De ‘TODO ABISMO É NAVEGÁVEL A BARQUINHOS DE PAPEL’, de Davi Koteck

ato falho

há um erro de digitação
falha frequente nos cartórios da cidade
se alguém me chamar por outro nome
talvez aconteça caminhar ao contrário

existe algo explodindo
da cabeça para dentro
pequenos impulsos forçam
o portão de entrada da festa
do meu inconsciente

2.
quero gritar socorro na língua dos sinais
ser poeta apenas longe dos outros poetas
eu faria qualquer coisa para mastigar o tédio
eu faria qualquer coisa para ativar o ódio
talvez acabe este poema não fazendo nada
talvez eu mande a merda a poesia contemporânea

talvez ela me mande também

3.
no dia em que fui embora
me doía os olhos
meu corpo parecia carregar
o de outra pessoa
quase liguei para velhos amigos
deu saudade de não
ter medo de enlouquecer
de quando não entendo
o significado da culpa às cinco e vinte da madrugada
quando não precisava tragar os cigarros hoje
quando o amanhã era outra parte

4.

gosto quando você se esconde
nas dedicatórias dos livros usados
nos cigarros acesos ao contrário
em bares sem alvará de localização
em Porto Alegre nos períodos sabáticos
no desenho do oceano nos mapas
nos táxis laranjas abandonados
atrás dessas pequenas dobras
que estão exatamente
onde não deveriam estar

5.

na minha casa há um isqueiro branco
que serve para acender a chama
quando estala o gás
na boca do fogão
é um isqueiro velho
e já acendeu o cigarro que o Bob Dylan
fumou no Bom Fim
é um isqueiro encardido
em que o código de barras está atravessado
pelo risco de uma unha
portanto não há validade
nas máquinas registradoras
com ele já pus fogo
em fotos documentos papéis encardidos
queimei a ponta deste caderno
talvez não sobreviva
a outros estalos

Davi Koteck nasceu em Porto Alegre (RS) em 1995. Publicou o livro O que acontece no escuro (Editora Taverna), e participou da antologia Qualquer Ontem (Editora Bestiário). Tem contos e poemas publicados na São Paulo ReviewRuído ManifestoEtudes LusophonesRevista Travessa em Três Tempos, Mallarmargens e outros. Edita a Revista RusgaTodo abismo é navegável a barquinhos de papel é sua estreia na poesia.

POESIA

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