De ‘TERESAS DE ITAPUÃ’, por Gabriela Coral

Naquela madrugada, às três horas, Ana mandou me chamar. Com o sono pesado, demorei alguns minutos para entender o barulho, era uma das freiras batendo à minha porta. Abri um tanto irritada, estava frio e úmido, não queria sair da cama, mas era a primeira vez em anos que me acordavam daquela maneira. Imaginei a urgência. Ana estava implorando minha presença.

-Assim, no meio da noite? – questionei.

A freira assentiu. Suspirei fundo e disse:

-Já estou indo.

Quando saí, recebi o vento gelado. Visualizei a noite límpida e tranquila. O frio me despertou. Caminhei pelas ruas desertas do leprosário, onde cada passo construía minha história de vida. Era como se o hospital colônia me pertencesse, uma parte indispensável, um órgão novo em meu corpo.

Na claridade daquela noite de lua cheia, era quase possível enxergar um fio nos unindo em uma gigante teia de dias e noites. Tínhamos nossos dramas individuais, nossas profissões, uns ousavam ser felizes, a maioria sofria, os homens tinham o futebol, as freiras, a fé. Felipe tinha uma missão e eu, uma compaixão por todos. Isso me movia a visitar a amiga desesperada pela ausência da filha.

Eu também sentia falta daquela criança, tentei salvá-la do abandono e infelizmente falhei, mas meu sofrimento não se igualava ao de Ana. O dela era físico. Como a dor de uma perna amputada. A sensação da presença de um membro inexistente. Um membro fantasma. Entrei no quarto com uma porção extra de amor no olhar. Ela me esperava de pé, tinha certeza, eu atenderia a seu chamado. Nos abraçamos. Ela, um pouco mais baixa e imensamente mais magra e frágil, acomodou seu rosto em meu peito. Não houve palavra, tampouco choro, somente aquele momento mágico de acolhimento.

Gabrilea Coral é formada em Medicina em 1996, especialista em Gastroenterologia e Hepatologia, com doutorado em São Paulo na USP, Gabriela Coral publicou contos na Antologia de contos 2, oficina de criação literária de Sérgio Côrtes, Alquimia da Palavra, 1992. Um dia, ouviu de uma paciente sobre o Hospital Colônia Itapuã: – Eu fui muito feliz lá dentro. “Olhava para ela incrédula e esta frase foi o que me moveu a escrever a narrativa”. Assim, pesquisou, dedicou-se e construiu o romance, Teresas de Itapuã. Gabriela Coral nasceu em Porto Alegre/RS em 26 de maio de 1972.

FICÇÃO

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