MACBETH – UMA TRAGÉDIA OPERÍSTICA, por Maria Alice Braga

Ópera Verdi com texto de Shakespeare

Ópera Verdi com texto de Shakespeare
MacBeth (Metropolitan de NY) – 2019
Direção de Adrian Noble – condução de Marco Armiliato
Ana Netrebko, como Lady MacBeth
Zeljko Lucic, como MacBeth
Mattev Polenzoni, como MacDuff
IIdar Abdrazakov, como Banquo

Desde o seu surgimento, na Itália do século XVI, a ópera é uma forma de arte plurimidiática, formada pelo amálgama de diversas linguagens artísticas oriundas da literatura, música, teatro, dança e artes plásticas. Assim como outras modalidades artísticas, sofreu variações através dos tempos, sendo que o gênero romântico tornou-se a forma dominante no século XIX.

Peças de teatro e romances trágicos, como textos-fonte, foram a base principal que a ópera romântica privilegiou e, como consequência, a obra de Shakespeare atraiu a atenção de grandes compositores. Diversos textos do dramaturgo inglês foram utilizados para a criação de óperas famosas, entre elas Macbeth (1847-1865), objeto deste estudo.

A  plasticidade quase infinita dos textos de Shakespeare proporciona inúmeras possibilidades criativas ao artista no percurso intermidiático através do tempo e do espaço. Assim, quando adaptados em roteiros cênicos, fílmicos ou libretos de ópera, o resultado é um novo texto, com graus diferentes de aproximação ou distanciamento em relação ao texto-fonte. O novo formato pressupõe uma série de transformações, visto que os diversos suportes são regidos por diferentes signos, códigos e convenções.

É importante destacar que não há, necessariamente, uma relação identitária entre o texto original e o outro texto, seja ele cênico, fílmico ou operístico,  pois a representação é mimética mediada pelo código, isto é, a similaridade já contém um tom diferenciador.

Verdi, em Macbeth, compôs uma obra com música vocal e instrumental, na qual as bruxas cantam e dançam, –  ópera baseada nos princípios literários do Romantismo do século XIX. A incompletude do libreto, em relação ao texto original, é compensada pela riqueza musical, como  o encontro de MacBeth e Banquo com as bruxas, um verdadeiro encantamento  pela expressão e musicalidade.  Banquo canta: “as Bruxas disseram a verdade, a profecia causa pavor, visões de banho de sangue, trono, coroa…”  MacBeth canta: “agarrei a cobiça e orgulho…” Assim o canto vai desenrolando o texto e conferindo um  sentimento de destruição, de crueldade que se apossa de MacBeth e, depois, será articulado por Lady MacBeth, que conduz o marido a seguir um plano de crueldade sem limites para obter e sustentar o poder.

Na ópera, a música é o guia do enredo, do clamor e do desenvolvimento dos fatos que caracterizam a tragédia. Quando o rei é assassinado eles cantam:  “..um canteiro espinhoso será seu agora…” (Macbeth). “… MacBeth você tem temores apesar de sua ganância de chegar ao poder…” (Lady Macbeth).

O compositor de ópera precisa realizar uma adaptação do texto-fonte às convenções operísticas, então o texto-base de Shakespeare sofreu uma redução importante a fim de atender as exigências do novo gênero, como: diminuição de personagens, ênfase na emoção ao invés de reflexões críticas, cortes de partes de cenas ou cenas inteiras, deslocamentos, paráfrases e encurtamentos de falas etc.

Sob esse ponto de vista, percebe-se, na ópera, o destaque para Macbeth, Lady Macbeth e as bruxas, estas, aliás, dominam o drama, já que é nelas que tudo se origina. Assim, Verdi deu grande destaque ao papel das bruxas, criando um coro feminino que age como personagens, pois essas estranhas criaturas constituem-se o elemento chave da tragédia, despertando os desejos inconscientes de Macbeth.

Já Lady Macbeth tem o papel amplificado com destaque para o seu lado mau e sanguinário, como seu canto que demonstra naturalidade para derramar sangue, com atos de crueldade. Repete, mudando a entonação da voz: “inúmeros crimes povoam o caminho do poder…”

Desse modo, de um lado, na tragédia de Shakespeare, após a coroação, Lady não participa do cortejo sangrento de Macbeth, cujo intuito é manter-se no poder; de outro, na ópera de Verdi, a jovem mulher é cúmplice das atrocidades cometidas pelo marido. Quando recebe a profecia das bruxas, a esposa de Macbeth mantém a altivez com ar de determinação e coragem,  todavia, na cena do sonambulismo, ela surge fragilizada (esta parte da ópera muito parecida  com o texto de Shakespeare) ou, ainda, na cena em que Lady caminha sobre as cadeiras, em intensa confusão mental.

Lady  Macbeth exala sensualidade tanto nas expressões faciais como no figurino e na postura corporal com movimentos sensuais. No retorno de MacBeth, ela o recebe com abraços e carinhos, antecedido do canto: “levantem todos os demônios ministros do inferno…”.

Quanto à questão temporal, no texto operístico, o núcleo da narrativa foi transposto para o imaginário cultural do século XIX, quando aconteceram expressivas mudanças sobre as crenças em bruxarias.

No século XVII,  os rituais de  bruxaria eram relacionados tanto com a religião como com a política, no entanto, em meados do século XIX, prevaleceu o ceticismo em relação à existência de feiticeiras, porém, pela difusão da estética gótica e romântica, o fascínio pelo diabolismo permaneceu e, mesmo que as falas das bruxas assemelhem-se nas duas mídias, houve um redirecionamento de sentido no que tange à mudança temporal e ao contexto cultural.

Além do discurso constituído pela fusão de palavras e música, outras especificidades contribuem para a composição da cena, como as expressões facial e corporal dos atores, o cenário, a iluminação e outros recursos audiovisuais que interferem na criação da obra.

Sobre a iluminação, por exemplo, a diversidade de luzes (cores e suportes) confere diferentes tons aos movimentos, destacando as ações dos atores. Como exemplo, destaca-se a cena em que o médico e a ama de Lady conversam, as luzes acentuam a dor e a perseguição. Do mesmo modo, a lavagem das mãos e a sensação do cheiro de sangue são atos acentuados pelos pêndulos.

A Ópera de Verdi constitui-se em uma arrojada obra de arte com fusão de múltiplas linguagens e imensa riqueza de elementos que enriqueceram a ópera romântica do século XIX e o texto trágico de Shakespeare.

Maria Alice da Silva Braga tem pós-doutoranda no Programa de Pós-Graduação da PUCRS, na área de Literatura, História e Memória; Doutora em Letras, Teoria Literária com ênfase em Crítica Genética; Mestre em Letras com ênfase em Teoria Literária; graduada em Língua Portuguesa e respectivas Literaturas pela PUCRS. Tem experiência na área de Letras no ensino de Língua Portuguesa e suas respectivas literaturas e culturas.

ENSAIO NÃO-FICÇÃO

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