‘JUNTOS’, O PRIMEIRO DISCO GAÚCHO INDEPENDENTE, por Leticia Morales

Nelson Coelho de Castro nasceu em Porto Alegre em 1954 e, primeiramente, morou com sua família no bairro São João, na Rua Honório Silveira Dias. Filho de um representante farmacêutico e de uma dona de casa. Em depoimento dado ao entrevistador Rui Carlos Ostermann e nos livros de Mann (2002) e Faria (2001) – duas obras referência sobre música no Rio Grande do Sul que utilizarei neste artigo – relata que a música sempre fez parte de seu cotidiano, a família sempre foi muito musical, em cada encontro de família acabava-se por cantar algo do cancioneiro popular brasileiro e gaúcho. A gaita de boca do pai, as marchinhas de carnaval cantadas pela mãe, o violino tocado por sua avó, os tios que após algumas cervejas já entoavam canções do repertório familiar. Seu pai possuía um assovio específico (o assovio da família) para chamar Nelson e seu irmão César para almoçar, após longas partidas de futebol em um campinho próximo de casa. Podemos considerar a família como um importante fator na constituição do capital cultural do compositor, a família gesta e proporciona o desenvolvimento inicial do seu “gosto” musical que será fundamental na sua criação artística.

Esta familiaridade com a música foi aprimorada com o tempo, através da participação do coro “Canarinhos do Colégio São João” por volta dos 9 – 10 anos de idade (atividade que lhe deu régua e compasso para o futuro ofício de compositor). Tal coro possuía repertório eclético passando por Ari Barroso, Barbosa Lessa, Jovem Guarda, Lupicínio Rodrigues e música sacra. Na entrevista com o jornalista e filósofo Rui C. Ostermann, Nelson enfatiza que a participação no coro foi importante para a constituição de sua “emoção auditiva” (termo usado por ele) colaborando para, após o retorno da família a Porto Alegre, vinda de Curitiba, em 1970, quando ganha um violão, começar a compor. Relata que se seu repertório soa como colcha de retalhos (samba, marchas, reggae, rock, valsinha, bossa nova etc.) é porque nunca teve fobia com tipos de música, basicamente ele faz MPB, porque tudo é música.

A característica polifônica da obra de Nelson parece ter surgido deste microcosmo que foi a família e a participação no coro fez amplificar. Embora o músico Arthur de Faria o chame de neossambista, no primeiro disco o que vamos escutar é uma profusão de ritmos e melodias, exatamente essa colcha de retalhos de que Nelson fala, porém uma colcha feita das mais inusitadas harmonias sonoras.

Na constituição da trajetória do músico haverá o estudo de violão clássico com o prof. Jorge Peres e violão popular com o virtuoso professor lagunense Ivaldo Roque. Perguntei para Nelson C. de Castro em sua conferência, realizada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sobre o CD Lua Caiada (2010), a respeito da influência de Ivaldo Roque em sua música, comentou o seguinte:

“(…) Eu estudei com ele umas cinco aulas no Palestrina,
ele me ensinou uns acordes difíceis, e daí eu cheguei em casa
e compus músicas com esses acordes (…)” e “O mestre Ivaldo
foi meu professor de violão e muito apreendi e mais dele também como pessoa…”

(Em conferência para audição comentada do CD Lua Caiana
no Núcleo de Estudos da Canção dia 23/08/2010,
complemento da resposta por mail em 24 de agosto)

Entre os anos de 1974 e 1977, o compositor cursa a faculdade de jornalismo na FAMECOS – PUCRS, durante a noite, pois trabalhava como divulgador farmacêutico durante o dia. É nesse período que participa intensamente dos festivais e mostras de música da cidade de Porto Alegre. Ganhando projeção e recebendo prêmios. Estagiário da TV Difusora, realiza a produção de programas locais, fator que o aproxima dos profissionais da área. Mas ainda não era um profissional da canção, se forma em jornalismo antes da carreira “acontecer”. É nesse campo que suas relações ampliam-se (na faculdade conhece Dedé Ribeiro que será sua parceira na música Armadilha e na produção do disco Juntos). Embora afirme que a família não interferiu em sua profissionalização como músico, a formação em curso superior pode ser considerada uma garantia de futuro, caso a carreira não o favorecesse, uma vez que o circuito profissional encontrava-se no Rio ou São Paulo1.

É importante ressaltar que, à época, Porto Alegre não contava com gravadora de discos. A gravadora ‘A Elétrica’ (1914 – 1924), fundada no início do século, já havia fechado na década de 20. A única possibilidade de registro eram as gravadoras do eixo Rio – São Paulo, havia o deslocamento dos profissionais da música (instrumentistas, compositores, cantores e cantoras) para a região sudeste2. Em diferentes períodos podemos relatar exemplos variados: Elis Regina, Hermes Aquino, Luis Vagner, o grupo de rock Liverpool (tornou-se mais tarde Bixo da Seda) e o próprio Lupicínio Rodrigues (que voltou para Porto Alegre).Os que permanciam no sul tinham dificuldade na divulgação de suas músicas, Nelson comenta que a geração anterior a ele (dos anos de 1960) não gravou. O registro sonoro era exterior a Porto Alegre. A criação de uma trilha musical da cidade se dará com a sua geração3.

Se o acesso às canções era realizado através da escuta do disco, as pessoas na maioria das vezes acessavam-no via rádio. O preço do vinil ainda não era possível a todos, mesmo para a classe média4. Nas rádios rodavam as gravações feitas no centro do país; como os músicos urbanos locais não gravavam, estes não eram conhecidos (ressalva para Teixerinha, o grupo pelotense Os Almôndegas e Hermes Aquino, a música de gênero tradicionalista ou regionalista, entre outros).

Eram várias as etapas para a canção popular urbana se mostrar no período em que Nelson começa seu fazer musical: através de festivais universitários (como o MusicPUC – festival de música popular organizado pelo Centro Acadêmico São Tomás de Aquino – CASTA entre 1971 e 1978 nas dependências da PUCRS), de mostras coletivos, como as Rodas de Som, organizadas pelo compositor Carlinhos Hartlieb, no Tearto de Arena, shows individuais em teatros e bares noturnos.

A performance nesses casos, então, é realizada ao vivo, numa ação complexa, como nos ensina Paul Zumthor, na qual a mensagem é transmitida e recebida ao mesmo tempo, aqui e agora, onde o receptor atua junto ao emissor, levando em consideração o cenário onde flui a ação, é um “drama a três”(VALENTE, 2007:79-97).

No Centro do país os festivais estavam em franca decadência, principalmente após o AI-5 (1969) uma das ofensivas mais objetivas da ditadura civil-militar, mas em Porto Alegre o campo musical, sem possibilidades de gravar localmente, utilizava-se destes meios para chegar ao público.

Em 1975, estreia na rádio Continental AM5 (rádio que revolucionou pioneiramente a programação destinada para público jovem e estudantil residente na Grande Porto Alegre) o programa “Mr. Lee in Concert”, patrocinado pelas lojas Renner e pelo fabricante de calças Lee (jeans norte-americanos que passam a ser comercializados no Brasil oficialmente), cujo apresentador era Julio Fürst (autodenominado Mr. Lee). O programa tinha o intuito de atingir um público jovem, provável consumidor dos jeans marca Lee, por isso era transmitido a partir das 22 horas, horário de saida de muitos jovens das escolas e universidades. No mesmo ano, Julio Fürst é convidado para julgar as composições participantes do Festival MusiPUC. Na noite dos finalistas seu programa de rádio passa a transmitir a disputa.

Segundo Endler (2004: 325) Fürst teria articulado “toda aquela riqueza musical ali mostrada, com o poderio da Rádio Continental e o interesse do público universitário.” Os músicos são convidados para registrar em gravadora de rolo, no estúdio da própria emissora, suas canções que serão incluídas na grade de programação cotidiana. Nesse momento os ouvintes da região metropolitana de Porto Alegre passam a escutar a música produzida localmente através da radiodifusão.

Será através do Festival MusiPUC que a canção urbana composta por Nelson Coelho de Castro, iniciará seu percurso em direção a canção das mídias6, que é, conforme Valente (2007: 82), “(…) composta de maneira tal que permitiria a sua amplificação e sua telefonia, de acordo com as possibilidades e os limites das tecnologias de imagem e do som.” Sua permorfance midiatiza-se (entendendo-se aqui além da concepção da obra, sua produção, transmissão, fixação e recepção).

As gravações da rádio possuem qualidade acústica precária, porém suficientes para estimular a criação de um “campo musical” porto-alegrense. O programa “Mr. Lee in Concert” produzirá uma série de shows coletivos em Porto Alegre, no interior do Rio Grande do Sul e em Curitiba (Paraná), onde o programa gravado em Porto Alegre era transmitido pela rádio Iguaçu. A cena musical começa a provar que há público interessado na produção local. É importante ressaltar que tanto a rádio quanto os shows produzidos pelo programa sofriam censura. O governo federal destacou agentes para escutar a programação da rádio AM 24 horas por dia, censurando desde o jornalismo, a publicidade e a música. Os shows tinham que fazer pré-apresentação aos agentes federais de controle das diversões públicas e as músicas também eram submetidas à análise7.

Esse fenômeno não passou despercebido pela imprensa, Juarez Fonseca (jornalista, editor de cultura e crítica musical) a época trabalhando para o jornal Zero Hora, tecia comentários sobre essa manifestação musical, nela identificando um movimento musical urbano.

Era preciso fazer o registro sonoro de toda essa cena musical que se estabelecia em Porto Alegre, através do disco, mídia disponível na época.

A indústria fonográfica não é objeto deste estudo mas não poderá ficar sem um comentário: segundo Márcia Tosta (1997) a indústria fonográfica brasileira nos anos de 1970, além de ser dominada pelas “majors”, era plenamente estruturada, possuindo um “filão de MPB constituido com grande nomes” não necessitando ampliar seu mercado e também não procurando testar novos produtos. Realidade que se modificará ao longo da referida década.

Em 1978 o pequeno estúdio ISAEC8 de Porto Alegre, adquire equipamento moderno (uma mesa de gravação em 16 canais9) com objetivo de lançar um selo, contrata como diretor artístico o músico Geraldo Flach e lança o Long Playing (LP) “Paralelo 30”. Disco, produzido por Juarez Fonseca, que reuniu seis compositores intérpretes Bebeto Alves, Carlinhos Hartlieb, Raul Ellwanger, Cláudio Vera Cruz, Nando D’Ávila e Nelson Coelho de Castro, músicos “com sotaque definitivamente rio-grandense” (FONSECA, 1998: 186), cada um com duas canções registradas. Nelson Coelho de Castro participa com as canções “Rasa Calamidade” e “Águias”. Era o início de uma experiência no desenvolvimento de uma indústria fonográfica na capital do Rio Grande do Sul, voltada, no primeiro momento, para o registro sonoro da música urbana. Os músicos foram contratados para gravarem seus discos. Fernando Ribeiro, músico de destaque neste cenário, contratado pela gravadora multinacional EMI-Odeon10, inclusive com um disco já lançado (Em Mar Aberto de 1976) retorna para Porto Alegre e grava pela ISAEC o LP “Coro dos Perdidos” neste mesmo ano.

Figura 1: Compactos “Faz a cabeça” (foto: Leticia Brum)

Em 1979, Nelson Coelho de Castro lança um compacto simples (disco pequeno de vinil com sete polegadas) “Faz a Cabeça”, com duas canções: “Hei de Ver” e “Faz a Cabeça”, esta última canção título, um enorme sucesso de público (fig.1).

Como relatado acima, as possibilidades da música se mostrar na mídia sonora passavam pela execução ao vivo ou pelo rádio. Nelson antes de ter o compacto gravado, fez os shows “E o Crocodilo Chorou” (1977) e “Milagrezinho” (1978), sempre com casas lotadas. Com inúmeras músicas compostas era necessário registrá-las. Entretanto a gravadora ISAEC encerra suas atividades em 1980.

Ainda sobre a trajetória da ISAEC é importante salientar que havia o desejo de criar uma indústria fonográfica local, uma vez que se detectava um incipiente mercado consumidor. Para Tosta (1997) a criação de pequenas empresas produtoras de discos “(…) revelam uma relação de complementaridade, mesmo que indireta e aparentemente conflituosa” (p.114), quando se refere a produtoras independentes das majors. As majors utilizariam as pequenas gravadoras como oportunidade para testar novos produtos e realizar escolhas seguras para investir em algo “novo”. Ghezzi (2003) aponta outra questão: a fragmentação da produção fonográfica no Brasil no final dos 70 e início dos 80 teria sido promovida pela racionalização da grande indústria, que financiou pesquisas no setor tecnológico e proporcionou a popularização da técnica de gravação e reprodução. Desta maneira, à indústria fonográfica caberia outras etapas vinculadas a promoção do produto musical, diminuindo seus custos. É no final dos anos 70 que surge em São Paulo a gravadora independente Lira Paulistana que registrará o fenômeno musical chamado “Vanguarda Paulista” composto por uma gama de músicos de diferentes vertentes da música brasileira.

Buscando sanar os prejuízos a empresa ISAEC indeniza o compositor NelsonCoelho de Castro com 40 horas de gravação em seu estúdio.

O compositor partirá para feitura do disco que seria gravado na ISAEC buscando alternativas para sua produção, pavimentando o caminho para a produção de discos independentes no Rio Grande do Sul11.

O LP “JUNTOS”

Sempre pensei no disco como uma coisa mágica. O girar no prato
daquele mistério negro, o selo azul, verdi, cor di vinho e o encanto
dos cantores e cantoras ali dentro do disco para sempre e para sempre
ali dentro. Que coisa mais maluca, eu não tinha 4 anos. Tinha cinco e
eu não me lembro, eu só recordo, pois tem aquela coisa di que lembrança
é uma coisa e recordação é outra e eu tenho mesmo é recordação,
mas tri pertinho di agora, quando é hoje, o desejo deste
prazer é o mesmo, tão igual e absoluto.

(trecho do texto do encarte do disco Juntos – Nelson Coelho de Castro)

“Sempre pensei no disco como uma coisa mágica. O girar no prato daquele misterioso negro…” escreve Nelson Coelho de Castro. O “misterioso negro” reporta ao disco de vinil que vinha acompanhado de selos de diferentes cores, marcando a origem de sua produção. Prestes a ter seu próprio registro sonoro, era urgente a gravação de suas músicas, carregadas com suas experiências de vida.

O compositor reúne boa parte dos músicos e cantores do campo musical local de sua geração que a ficha técnica presente no encarte do Long Playing confirma. O instrumentista identificado com o choro e samba Plauto Cruz (integrante de uma geração anterior, tendo inclusive tocado com Lupicínio Rodrigues) escreve os arranjos para flauta e é referido assim na ficha: “sempre que pintar é ele..tri mágico”.

Serão doze canções que reificam suas vivências. São composições de Nelson e parcerias: “Armadilha” com Dedé Ribeiro, “Não Sofro A” com Cézar Coelho de Castro e Rachel Chula, “Juntos” com Rachel Chula. “Gosto” é do compositor Paulo Killing. “O beijo”, “Zé – Naquele tempo do Julinho”, “Todos os Homens”, “Desfilar”, “Vanda Bonita”, “Sol”, “Por Favor” não possuem parceria.

A asfixia dada pelo regime militar é percebida na marcha “Zé, Naquele Tempo do Julinho”, “Armadilha”, “Desfilar”, “Vanda Bonita”, “Não Sopro A”, canções que dão seu ‘recado’, denunciam e expressam a realidade demonstrando preocupação com os rumos do país: ‘Oh! Juventudi – brasileira dessa terra quando a genti abri a goela – vém os homi e qué gelá’12, ‘Mas como o Zé tá demorando / Minha cabeça vai doer /Olha aí, tão escutando / tem um treme pra si ver / tá baixando um pau “na esquina” / I são dez pra cacetiar’13. O compositor diz que a ditadura fez com que muitas canções “saíssem engajadas”14. Mesmo canções que tematizam Porto Alegre como “Ponto Nodal (Comigo Sempre)” e “Desfilar” confirmam essa questão: “Assim – Belém – Restinga – Alvorada… Exemplos do medo dentro de nós (…) Não ameace o medo rapaz / Coragem sempre no coração15; “Nós vamos roubar do ‘Alegre Porto’– um navio / Depois navegar – um além mar – pelo rio 16

O disco foi gravado entre maio de 1980 e agosto de 1981, com as horas disponíveis da indenização, entretanto era necessário dinheiro para a prensagem, produção de arte (gráfica da capa e contra-capa, o encarte com as informações técnicas e letras), a distribuição e a divulgação nas mídias e comercialização (lojas, execuções públicas), enfim as etapas nas quais os artistas não se envolvem quando contratados por uma major. Para que o LP realmente pudesse alcançar o público, Nelson deveria assumir todas as etapas do processo. O compositor diz que ligava para as pessoas e oferecia o disco, comercializando-o ‘boca a boca” A ideia de captar fundos junto a seu próprio público, partiu de uma publicação literária que utilizou a nota promissória como garantia de compra de um produto (artístico) e seu posterior recebimento. Através de um bônus oferecido ao público o artista inaugurou (ao que se saiba) a venda antecipada. Ao final o bônus seria trocado pelo disco pronto.

Percebemos um caráter de criação coletiva no processo de produção artística, onde o “receptor” (ou público) é convidado a participar concretamente, sendo denominado de “cooprodutor”, inclusive com seus nomes creditados na contra-capa do LP, totalizando 200 “cooprodutores”.

Figura 2: encarte do LP “Juntos” (foto: Letícia Brum)
Figura 2: Encarte do LP Juntos (foto: Leticia Brum)

A ideia do coletivo como motor para o disco acontecer também é percebida no encarte (fig. 2) onde há profusão de fotografias em preto e branco de todos os participantes do disco, fotos familiares (a família sempre presente), da avó, do pai, mãe, irmãos. Fotos de crianças, de músicos com seus instrumentos (Fernando Riberio e Bebeto Alves), dos músicos almoçando, cantando no estúdio e no centro um texto contando poeticamente da feitura do disco, dos músicos que se encontram e fizeram acontecer.

A capa do disco (fig.3) apresenta um Nelson Coelho de Castro sorridente em meio aos transeuntes, sugerindo a Rua da Praia (rua central de Porto Alegre) como cenário, no canto esquerdo a frase “primeiro disco gaúcho independente” legitima uma proposta alternativa às majors do Centro do País.

Na contracapa (figuras 4 e 5), além de revelar os coprodutores, há uma foto em preto e branco de músicos reunidos em uma praia, tendo ao fundo as furnas de Torres (RS), um dos músicos veste a bombacha, peça típica do guarda-roupa do gaúcho. No canto superior direito lê-se: “Praia da Cal/Torres – onde tudo começou.” Sabemos que o município de Torres é lindeiro ao estado de Santa Catarina, cuja fronteira é feita pelo Rio Mampituba, esta imagem parece confirmar a ideia de assumir independência na produção fonográfica frente as restrições das grandes gravadoras.

O show de lançamento de Juntos ocorreu no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Reginaldo Lühring, na época estudante da Escola Estadual Júlio de Castilhos (o Julinho da música “Zé – naqueles tempos do Julinho”) que não comprou o bônus, relata que todas as pessoas cantaram as canções do disco, principalmente “Zé – Naquele tempo do Julinho” e “Armadilha”, por que elas já faziam parte do repertório do público de Nelson. Reginaldo comprou o disco assim que foi lançado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Quando a ISAEC fecha as portas, ao meu ver, Nelson Coelho de Castro radicaliza. Não cria uma empresa independente, porém produz o seu primeiro disco de forma independente, lançando mão de um sistema inovador, que na atualidade é conhecido como pré-venda. Batizado de “Juntos” o LP é lançado em setembro de 1981, inventando uma maneira alternativa de produção fonográfica no sul do país. Logo outros artistas também aderem ao recurso para produzirem seus LP’s, a exemplo de Nei Lisboa, Léo Ferlauto, Gelson Oliveira, entre outros. Porto Alegre na virada do Século XX para o XXI tornou-se o 3º polo de produção de discos independentes no Brasil (MANN, 2002).

O compositor explica:

“Foi no final dos anos 70. Tocava na noite, fazia show.
Participei de duas coletâneas, mas meu primeiro disco s
aiu só em 1981. Chamava-se “Juntos” e foi o primeiro disco
independente do sul do país. A gravadora ISAEC, que era a
única daqui e com a qual eu tinha contrato, havia fechado.
Como indenização, ganhei algumas horas de estúdio.
Resolvi então produzir este disco sozinho. Ligava para as pessoas
e oferecia o disco. A comercialização foi feita assim, de “boca a boca”.
A pessoa adquiria um bônus que era trocado pelo disco,
quando estivesse pronto. Foi uma quebra de paradigma.
Mas depois muitos músicos seguiram o mesmo caminho.
No Rio Grande do Sul, a gente fabrica o calçado pra poder caminhar.
Não há uma indústria fonográfica forte.
E as poucas que existem têm outro foco, outro objetivos.”

(Entrevista site portoweb tambor, em 05/07/2007)

O pioneirismo do compositor pode ser pensado sob a luz do zeitgeist, o espírito da época, inspirando o projeto coletivo dos bônus. Lembremos que, entre os anos de 1977 e 1982, circulou em Porto Alegre o mensário Coojornal publicado pela Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre (fundada em 1974), veículo de importante atuação no período final da ditadura civil-militar. Chegou a ter 450 cooperativados. Em 1978 é fundada a Cooperativa Ecológica Coolmeia que pretendia viabilizar alimentos limpos17 para os consumidores portoalegrenses. Ressaltamos a fundação da Cooperativa de Músicos de Porto Alegre (Compor) da qual Nelson Coelho de Castro foi presidente (87-89), resultando no trabalho em homenagem a Lupicínio Rodrigues com espetáculo e LP o “Compor canta Lupi” em 1991.

Na atualidade projetos se tornam concretos através das redes sociais. Na internet é comum encontrar várias plataformas onde o financiamento colaborativo ou coletivo é proposto divulgando projetos e reunindo grupos que compartilham do mesmo interesse. Denominado de crowdfunding, termo surgido nos anos 2000, parte da ideia de que pequenos investimentos feitos por uma grande comunidadede conseguem viabilizar projetos, negócios e ideias. “Juntos” foi pioneiro, portanto, na prática contemporânea do crowdfunding.

Nelson diz que os músicos de sua geração tiveram que inventar, fabricar uma calçada quanto ao fazer musical, o destino anterior era “atravessar o Mampituba” para gravar no Sudeste. Essa “calçada” foi “construida a par, a margem da indústria”, quebrando um processo que levava os músicos para longe de Porto Alegre.18

Este artigo, inicialmente, foi desenvolvido para a disciplina História e Canção: Manifestação da Diversidade Cultural do Brasil, sob coordenação da profª Márcia Ramos de Oliveira da Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC) no Programa de Pós- Graduação em História.

Para a feitura deste artigo pensou-se nas possibilidades do enlace entre história e canção. O historiador Marco Napolitano (2005) assenta a música popular em um patamar privilegiado na história sociocultural, uma vez que a considera como uma tradutora de nossos dilemas contemporâneos, tal o grau de complexidade que esse “documento – monumento” passa a ter ao longo do século XX, mesmo que a música tenha acompanhado desde sempre a humanidade. Assim a canção é uma voz que fala e canta ao mesmo tempo, é a intersecção de duas formas de linguagem distintas, como define Luiz Tatit (2002), é uma “fala cantada” ou um “canto falado”. Além disso, a canção é composta em uma temporalidade revelando-se uma fonte que permite entender manifestações culturais, pois é fruto destas e por isso carregada de historicidade.

Optei por pensar sobre a música de Nelson Coelho de Castro, compositor e cantor porto-alegrense que lançou disco de sambas no ano de 2010, completando mais de 30 anos de carreira.

Conhecendo a obra do músico sabemos que suas canções são crônicas urbanas e suburbanas cuja paisagem é Porto Alegre. Nas melodias faz interagir a tradição com a vanguarda, utilizando para isso valsas e cirandas, sambas e marchas, baladas e sons de sotaque latino americano e caribenho (reggae). Sua dicção específica, uma maneira de se comportar e de compor faz de Nelson Coelho de Castro ser reconhecido como um “Nelson Coelho de Castro”, com sua linguagem barroca, truncada, tão peculiar que necessitamos nos debruçar e esmiuçar a canção.

Chamou-me atenção a dificuldade em encontrar os discos do compositor no mercado fonográfico de Porto Alegre. Por que um compositor porto-alegrense não possui discos para aquisição em sua própria cidade? É quase impossível encontrar sua obra em qualquer loja de discos comercial (ou discos novos). Redundando na ideia da inexistência de uma indústria fonográfica local para o segmento identificado com a música popular.

Surgiu a ideia então, de biografar o disco “Juntos”, lançado em 1981 e conhecido como o ‘primeiro disco independente do Rio Grande do Sul’ e primeiro disco da carreira do músico.

Além do disco, procurei em diferentes suportes midiáticos (internet, revistas, jornais, livros, dissertações e teses acadêmicas) informações que pudessem dar conta do contexto em que o músico começou a se estabelecer como profissional.

NOTAS

1 Nelson C. de Castro passou no vestibular para filosofia (UFRGS), mas não cursou, pois era curso diurno, o que o impediria de trabalhar. Observa-se que a faculdade de Música (UFRGS) na década de 1970 não enfatizava a música popular em seu currículo.

2 Fonseca, Juarez. Dos gaudérios aos punks. In: Gonzaga, Sergius e Fischer, Luis Augusto (coord.). Nós os Gaúchos. 4ª Ed. Porto Alegre. Ed. Universidade/ UFRGS. 1998.

3 Em conferência para audição comentada do Cd Lua Caiana no Núcleo de Estudos da Canção dia 23/08/2010

4 “O baixo poder aquisitivo da massa dos jovens brasileiros não lhes permitia consumir mais do que com­pactos simples ou duplos, formatos nos quais predominava a música estrangeira.” p.89. Morelli, Rita. In: O campo da MPB e o mercado moderno de música no Brasil: do nacional-popular à segmentação contemporânea. ArtCultura, Uberlândia, v.10, n.16, p. 87 – 101. Jan – jun 2008

5 A rádio Continental AM (1971-1981) foi protagonista de uma performance comunicacional inédita, den­tro de território da indústria cultural, já demarcado pela mundialização da cultura, onde convivem o rock, a Música Popular Brasileira (MPB) e a chamada Música Popular Gaúcha (MPG), também esta vislumbrada como uma das franjas sonoras da Continental. (Endler, 2004).

6 Em 1977 recebe o prêmio de Originalidade pela música Futebol (registrada em disco posteriormente no CD “Da Pessoa” – 2001).

7 Haeser, Lúcio. Continental, a rádio rebelde de Roberto Marinho. Florianópolis: Insular, 2007.

8 A Fundação ISAEC (Instituto Sinodal de Assistência, Educação e Cultura) abre uma gravadora comer­cial em 1978, vários selos se estabelecem em sua estrutura: selos Querência e Pentagrama. (Mann, 2002). São lançados vários discos individuais: Jerônimo Jardim, Raul Ellwanger, além de Fernando Ribeiro men­cionado acima.

9 Em 1972 foi construído o Estúdio Eldorado, por iniciativa do grupo econômico detentor dos jornais O Estado de São Paulo e Folha da Tarde e da Rádio Eldorado. Na época era o único estúdio de 16 canais do Brasil. Zan, José Roberto. Música Popular Brasileira, Indústria Cultural e Identidade. EccoS Revista Científica. UNINOVE. São Paulo. N.1, v.3: 105 – 122.

10 Na época mesma gravadora de Milton Nascimento, Gonzaguinha, Joice.

11 Porto Alegre na virada do Século XX para o XXI tornou-se o 3º polo de produção de discos indepen­dentes. (Mann, 2002)

12 “Não sofro A”, mantive a grafia original com os is e as gírias homi – homens = polícia. Faixa 5 – lado B.

13 “Zé, Naquele tempo do Julinho”. – faixa 4 – lado A

14 Em conferência para audição comentada do Cd Lua Caiana no Núcleo de Estudos da Canção dia 23/08/2010

15 Ponto Nodal (Comigo Sempre) – faixa 3 – lado B.

16 Desfilar – faixa 6 – lado A.

17 Produtos limpos de agrotóxicos.

18 Depoimento disponível em: http://www.encontroscomprofessor.com.br/podcast_det.php?podcastID=103

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DISCOGRAFIA CONSULTADA

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SITES

http://www.encontroscomoprofessor.com.br/podcast_det.php?podcastID=103, acesso em 31/07/2010.

http://www1.prefpoa.com.br/pwtambor/default.php?reg=6&p_secao=153,    acesso em 31/07/2010.

Letícia Morales é Mestre em História pelo Mestrado Profissional em Ensino de História – PROFHISTÓRIA (Núcleo UFRGS), no qual pesquisa o uso das canções no ensino de história e violência contra mulheres.possui graduação em Licenciatura em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1990). Docente no ensino médio da Prefeitura Municipal de Gravataí. Especialização em Patrimônio Cultural nos Centros Urbanos (2007) junto ao Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional (PROPUR) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul com pesquisa sobre canções urbanas e a cidade de Porto Alegre.

Este trabalho foi apresentado em 2012, no XI Encontro Estadual de História, na Universidade Federal do Rio Grande (FURG).

NÃO-FICÇÃO OUTRAS MÍDIAS

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