NINGUÉM VAI ENTENDER, por Gustavo Melo Czekster

Sonolento, o ônibus parou no semáforo e a placa na esquina anunciou, indiferente, letras brancas quase apagadas: Rua General Hercílio Neves, emérito lutador da pátria. Nunca tive nenhum tipo de pensamento boiola, este tipo de coisa sensível que os outros vivem esfregando na cara de quem não possui tais dotes, mas, neste instante, pensei em flores. Pois é, justo eu, fonte inesgotável de indelicadeza e de brutalidade, imaginando flores. Como o mundo seria mais bonito se, ao invés de homenagear generais e presidentes, dessem para as ruas o nome de flores: Rua Azaléia, Alameda das Orquídeas, Avenida Rosa. A imaginação correu solta dentro do meu corpo desacostumado a tais rompantes, e eu consegui sentir o fedor de ruas tomadas pelo perfume invisível da Natureza, aquela mistura de capim molhado com terra. Imaginei-me caminhando em uma rua assim e a felicidade encheu meu peito com o clarim triunfal e inoportuno de trombetas, como se subitamente houvesse um sentido. Diáfano, vivi com intensidade um delírio de cores no meio daquele inferno de prédios, borboleta indecente olhando a beleza com novos olhos depois de uma vida inteira dentro da gosma.

O veículo entrou em movimento de novo, desfazendo o estado lisérgico. Observei meu reflexo no vidro do ônibus e percebi o sorriso esgazeado de quem se esforçava para segurar uma gargalhada. De qual subterrâneo do meu corpo saiu tamanha bobagem, esse clichê digno de figurar nas rimas de um poeta amador? Um mundo formado por flores, mas de onde veio tanta merda? É uma ideia tão mastigada e remoída por anos de civilização que nada mais resta, nem papinha. E isso que não gosto de flores, essas coisinhas coloridas que se usa para seduzir mulheres. Um exame médico do passado inclusive afirmou que eu era alérgico a pólen, o excesso de exposição poderia até me matar. Ainda assim, evitei pensar na morte doce que poderia se esconder entre prímulas e begônias. Um amigo tentou me ensinar a gostar de flores; disse que devia ouvi-las falar. A única coisa que elas diziam, e ainda assim com uma plaquinha em cima do vaso, é o seu preço, diretamente proporcional ao preço da mulher que pretendo seduzir. Nunca dei atenção para essas bobagens. Sempre fui um entusiasta do concreto, do cimento e das lajotas; um sacerdote fiel do deus progresso.

Na parada, alguns passageiros entraram, outros sumiram. Enquanto isso, na calçada, a moça abraçava um buquê de flores do campo. Pequenos pedaços de pétalas voavam ao seu redor, sacudidas pela brisa, elétrons oscilando ao redor do núcleo. Os óculos escuros escondiam seus olhos, mas o corpo causou uma boa impressão: pernas compridas, cabelo curto, os seios vicejando na blusa, ávidos por romper o tecido. Ela sorriu ao meu aceno. Desviou a cabeça e, quase sem querer, sem pensar, pegou uma flor com dedos graciosos, retirou-a do buquê e colocou na boca. Meu Deus, a mulher comeu uma flor como se fosse chocolate. Muito esquisito, muito sensual. Diante dos lábios que mexiam, imaginei o sabor do seu hálito, o gosto de erva molhada no primeiro orvalho da primavera, a vida repleta de cores a residir na sua saliva. O desejo de possuir aquele sopro fez com que eu me levantasse. O ônibus arrancou antes que conseguisse chegar à porta, deixando para trás a moça, os óculos escuros, as flores do campo, o sonho dentro do seu corpo.

Voltei a sentar. Ver a moça comendo flores quebrou algo do meu mundo. Todos os lugares se encheram de sons e de cheiros. Dentro do ônibus, as pessoas farfalham, pétalas e cálices ao sabor do vento inexistente. Na rua, os pedestres infestavam as calçadas com roupas multicoloridas. No meu fundo, uma voz histérica estava rindo, dizendo que aquela mulher comendo flores era quase um ato de canibalismo; outra voz, mais sensata, perguntou qual o problema de se comê-las, quem come alface não deveria ter problemas para comer margaridas. Eu me encolhi no banco, esmagado por este novo mundo, sentindo-me insignificante, fora da ordem. O desconforto era nauseante, junto com a indagação que não parava de estremecer nas minhas veias: qual era o maldito gosto de uma flor? A boca chegou a salivar imaginando tulipas, violetas e crisântemos esmagados entre os meus dentes, o suco branco, verde, rosa, de cores infinitas matando a sede da garganta. Enlouqueci aos poucos, enquanto via flores em cada pessoa, caminhando na rua, conversando, demolindo o concreto da cidade, irrompendo dentro dos esgotos, das bocas dos cachorros, arrebentando os muros.

Saí do ônibus duas paradas antes do final da linha. No meu caminho, há uma floricultura, e para ela me dirijo com passos rápidos, famintos.

Gustavo Melo Czekster é formado em Direito pela PUC-RS, mestre em Letras (Literatura Comparada) pela UFRGS e doutor em Escrita Criativa pela PUC-RS. É palestrante de temas ligados à literatura, resenhista de sites e ministrante de oficinas literárias. É escritor, autor de dois livros de contos: “O homem despedaçado” (2013) e “Não há amanhã” (2017). Com o segundo livro, foi vencedor do prêmio Açorianos 2017 (categoria Contos), do prêmio AGES de Literatura (categoria Contos e categoria Livro do Ano) e do prêmio Minuano de Literatura (categoria Contos), tendo sido finalista do Prêmio Jabuti 2018 (categoria Contos).

FICÇÃO

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