LOURO COM COMINHO PARA FICAR PERFUMADO, por Lucia Nogueira Leiria

Hoje, por volta das três da manhã, fomos acordados lá em casa com o telefone. Quase morri de susto. Telefone tocando no meio da noite é coisa ruim. Era uma vizinha, contando que o genro tinha virado o caminhão na estrada, aqui perto. Perdeu a carga, mas, graças a Deus, com ele não aconteceu nada. Olhe só meu dedo, ficou todo machucado de tanto esfregar as panelas. Não posso ver uma panela suja, começo a esfregar, às vezes, nem me dou conta e acabo me machucando. Está doendo, nem estou conseguindo fazer as coisas direito, até para passar o rodo no chão me atrapalha. Está doendo, sabe. Dói também para passar roupa. E uma mulher, lá, minha vizinha… lugar pequeno é assim, a gente fica sabendo de tudo, a senhora vai se acostumar. Se ficar mais tempo, né? A outra, antes da senhora, ficou seis meses e foi embora, nem deu tempo de conhecer a cidade. Dizem que na capital os vizinhos nem se conhecem. É verdade? Um dia a filha dela, da vizinha, cruzou a fronteira e comprou um pacote bem grande de absorvente, é mais barato lá na Argentina, e nem viu que eram perfumados. Pois a mulher começou a usar e apareceu uma coceira, ficou horrível, chegou a sangrar, sabe. Aí ela foi consultar, e a doutora ficou apavorada com o estado dela e chegou a colocar as mãos na cabeça. Mas a vizinha disse que não era nada daquilo que ela estava pensando, que o marido dela era caminhoneiro, era um senhor sério e de respeito. Eles vão até na igreja. Meu filho me ligou de manhã contando que o pai do colega dele, o pobre do senhor era tão bom, foi ajudar a consertar o telhado da igreja que o temporal da noite passada havia destruído, se desequilibrou e caiu. Foi direto para o hospital. Isso foi cedo, o pessoal lá da comunidade tinha se reunido antes das sete horas e já começado a reconstruir o telhado. Lá pelo meio-dia, ele morreu. Ficaram a mulher, de uns quarenta e cinco anos, e o filho. Eram só os três. Coitados, ela não trabalhava, agora não sei do que vai viver, da pensão do marido, quem sabe. O filho ainda é jovem pode trabalhar e construir a vida. Não vai sentir tanta falta do pai, mas a mulher, agora ficou viúva, né. Sabe, uma vez eu tive uma patroa, ela já tinha dois filhos e, quando fez trinta anos, decidiu que não queria mais engravidar, resolveu tirar o útero. Aí ela vivia nos incomodando, eu e as outras moças que trabalhavam na casa dela, por causa disso. Uma vez, no inverno, eu disse que não podia lavar o pátio, porque não queria molhar os pés para não ter dor no ventre depois. Ela disse que eu, assim como ela, deveria tirar o útero que então eu sempre ia poder molhar meus pés, no inverno e no verão, e não sentir mais nada. Outra vez, não pude ir trabalhar porque estava menstruada e tinha muita cólica. Aí mandei um recado pela minha irmã, e a patroa mandou me dizer que ela já tinha me dito que eu fizesse como ela, que tirasse meu útero e aí eu nunca mais teria cólica, nem precisaria mais faltar o serviço. Mas eu queria ter filhos, achava a coisa mais linda uma mulher barriguda com uma criança lá dentro. Que coisa, não? Essa patroa era muito ruim, e o marido dela mais ainda. Uma vez, era de noite, eu dormi na casa dela, porque tinha que começar a trabalhar muito cedo no outro dia, pelas cinco e meia. Estava se aproximando o final do ano, e tínhamos que arrumar o jardim, podar e replantar as plantas que estavam feias, tínhamos que limpar a piscina, lavar a escadaria, os vidros, as paredes, esfregar as lajotas, os muros, tudo num dia só. Aí vi o marido dela chegar e estacionar no fundo da garagem, achei estranho ele sempre estacionava perto do portão. Desceu rápido, foi até ela e disse que aquela camionete ia ficar lá por um bom tempo, que não era para ninguém pegar. Atropelei um homem na estrada, comentou, acelerei e vim embora, nem vi se o diabo morreu ou não. Amanhã alguém acha ele, vivo ou morto. E uma mulher que tentou se matar outro dia, o pessoal lá da madeireira viu ela caminhando em direção ao rio, outras pessoas já tinham se matado na ponte. O rio é muito fundo, sabe, quem tenta se matar ali morre mesmo. Coitada, devia estar desesperada, os vizinhos disseram que o marido dela tinha outra mulher e que ia embora de casa. Um homem que estava capinando uma lavoura de batata doce ali perto viu ela se aproximando da ponte, começou a gritar e não deixou ela se atirar. Trouxe ela de volta para casa. Parece que agora ela está bem. Tem cinco filhos, coitadinhos como iriam ficar sem mãe. Santo homem, esse. Foi Deus quem colocou ele ali. A mãe se matou, enforcada. Foi ela mesma que achou e disse que nunca conseguia esquecer os pezinhos da mãe pendurados, e a língua roxa saltando para fora da boca. Dizem que, quando uma pessoa se mata na família, os outros fazem o mesmo. Tomara que ela não tente de novo. Penso sempre nas crianças. Antes de eu me mudar para essa casa onde moro agora, tinha uma família que morava perto e era pobre, pobre que não tinha o que comer. Às vezes a gente se juntava e levava comida para eles, mas era normal as crianças irem dormir com fome. A vizinha do lado ouvia o choro delas pedindo comida. Um dia essa vizinha foi lá levar pão e leite, e a mãe estava dando água morna com açúcar para elas. Deve ser muito triste não ter comida para dar para os filhos. Mas já terminou, doutora Clara? Comeu só isso? Não estava bom? Fiz o feijão com louro e cominho, uma colher de chá, bem como a senhora pediu, para ficar perfumado.

Lúcia Nogueira Leiria nasceu em São Francisco de Assis, RS. Atualmente vive em Rio Grande onde é professora de Linguística no Curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande. Escreve poemas, haikais, crônicas e contos, publicados nas redes sociais, em coletâneas ou no jornal local.

CRÔNICA

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