O CLUBE, por Gustavo Lagranha

“Nem tudo que brilha é relíquia nem joia”
Racionais MCs – Eu sou 157

Dois, um e meio, dois e meio, será? Diôni tentava calcular de cabeça, para se distrair, quanto custavam os carros estacionados em frente ao beach club California Nation. Até então, um Maserati, um Porsche – não desses mais baratos, de setecentos mil, que eram mato naquela praia – e uma Ferrari. Faltava ainda o do dono do lugar, que seria, sem dúvida, o mais caro de todos – Diôni nunca tinha visto a máquina, mas sabia ser uma Lamborghini do ano. Três, três e meio, talvez? Enfim, seriam em torno de dez milhões de reais nas quatro vagas de estacionamento na frente do clube. Uau.

Uma das primeiras tarefas que tinham lhe designado naquele fim de tarde – o horário oficial do início do evento era às catorze, mas o turno de Diôni começava às dezoito, hora a partir da qual a sunset party esquentava – era evitar que outros carros que não fossem os previamente designados pela chefia ocupassem aquelas vagas. “Com licença, patrão,” era a abordagem que ele tinha ensaiado, “mas a vaga está reservada, já.” Quase todo mundo tinha cooperado, conseguiam entender como funcionavam as regras do lugar. Houve apenas um chato, e ainda por cima com um Palio duas portas, que estacionou na vaga mais exclusiva, a destinada ao dono do clube. O cara tinha desembarcado e começado a tirar do porta-malas cadeiras de praia para a família – a mulher e uma menina pequena ficaram dentro do carro. Quem chega na praia às seis e meia da tarde? “Esse aqui é o estacionamento da praia, é público,” o sujeito tinha dito quando interpelado. Diôni tinha insistido, ainda educado, “por favor, senhor, são as ordens que me passaram,” mas o cidadão começara a gritar. Vendo aquilo, Breno, o chefe dos vigilantes, havia saído de onde estava e corrido para ali; chegando, com seus quase dois metros e a expressão mais fria que um rosto humano pode ostentar, tinha disparado, falando alto, “o senhor quer ser humilhado na frente da sua esposa e da sua filha? Porque é isso que vai acontecer se não juntar essas tralhas e sair daqui agora.” O sujeito tinha murchado, guardado as cadeiras com a cabeça meio baixa, e dado a ré sem olhar para os seguranças, resmungando algo para a mulher, sem olhar para ela, também. “Até o ano novo você pega o jeito,” Breno dissera a Diôni, em tom pouco camarada.

A Lamborghini chegou, finalmente – o que o vigilante mais queria era ver aquela vaga ocupada de uma vez. Cor de chumbo, design chapado com curvas graciosas e detalhes angulosos, certamente o carro custava bem mais do que ele tinha imaginado. Responsa vigiar isso aí, foi o que Diôni conseguiu pensar. Por sorte, em seguida alternaria com um colega, passando para o lado de dentro.

Luciano, o dono da porra toda, que o vigilante não tinha conhecido até então, era um sujeito não muito alto que olhava todos de cima. Vestia uma camisa branca, de linho, botões abertos até o meio do peito; tinha o queixo quadrado destacado por uma barba rala que tentava parecer descuidada e os olhos bem pequenos e azuis visíveis detrás de óculos escuros que sozinhos deveriam custar o dobro do salário de Diôni. Em poucos dias trabalhando ali, ele já estava razoavelmente acostumado à invisibilidade e ao preconceito, mas ainda não tinha experimentado isso: quando Luciano desceu do carro com o amigo, um moreno cabeludo que se vestia e portava do mesmo modo, os dois passaram por ele não só com indiferença, mas demonstrando desprezo, um desprezo infinito que se percebia nos cantos das bocas, vagamente voltados para cima. Parecia que para eles Diôni existia, sim, mas como algo inferior, um verme ou um pedaço de merda, do qual eles evitavam chegar perto por puro nojo.

Ainda sentia o amargo na garganta daquela sensação quando ouviu Jonathan, seu colega, o chamando.

“Didi, ô Didi, vamos fazer a troca.”

Jonathan chamava-o assim para debochar de seu nome. Era para ser Johnny, mas a tabeliã não aceitou a grafia estrangeira. “A filha da puta me falou,” seu pai contava, bufando de raiva, “que, se eu queria um nome americano, deveria ter ido registrar meu filho nos Estados Unidos. E ainda resmungou, como se eu não fosse ouvir, ‘é bem coisa de…’ sem completar, para evitar que eu largasse a boca nela.” Sempre concluía a história com um suspiro de indignação.

“Beleza, Jonathan.”

Subiu os degraus baixos da entrada e deu um toque na mão do amigo, que descia.

“Coisa mais linda as gatas ali dentro. É de se passar,” Jonathan falou, na passagem.

Ele tinha razão. Era quase inacreditável que houvesse tantas mulheres deslumbrantes no mesmo lugar. E não se devia só a estarem fortemente produzidas – maquiadas, bronzeadas, bem vestidas – o que com certeza contribuía; elas eram bonitas mesmo, como se, para terem o direito de estar lá, tivessem passado por uma seleção, uma entrevista de emprego. Pareciam todas modelos, e aquele lugar uma festa encenada, descolada da realidade.

Entrava-se no California Nation por um curto corredor que dava em um hall, com bar e copa à esquerda, que se abria para uma grande área redonda à direita; o DJ ficava no meio, rodeado pelo espaço onde, entre mesinhas e cadeiras altas, os clientes ficavam em pé e os garçons circulavam; na meia-lua mais externa, que tinha vista para o mar, ficavam os camarotes, pequenos lounges quadrados com almofadas de seda e cortinas esvoaçantes, tudo em tons pastel. Ao lado do bar e da copa, ainda à esquerda de quem entrava no clube, havia uma porta grande, escura, que levava a uma área ainda mais seleta, aparentemente grande, à qual nem mesmo Diôni tinha acesso.

Começou a circular com o máximo de discrição, como havia sido instruído. “Não olhem para as meninas, não encarem ninguém,” Breno havia dito a ele, Jonathan e os outros em seu treinamento, “se qualquer cliente se sentir desnecessariamente intimidado por qualquer um de vocês, é rua. Aqui não temos espaço para amadorismo.” Não que o pessoal por ali desse muita atenção a ele ou aos outros vigilantes. Era quase como se fossem transparentes. Ouvia as gargalhadas e os estouros dos espumantes, a batida mecânica do house que não fazia muito sua cabeça, embora, combinado com o lugar e as pessoas, desse uma sensação agradável de irrealidade e, por que não, de riqueza. Mesmo não pertencendo àquele mundo, Diôni sentia-se como deviam sentir-se os figurantes de Hollywood.

Quando passava ao lado dos camarotes, seus olhos pousaram meio sem querer em Luciano. Ele e o amigo cabeludo estavam no lounge do centro, o maior, únicos homens entre umas seis ou sete mulheres. Certo de que não seria notado, Diôni pôde avaliar melhor o patrão. Mesmo com toda a balaca, os milhares de reais em roupas, acessórios, cosméticos e barbeiro, ele era inegavelmente feio. Além disso, a arrogância era perceptível em cada expressão e gesto. Certo que todas essas pessoas estão em volta dele só pelo dinheiro, o vigilante constatou. Se o cara for pensar bem, é até mesmo triste.

Isso passou pela cabeça de Diôni na ida até o fim do semicírculo. Na volta, porém, ele percebeu que, enquanto o amigo distraía o grupo de meninas que gargalhavam, Luciano despejava algo em um copo – parecia um pó –, servindo espumante logo em seguida e mexendo com o minguinho. Enquanto caminhava devagar, o vigilante seguiu observando. “Vem cá, Manuela,” o dono do clube chamou a mais nova das meninas do grupo, uma loirinha magra, terrivelmente bonita, com suaves olheiras sob os olhos claros nos quais se adivinhava uma inocência que nada tinha a ver com aquele lugar. Ela parecia pouco à vontade; parecia, como Diôni, mas de um modo completamente diverso, não pertencer àquela encenação.

“Separei essa Dom Pérignon só pra nós dois. É uma edição especial,” Luciano quase gritava por causa da música, enquanto Manuela se largava na almofada a seu lado, um pouco desajeitada. Ela respondeu ao patrão algo que o vigilante não foi capaz de ouvir, levou o copo à boca e sorveu o champagne de uma só vez, como quem está com pressa de se embebedar. Conseguiu controlar uma expressão de desgosto e sorriu, sem graça. “Delícia,” foi o que Diôni conseguiu ler nos salientes lábios vermelhos.  

Seguiu seu caminho. Os frequentadores do California Nation em sua maioria se conheciam, então o normal era que as festas transcorressem sem grandes confusões – quase não havia brigas. No máximo, um dos caras fortinhos se embebedava e armava uma cena, mais com o intuito de ser contido pelos seguranças do que para efetivamente bater em alguém. Mesmo isso era raro, e naquela noite, entre as dezenove e as vinte e uma, tempo de Diôni alternar com Jonathan, para fora e para dentro de novo, nada de notável ocorreu.

Quando tornou a passar perto dos camarotes, nove e pouco, quase todas as meninas dali tinham sumido. No lounge central, Luciano mostrava algo para o amigo cabeludo no celular, e pareciam se divertir muito. Na ronda de volta, viu os dois, que recém tinham deixado suas almofadas, dirigirem-se à porta escura ao lado do bar. Seguiu-os devagar. Entre o bar e a porta, imóvel como um poste, estava Jorge, um vigilante mais velho e que trabalhava há alguns anos no California. Tinha se dado bem com Diôni de primeira, quando conversaram sobre música, sobre Racionais MCs e Criolo. “Pelo menos um que não é como essa moçada sem cabeça, que curte qualquer lixo de funk e sertanejo,” tinha dito. Ali, sob as luzes azuladas do bar, recebeu-o com um sorriso.

“Curioso, não?” os dentes clareados brilhavam.

“E como não, Jorge?” o olhar de Diôni já continha em si uma súplica.

O outro olhou ao redor.

“Seguinte. O Breno não tá aqui, que eu vi ele sair. Normalmente deixo alguém aqui na porta e dou uma passada ali dentro, como a chefia pede. Vou deixar que você vá no meu lugar,” Jorge falou, “mas seja rápido. Eles não prestam atenção na gente, nunca vão saber que não sou eu passando, então, por favor, não chame atenção. Promete?”

Diôni concordava veementemente com a cabeça.

“Isso aqui é muito sério,” Jorge falou, “minha casa pode cair junto com a tua. Essa gente não tá de brincadeira. Promete que só vai até o fim do salão e volta, quietinho, como se nem tivesse lá?”

“Prometo,” disse Diôni, com firmeza na voz.

“Beleza.”

Jorge pressionou um botão na parede atrás de si, e ouviu-se um clique na porta.

“Lembre: só vai até o fim e volta, suave, quieto.”

Diôni entrou. De início não pôde distinguir muita coisa, estava bem escuro ali. Gradualmente as coisas foram ganhando contornos violáceos, e Diôni, tentando usar apenas o canto dos olhos, enxergou as meninas. Em cada uma das cabines – que lembravam os lounges mas eram mais abertas e tinham camas – havia duas delas, completamente peladas, dançando ao som de uma música diferente da do DJ lá fora, mais lenta e pesada. Os rostos eram quase indistintos, mas os corpos eram fabulosos, Diôni nunca havia visto nada parecido, mesmo nos sites de pornografia, até porque não tinha como comparar vídeos e fotos com aquilo ali, real, acontecendo ao seu lado. Em quase todas as cabines havia, além das mulheres, um sujeito – VIP dos VIPs, com certeza – escorado nas almofadas, só curtindo.

Foi até o fim do salão, onde divisou escadas estreitas que levavam a um andar superior. Voltando, conseguiu reconhecer Luciano na segunda cabine de lá para cá. Enquanto uma das garotas dançava na cama da direita, a outra já estava sobre ele, subindo e descendo lentamente. Após espiar com os olhos apertados, Diôni constatou que com certeza Manuela não era uma delas. Na quarta cabine, contudo, onde não havia homem, o vigilante a reconheceu na menina meio jogada a um canto, mal equilibrada. Em oposição ao resto da cena delirantemente sensual, seus movimentos não eram lânguidos; lembrava mais uma boneca com as articulações meio travadas, o corpo esguio muito claro sob a luz violeta.

Saindo, deu com Jorge, que de novo sorria, matreiro.

“O que achou?”

“Nossa, demais,”

“Na próxima, quem sabe, te deixo entrar de novo,” Jorge disse, e piscou. Atrás e acima dele, ao lado do bar, havia diversos pôsteres retratando Venice Beach, Malibu, San Francisco e, destoando do conjunto californiano, uma imagem da Estátua da Liberdade e a bandeira do Brasil.

“Não vejo a hora,” Diôni disse, com um sorriso sem graça, e deslizou para longe dali.

Do lado de fora, enquanto alternava mais uma vez com Jonathan, se pegou pensando em Mirella, sua namorada, que a essa hora provavelmente estava dormindo. Pensou em mandar uma mensagem, mas pareceria estranho, enviar um whats no meio do trabalho, dizendo o quê? Perguntando como ela estava? Não, melhor não.

Aconteceu na última vez em que voltou para dentro. Diôni percebeu uma movimentação estranha dos vigilantes. Breno conversou apressado com um deles na porta de entrada, depois com Jorge, e se foi pela porta escura. Jorge viu Diôni ali perto e o chamou.

“O bicho pegou. Vem comigo.”

Entraram no salão restrito. As cabines agora estavam todas vazias, a música havia parado. Era como se antes houvesse um feitiço que agora tinha cessado. Foram até a escada ao fundo, e antes de subirem os degraus já ouviam vozes e gritos no andar de cima.

A entrada do piso superior era um corredor à meia-luz. Duas meninas vieram correndo na direção deles, seminuas, e de mais além se ouviu o grito de Breno, “segura!” Jorge agarrou as duas e começou a dizer, “calma, calma,” e fez um sinal indicando a Diôni que seguisse. A única porta aberta do corredor, de onde saíam as vozes, dava em um quarto imenso. A luz estava acesa. No chão, perto da porta, o amigo cabeludo de Luciano jazia imóvel, o rosto sangrando. Na king size, uma menina magra estava deitada, aparentemente desacordada também, nua, sangue vermelho vivo escorrendo do meio das pernas escancaradas. Diôni reconheceu então o rosto, mesmo com o hematoma: era Manuela. Na beira da cama, Luciano estava sentado e Breno gritava com ele. O dono da casa viu então o vigilante à porta e disse, a voz meio chorosa, “quem é ele?”

Breno olhou para Diôni e falou, “quem disse pra você vir aqui?”

“Jorge me chamou, como reforço.”

“Vaza pro corredor e fecha a porta,” o chefe da segurança trovejou.

Jorge e as garotas já não estavam mais por ali. Diôni fechou a porta, mas colou nela o ouvido. Lá dentro, berravam.

“A porra dessa puta não me disse que era virgem,” Luciano dizia.

“Precisava bater nela até ela desmaiar, daí?”

“Perdi o controle. E daí esse filho da puta me avançou.”

“Sim, eu notei, quando tive que apagar ele,” Breno disse. Em seguida, perguntou, “Gozou dentro?”

“Não, graças a Deus.” Luciano ficou um tempo quieto. “E agora?” o dono do California Nation meio que chorava.

“Porra, patrão, que merda bem grande. Vamos pensar.” Deu uma pausa. “E essas meninas que saíram, viram tudo?”

“Uma parte só. E não são as que vieram com ela, nem acho que se conhecem, ela é nova aqui.”

“Melhor, bem melhor. Deixa eu ver.” Breno fez mais uma pausa. “Se a gente deixar ela ir, simplesmente largar ela em algum lugar, vai dar merda.”

“Eu sei, porra.” Luciano tinha a voz esganiçada.

“Quem sabe se a gente…” baixaram a voz, e Diôni não conseguiu ouvir o resto. Por precaução, deixou a porta e postou-se no fim do corredor, de frente para a escada.

Depois de um tempo, Breno abriu a porta do quarto e chamou Diôni.

“Tira o terno e veste essas roupas aqui,” disse, entregando-lhe uma camisa e uma calça jeans. Nisso já tinham colocado em Manuela o vestido branco, que por sorte não estava manchado, e a escorado no encosto da cama. Seguia apagada, o hematoma em seu rosto cada vez mais roxo.

“Escuta o que você vai fazer,” Breno disse, quando o subordinado terminou de vestir as roupas, que ficaram apertadas, mas serviram. “Você vai carregar ela, como se estivesse bêbada.” Foi até a cama, arrastou a garota e a entregou a Diôni. “Coloca os cabelos na frente do rosto, assim, pra não verem o machucado. Então, você vai sair pela porta de trás, aquela ali embaixo, mais pra lá da escada. Tem um caminho que vai pelas árvores, paralelo à praia, você sabe, né?” Diôni assentiu com a cabeça. “Então, segue esse caminho por uns trezentos metros, até chegar em um lugar que tem uns bancos. Eu vou resolver umas coisas aqui, rapidinho, e chego lá em seguida. Entendido?” O outro fez que sim. “Ah, e, de preferência, mantenha ela desacordada. Agora pega e vai.”

Antes de sair, Diôni ouviu Breno chamando Jorge no comunicador. Luciano ainda estava sentado na cama, a cabeça baixa, as mãos espalmadas cobrindo o rosto.

Não foi fácil suportar o peso morto de Manuela descendo os degraus. Já embaixo, colocou o braço esquerdo dela sobre os ombros, e agarrou-a pelo tronco, como faria se carregasse uma garota bêbada, desmaiada.

Achou a porta e avançou para a noite. Aquela saída dava para o depósito de lixo, e o cheiro ruim invadiu suas narinas. Olhando para cima, viu o céu estrelado. Quase não havia brisa vindo do mar. A música tocava já meio distante, como se viesse de outro lugar, de outro tempo.

Seguiu pelo caminho entre as árvores, iluminado espaçadamente por postes com bulbos redondos. Seria um bom lugar para namorar, o pensamento veio, involuntário, e de repente Diôni se deu conta de que carregava uma menina que recém tinha sido estuprada. Que merda.

Pensou em fugir com a garota, protegê-la de algum modo, salvá-la. Mas fugir de que jeito, para onde? Passaram por sua cabeça, como uma enxurrada, as implicações que aquilo tudo teria para ele, fugindo ou não. Pelo certo ou pelo errado, avaliou, ainda é melhor seguir as ordens.

Chegaram nos bancos de pedra. Sentou-se e, ajeitando Manuela, escorou a cabeça dela em seu ombro esquerdo. Por trás do som dos grilos, podia ouvir o mar. Não era tão tarde assim, mas não havia ninguém pelo caminho. Diôni sentiu o coração a latejar em suas têmporas quando os olhos da menina começaram a se abrir. O rosto perfeito dela, ligeiramente desfigurado pela pancada, se contorceu em uma expressão de pavor.

“O quê… como…?” a voz era pastosa, e não chegou a subir de tom. Antes de apagar de novo, Manuela encarou Diôni com seus olhos bem azuis, possivelmente os olhos mais lindos que ele já tinha visto. A chama neles vacilou, e as pálpebras se fecharam.

Quando o vigilante ergueu a cabeça, Breno já estava quase à sua frente.

“Não acordou?” ele vinha dizendo, em tom pragmático. “Ainda bem.”

Olhou bem para Diôni, como que o estudando.

“Você acha que teria capacidade de fazer o que tem que ser feito?” e apontou com a cabeça e as sobrancelhas para Manuela.

Diôni não respondeu de primeira. Estava perplexo. “Não me diga que…” conseguiu falar, enfim.

“Eu sabia,” Breno sorria. “Quem olha pra você, um homem desse tamanho, com essa marra, com essa cara de marginal… Não se esqueça que, de um jeito ou de outro, você é cúmplice dessa porra.”

Puxou Manuela, a colocou sobre o ombro como um saco de lixo ou um animal abatido, e foi saindo em diagonal, no sentido do mar, onde as árvores ficavam mais fechadas.

“Ei, espera aí.” Diôni gritou.

“Vai fazer o que,” Breno disse, “vai tentar me impedir?” Ainda sentado no banco, Diôni ficou olhando enquanto o outro se afastava entre os troncos. Ali, no meio do caminho deserto, não havia som que não o dos grilos e ao fundo, difuso, o embalo sereno do mar.

Gustavo Lagranha é advogado e reside em Vacaria – RS. Morou em Porto Alegre por mais ou menos cinco anos, quando participou de oficinas de poesia e escrita criativa, com Ronald Augusto e Charles Kiefer. Participou das coletâneas 103 que Contam e Novos Contos Imperdíveis, ambas organizadas por Kiefer, e, em dezembro de 2019, publicou pela Editora Bestiário seu primeiro livro de narrativas curtas, Adentro.

FICÇÃO

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