ELOGIO ÀS ESCADAS, por Cristiano Fretta

A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
contruir, não como ilhar e prender,
nem contruir como fechar secretos;
contruir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e teto
(…)
Fábula de um arquiteto – João Cabral de Melo Neto

Os primeiros passos eram amplidão branca e deslumbrante que se explodia em luminosidade e acabava por dilatar as pupilas de Miguel em um misto de orgulho e surpresa, pois a escultura de formas confusas parecia ter caído por entre os andares simétricos, encaixando-se perfeitamente no centro da construção.

No começo havia sido a ideia de fazer um número finito de andares a não se sumirem ao céu para quem os visse do outro lado do Guaíba, mas o prédio havia sido o excesso total, um não meio termo entre a imposição e a necessidade: as concessões custariam aborrecimentos a Miguel, já que cada tijolo a menos seria para ele como uma queda do padrão da construção.

Estava tudo pronto, e ele caminhava ao redor das colunas que sustentavam os andares como um gato que se esfrega nas pernas das tias de visitas à tarde, como quando sua última tia viva perguntou-lhe por que um prédio tão grande, e ele teve vontade de mandar-lhe à puta que o pariu, pois aquilo não era pergunta que se fizesse e, embora quem estivesse em seu centro, perto da escultura, e olhasse para cima tivesse a sensação de que seria sugado pelo e céu e atravessaria os vidros lá de cima como uma espada atravessaria manteiga, a ideia original era fazer tudo ainda maior, e o resultado final para ele havia sido como deveria ser, pois o que ele imaginou jamais poderia ser construído: o brilho do infinito sumia-se a cada milímetro que o prédio avançava em direção ao céu, mas as vigas por onde Miguel continuava caminhando a uma certa distância luxuosa eram rijas e fortes como patas de monstros de mármore.

Antes da conclusão da construção, Miguel havia dado-se conta de que os operários que estavam construído o prédio eram como que reféns de sua vontade, e talvez nem soubessem ao certo o que estavam fazendo, por que o acabamento era de tal jeito?, por que cada quarto deveria ter uma decoração diferente do outro?, por que tantas portas que pareciam levar a todos e a nenhum lugar ao mesmo tempo?; em bem verdade deu-se conta de que os operários envolvidos no grande projeto não passavam de uma extensão dele próprio, sim, ele era cada um daqueles operários: havia sido necessário que Miguel deixasse de ser Miguel para conscientemente fantasiar-se de pedreiro, de encanador, de eletricista, para só assim poder cumprir satisfatoriamente o papel que esperava de um pedreiro, de um encanador, de um eletricista, e naquele momento, depois de já ter circulado sozinho por todo o saguão e estar parado de frente à escultura, sentiu-se pequeno, deslumbrado ante o fato de haverem sido necessários tantos miguéis para a construção daquele prédio.

Como um lento ataque súbito, a porta principal abriu-se, e, virando-se, Miguel pôde perceber a largueza do salão de entrada começar a lentamente ser reduzida pela presença de inúmeras pessoas bem vestidas, homens de ternos pretos e mãos nos bolsos, mulheres com os cabelos duros de laquê caro, pernas aparecendo e elegâncias desfilando: o que antes era somente o vazio grandioso e branco agora já estava se inundando de expectativas não menos importantes do que os vestidos sustentados pelo ato de ser bonito de dizer que aquela era uma construção magnífica, de uma superioridade indiscutível, de uma beleza singular, e que todos os que estavam ali eram grande privilegiados por conseguirem ter acesso àquele tipo de construção.

Após todos terem tido o contato inicial, o centro de tudo passou a ser Miguel, como se o arquiteto fosse mais importante do que a construção: sentiu-se rodeado por perfumes de cheiro raro que calma e elegantemente tomavam conta de todo o ambiente, deixando toda a existência dos outros andares, que acima de todos se projetava em um leve não existir a não ser que as exigências da ocasião demonstrassem que era necessário por eles andar mas mesmo assim tudo deveria ser feito à distância, sem nenhum tipo de derramamento em direção aos labirintos dos quartos: ainda ninguém desconfiava nem conseguia desconfiar da existência de tais labirintos.

Não sem deixarem Miguel de lado, a escultura do centro atraiu a atenção de todos como se só a custo conseguisse se projetar por trás de Miguel:

“Realmente magnífica”.

“Ela é de um bom gosto impressionante”.

“Lembra-me os traços de Lorenzo Ghiberti”.

“Que bom gosto, não é?”

“Intrigante, divino”

Ou então um silêncio de cabeças balançando afirmativamente que disfarçavam um silêncio nos olhos que procuravam incessantemente um ponto em que pudessem encontrar uma concretude de certeza do privilégio de pertencer aos poucos que teriam capacidade de apreciar e entender a escultura. Comeram e beberam pequenos pedaços salgados e doces, um álcool bebido a pequenos goles, nada exagerado.

Miguel por fim tomou a voz, antecedido por um silêncio respeitoso que se formou ao virem o artista pedir a atenção a todos:

“Agora, peço que todos vocês subam os andares e apreciem cada peça”.

A pequena multidão, meio desordenada, tentando disfarçar uma espécie de pouca vontade de subir os andares e embrenhar-se nos quartos para por fim enxergar, ver e deduzir coisas que não lhes diziam respeito, lentamente começou a dispersar-se subindo as muitas escadas que levavam aos andares. Miguel assistia àquela cena como sendo o momento em que finalmente o seu projeto estava concluído, pois antes de haver pessoas nas peças, aquilo nada mais era do que somente uma extensão dele próprio, mas agora tudo já era coisa realizada, e Miguel não pôde deixar de sentir um certo frio na barriga que na verdade era expectativa, um pouco também de tom de despedida, pois afinal de contas era o seu prédio que estava indo embora, lentamente ganhando outros rumos à presença daquelas pessoas que invadiriam os quartos, olhando cada detalhe, ou quem sabe não fazendo nada  disso, a não ser dizerem a todos depois que haviam ido àquela construção e que haviam achado tudo muito maravilhoso.

Foi somente após todos terem subido o primeiro andar que notaram que não havia nenhum elevador naquela construção, e que portanto a chegada aos andares mais altos só se daria mediante esforço que iria crescendo conforme fossem percorridos os andares. Alguns não se deram por abatidos, porém muitos outros, muito antes de entrarem nos quartos do primeiro andar, já haviam desistido de alcançar os níveis superiores, muitos por incapacidade, outros por preguiça, mas estavam igualmente certos de que algumas míseras almas até aqueles pontos altos chegariam, e então seria somente aguardar e sorrateiramente escutar o que diziam, ficar a par do máximo de coisas possíveis, de cada detalhe, de cada decoração dos quartos não visitados; quem os visse, jamais diria que não haviam chegado aos andares superiores.

No primeiro andar havia quartos simples cuja decoração não deixava dúvida de que a simplicidade nada escondia a não ser uma parede dura por detrás de alguns raríssimos quadros cuja pintura de simples paisagens também não escondia nada de misterioso nas suas tintas. Naqueles quartos todos entraram sem nenhuma dificuldade, mesmo que alguns apenas espreitassem o ambiente parados muito perto da porta, onde mesmo assim concordavam efusivamente com qualquer comentário positivo vindo de algum daqueles que inspecionavam cada canto da peça. Do segundo ao quarto andar, aqueles que até lá chegaram começaram a notar que o tamanho da porta começava a diminuir, nada que atrapalhasse a entrada nos quartos cujos contornos dos quadros da parede começavam  a ganhar traços cada vez mais embaçados, do mesmo modo que o número de gavetas começava a aumentar dos dois lados das camas cobertas com no mínimo dois lençóis de desenhos que pediam para ser observados mais de perto ou que fossem observados diretamente da cama, convidando todos a deitarem-se em cima dos colchões largos e entregarem-se a um sonho sonhado e influenciado por tudo o que estava ao redor, sonhando outras milhares de construções como aquelas. Nos outros dez andares por fim repararam na importância de abrirem portas, pois cada ambiente seria coisas novas para serem observadas, e os poucos que persistiam no trajeto ainda estavam ávidos por conhecerem e observarem cada uma das gavetas, cada um dos cantos, cada pedaço de coisa escondida que haveria por trás dos lugares não vistos, para tanto vencendo com obstinação as dificuldades da subida que havia aumentado com a percepção de que cada vez as escadas tinham mais degraus. Ao entrarem no primeiro banheiro da construção, trazendo atrás de si a experiência da visita de todos os outros andares e com certeza de muitas outras construções, repararam que os azulejos pareciam meio mal colocados, como se por detrás deles houvesse outras coisas, mas faltou-lhes a coragem de pelo menos um soco que quebrasse tudo e revelasse por fim o que por ali se escondia. Alguns andares mais acima por fim gavetas começaram a ser abertas para por fim todos virem espantados seres fantásticos pulando da primeira gaveta, uma arma descarregada na segunda e uma foto da infância e da provável morte de cada um dos visitantes que por ali estavam. Ao abrirem as portas dos banheiros dos quartos daqueles andares, muitos se depararam, inclusive, com uma outra pessoa exatamente igual a si, agachada, nua e temerosa por detrás do box do banheiro: todos tentaram chegar perto de si mesmos, mas ao quererem tocarem a si próprios, seu outro eu se diluía, virava água e escorria ralo abaixo. No entanto nada disso foi susto, foi antes um estímulo para que continuassem o trajeto pelas próximas dezenas de andares, enfrentando as escadas cada vez mais íngremes, as portas cada vez menores e a sensação de que se estava cada vez mais longe da porta de entrada do prédio pois ali ninguém mais lembrava de Miguel a não ser numa referência indireta ou em uma assinatura rápida encontrada nos móveis que cada vez mais rareavam: encontravam quartos com apenas uma cama, um quadro e um criado-mudo. No entanto, ao sacudirem o lençol, olharem o quadro e abrirem as gavetas, deparavam-se com instruções que diziam:

“Agora refaça todo percurso e volte para o andar tal”.

Alguns rapidamente cumpriram a instrução, outros foram averiguar o banheiro, e somente alguns continuaram a subida em direção aos próximos andares, onde encontraram quartos cuja porta de entrada era tão pequena que era necessário agachar-se e espremer-se para conseguir adentrá-los. Nesses andares nem cama mais havia, a não ser a porta do banheiro que, ao ser aberta, dependendo do quarto que haviam entrado, poderiam levar para outros quartos de andares inferiores, para outros banheiros ou até mesmo para dentro de alguma gaveta. Os que se aventuravam descobriam então atalhos que os levavam até o primeiro andar, onde seria possível ir novamente até aquele nível mais alto sem ter que utilizar as escadas. Por fim, muitos poucos conseguiram alcançar o último andar da construção e, cheios de expectativas, deram-se conta de que nenhuma porta abria, mas apesar disso era possível saber que havia muita coisa acontecendo pelo outro lado, pois era possível escutar gritos de alegria, gritos de dor, tiros, sua própria voz, pedidos de súplica, pedidos de casamento, ameaças de morte, planos de viagens mas nenhuma daquelas portas iria se abrir, e foi então que alguns olharam pelo centro do prédio, viram os inúmeros andares que desenhavam um quadrado bem no centro da construção, e lá embaixo aparecia, já pequena, a construção de formas assimétricas, como se seus traços apontassem para todos e nenhum lugar ao mesmo tempo.

Na frente da escultura, Miguel escutava as palavras de admiração, ódio, tédio, desprezo: a construção era o que de mais genial se havia construído, não conseguiam entender como ele havia sido capaz de construir algo tão confuso pois quantos não haviam conseguido nem chegar ao terceiro andar, a falta de um elevador é genial, a falta de um elevador é um teste de paciência e uma má fé para com os convidados,  “muito obrigado por tudo, mas preciso ir”, e outros iam ofendidos de uma ofensa infantil, fazendo beicinho disfarçado de pressa ao ir embora, sem ao menos se despedirem de Miguel que observava tudo um tanto quanto diferente, e tudo parecia ser uma outra construção, muito diferente daquela que solitariamente ele havia concebido, mas era assim mesmo, era necessário ouvir, inclusive, que muitos gostariam de viver ali para sempre, ou pelo menos voltariam a visitar o prédio mais algumas vezes, procurando  nos quartos outros indícios de labirintos, outras portas que levariam a outros lugares, outras possibilidades infinitas. Miguel esperava que alguém dissesse que havia descoberto um determinado quarto, sendo esse o quarto que havia criado com a maior paciência e maior calma do mundo, mas até então ninguém o havia descoberto, ou pelo menos não haviam dito, e ele gostaria de saber se alguém havia visitado aquele quarto querido, se alguém havia adentrado tão profundamente na ideia de Miguel, enxergando assim a peça tão minuciosamente planejada por ele.            

Miguel caminhou em direção à grande porta de saída. Atrás de si, havia agora muitos entendedores do prédio, embora apenas um número extremamente restrito deles houvesse explorado satisfatoriamente a construção. Ao encontrar a rua era como se houvesse deixado um pedaço de si para trás. Antes de dar um passo na calçada, olhou ao redor, e reparou que havia um gigantesco terreno baldio que como que pedia, implorava que uma construção fosse feita sobre si, cobrindo o vazio pleno de possibilidades com uma nova edificação. Miguel estava aprendendo.  

Cristiano Fretta é mestre em Letras pela UFRGS, músico e professor de Literatura e Língua Portuguesa em escolas privadas de Porto Alegre. É autor das obras “Chão de Areia”, “Tortos Caminhos” e “A luz que entrava pela janela”.

FICÇÃO

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