanto quanto os adultos, que nossa vida estava mudando.

E que estava tudo errado.

[1] Os gêmeos tinham uma percepção diferente das coisas. A roça era em cima do morro (plantavam feijão e milho), e do outro lado se estendia um vale. Para eles, o pôr do sol se dava no horizonte ao fim do vale, mais tardio e mais distante que para os outros irmãos, que o viam logo ali atrás do morro.

Trecho de “Roupas Sujas”


Roupas sujas
Companhia das Letras, São Paulo, 2017, 184 pág, romance

Por meio de uma prosa cortante, que toma emprestados o vigor e a austeridade do ambiente doméstico rural do Sul do Brasil, o romance tem na ausência a matéria-prima para o desenrolar de um drama a um só tempo particular e universal. Tão importante quanto aquilo que se diz é o que não se chega a pronunciar, e uma palavra represada na boca do filho temeroso ou do pai taciturno prenuncia a irrupção de segredos que podem ser guardados, mas não extintos.

Leonardo Brasiliense, nascido em São Gabriel/RS, em 1972, formou-se em Medicina na Universidade Federal de Santa Maria e atualmente trabalha na Receita Federal.

É autor dos livros O desejo da Psicanálise(teoria psicanalítica, Sulina, 1999), Meu sonho acaba tarde(contos, WS Editor, 2000), Desatino(contos, Sulina, 2002), Adeus conto de fadas (minicontos juvenis, 7 Letras, 2006, prêmios Jabuti e Açorianos e selecionado para o PNBE 2009 e 2013), Olhos de morcego (contos, 7 Letras, 2007), Whatever (novela juvenil, Artes e Ofícios, 2009, selecionado para o PNBE 2011), Três dúvidas (novelas, Companhia das Letras, 2010, Prêmio Jabuti), Sofia e Mônica (novela juvenil, Edelbra, 2014), Corpos sem pressa (minicontos, Casa Verde, 2014, finalista do prêmio Açorianos), Decapitados (novela, Saraiva/Benvirá, 2014), Roupas sujas (romance, Companhia das Letras, 2017, Prêmio Minuano e finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo) e Eu vou matar Maximillian Sheldon (contos, Coralina, 2019).

Trabalha também com roteiro de cinema e TV e se dedica à fotografia (ver leonardobrasiliense.blogspot.com).

FICÇÃO

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