ELEGIAS ESCRITAS NA PANDEMIA, por José Eduardo Degrazia

1 ELEGIA DOS DEUSES DO MAR

Os deuses que se fizeram silentes adormecidos no mar,
eles, que sempre foram embuçados no mais alto etéreo,
e sempre estiveram escondidos nesses abismos,
os que nunca ouviram as lamentações dos simples, das viúvas,
das mulheres abandonadas depois da primeira noite de amor,
agora querem que toda a nossa atenção se volte para a visão,
porque sabem, se nós não os olharmos e entendermos,
morrerão instantaneamente, para sempre, eternamente.
O mar parece indiferente às nossas súplicas a um deus desencontrado,
o vento continua a soprar o seu espanto sobre a areia e sobre o vago,
ó o orgulho dos deuses que não tiveram a coragem de morrer
enquanto era tempo e permanecem como sombras de si mesmos,
inconsoláveis de um tempo deserdado de toda a magia
onde eram seres serenos e indestrutíveis dentro da Natureza,
onde cada árvore possuía uma alma, cada fonte tinha a sua ninfa,
e nós homens andávamos carregados pelo peso da deidade
que zombava do tempo, do poder, da riqueza da cidade.
As altas vozes me procuram enquanto caminho à beira do mar
como se uma elegia se produzisse do espanto de estar vivo
e solitário onde lentamente os deuses antigos naufragaram.
Só sobraram os lamentos desses deuses repercutindo
insistentemente nas ondas que se quebram no vazio.

2 ELEGIA DA IDADE PASSAGEIRA

Depois de todas as idades terem passado
ainda terão notícias de nós os deuses esquecidos?
E tu, mulher, cujo amor preencheu as noites de estrelas
no quarto doce e fechado aos ventos do inverno,
terás notícia do passado que corria em nossas veias
num rumoroso rio noturno e vago?
Faz silêncio sobre os córregos carregados de essências,
os homens e os animais estão dormindo profundamente
nos lagares e nas pradarias infinitas –
não é hora para lembrar o futuro ou deixar
a pitonisa prever o passado onde o fogo ardeu
na cidade antiga à beira do lago.
Não a solidão, mas o que fica do amor no mais íntimo
onde a palavra e a poesia têm morada –
ali está a luz que permaneceu acesa desde os antepassados
e que ainda teima em brilhar e não se apaga nos ossos
ao sopro do tempo imóvel e pesado feito lume de lareira.
Não dizer do não permanente, mas cantar a canção
fugidia, a música, e o vinho que um dia alegraram a vida,
o seu cortejo de rosas púrpuras nos escuros arrabaldes.
Não dizer da dor e do sentimento da partida,
mas lembrar o perfume que ficou nos lençóis da casa,
a mulher acontecida.
Assim parte o barco do porto rodeado de gaivotas
para encontrar outras águas, outro sal, concha marinha,
outro cais onde baixar a âncora do sonho e do desejo.

3 ELEGIA À FADIGA DOS METAIS

Se alguém tocasse uma nota no violino do outono
e as folhas das árvores começassem a cair
numa dança secreta de amor e morte –
enfim, aceitarias?
Se alguém abrisse a cortina e cantasse para uma plateia vazia,
e as vidraças do teatro trincassem ao poder da voz,
enfim, compreenderias?

Não terias nada além do tempo como alimento secreto da alma,
deixando as estrelas entrarem pela janela
e se depositarem nos móveis, na cama
onde a amante dorme estremecida –
nada seria como antes, no momento do amadurecimento das flores,
nada teria a importância que teve naquele dia a infância
e a água do regato translúcido a correr, a correr
sempre desde o seu nascer desconhecido
até o final, a foz além dos morros, a névoa.
Escurece sobre a cidade e as luzes da rua acendem
para iluminar a ascensão do sonho já perdido.

Ó mutação das coisas, mundo em eterno movimento,
coração e sangue das palavras nunca pronunciadas!
Da revolução dos astros infinitos ao ser passageiro
das coisas, o que no teu íntimo te arrebata?
Pulsa uma verdade ainda entre as ruínas?

A noção do tempo te comprime e te exila da nação dos homens
onde pensavas viver no conforto dos dias mornos e iguais,
junto aos rostos sem expressão, a solene fadiga dos metais!
Subitamente a porcelana trinca e tudo é coração,
a oração de quem, descrente, inventa a transcendência que retrata.

4 ELEGIA À MOEDA DESPRENDIDA

Agora que parece entardecer toda a sabedoria
e o amor é uma carta amarelada entre duas páginas de poemas –
eu me pergunto – onde a razão e o tempo da vindima,
onde ficou toda a paixão e o rumor do sangue
nas artérias escuras das cidades perdidas?
A vida não se faz perguntas, mas dedica respostas
aos que a trilharam com amor e ilusão os melhores dias.
Nada fica, tudo passa, é a avidez e a avareza do tempo
que tudo pede e pouco dá em troca,
até receber a última moeda no rio que leva ao outro lado,
à margem onde só o barqueiro sabe de ida e volta.

Estar aqui e agora e respirar o perfume que vem do rio, ao entardecer,
em grandes haustos a essência que ficou das noites cristalinas,
gastar as moedas do sol e da lua e das estrelas
sem fazer poupança do milagre da existência,
alguém que todos os dias compra flores para a amada inexistente
e as arruma em vaso de vidro colorido e frágil sabendo-as inúteis
mas irresistivelmente absolutas.

Não temer a passagem do tempo e da vinda da noite,
quem ama a vida sempre terá passaporte para atravessar
a linha divisória entre tudo o que é o nada que será.
Ninguém voltou com carta de alforria do lado de lá,
viver é a única incerteza que nos permite sonhar.

Não sonegues o óbolo ao barqueiro quando chegar a hora da partida,
pode ser que ele seja apenas o parteiro de uma nova lida.
Pague o que é devido na aduana mais certa e mais antiga,
ou cairás na malha fina da rede que te deixará suspenso
no espaço da despedida – no limbo da desmedida.

5 ELEGIA AO TEMPO CÍCLICO

Saber quando o ciclo termina e outro recomeça, ou sempre o mesmo
retorna ao início de tudo e se transforma no que foi e é,
será por si só sabedoria?
Ou deixar que as estações penetrem uma na outra sem pensar nos limites
das mudanças onde a terra habita o mais profundo dos mitos
isso seria o conhecimento das ordenações celestiais?
Assim a flor nasce, murcha e cai na terra que um dia a embalou
em botão, e agora ainda a continua acalentar no berço da morte?
Ser é saber desse o início a mão que sustenta o voo no ar,
o caminho do peixe nas águas abissais, o perfume que em forma
de canção sai de todas as rosas e se dilata através dos campos e montanhas,
o ser em consonância com o tempo, a ânsia da maré subindo
pelos cômoros e cômodos da alma.
Não pergunteis ao tempo se ele faz a sua conta conforme
a medida do homem –
o tempo não se conforma em nenhuma curvatura do espaço,
ele existe além do compasso e das tábuas da lei, além das parábolas,
sua permanência é a mesma do sangue no coração da eternidade,
é o pulsar da estrela gigante no telescópio girando milhões de anos
depois da explosão que a transformou apenas em luz e é tudo.

6 ELEGIA ESCRITA NA PANDEMIA

A fisionomia parada na janela vendo o tempo passar não viu a mudança das estações e o mover cíclico das estrelas no céu infinito.

O tempo entregue a si mesmo feito jardim oculto onde rosas ocupam
o jardineiro lento e metódico igual a relojoeiro de pétalas ainda não profanadas.

Somente o hálito das árvores em movimento embaça a vidraça na moldura da face
encontrada como se vista no fugidio fluir de uma fonte ou lâmina de faca.

Esse rosto é que ultrapassa o tempo como uma máscara de carnaval antigo,
ou de epidemia que esconde o riso e a dor no trágico despertar da morte
anunciada, mas nunca desejada.

Faça chuva ou faça sol, venha o vento, ou nasça um arco-íris sobre as arcadas, o tempo permanece imóvel fazendo os seus cálculos de eternidade,
só as sombras se movimentam da forma com que as almas penadas escrituram
perdas e ganhos no outro mundo.

Só os cães ainda passeiam nas ruas abandonadas e as sirenes das ambulâncias desesperadas, a solidão dos que morrem sozinhos nos hospitais de campanha.

Onde ficou tudo, a graça, a beleza, o conhecimento, o amor entre pessoas até então desconhecidas?

Já não há medida para o sentimento, espera-se o julgamento que condenará
a vida à reclusão do tédio e já não existirá nenhum mistério além ou aquém de ti.

Olhas sem ressentimento a densitometria da pena e te entregas ao destino
sabendo que a vida que tiveste foi uma dádiva e que nunca a carregaste como um fardo.

Bebeste do bem e rejeitaste o mal, quando possível, mas não te eximiste das ações que o calor da hora exigia, nem das demoras das escolhas difíceis.

Tudo tem a sua hora, e a tua chegou de total entrega, Desconhecida,
tu que nos trouxeste o horror e a dissenção e semeias o desconsolo por onde passas, afasta de nós o amargo cálice da despedida, afasta de nós a danação em terra!

José Eduardo Degrazia nasceu em Porto Alegre em 1951. Publicou dezenas de artigos e crônicas em jornais e revistas do Brasil e do exterior. Tem publicados os livros de poemas, Lavra permanente, Cidade submersa, A porta do sol, Piano arcano, e A urna Guarani; seus livros de contos são: O atleta recordista, A orelha do bugre, A terra sem malesOs leões selvagens de Tanganica e e Deus não protege os certinhos. Traduziu livros de Pablo Neruda, poetas latino-americanos e italianos.

FICÇÃO

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