O OLHO ESQUERDO DE ELPÍDIO, por Flávio Ilha

É tudo pressa, tudo azáfama: e este fende-lhe o peito
um golpe de espada e a ferida fatal lhe devassa
o abismo profundo; raivosamente o selvagem se vira
de boca para o chão natal, e morde a terra morrendo

De Gestis Men de Saa, de José de Anchieta

Vinham os dois a trote. O jovem mais na frente que o velho, bem pouco, quase nada. Só se ouvia o vento naquele descampado que cruzavam, atrás de meia dúzia de reses. As nuvens rolavam para o mar, longe, levadas pelo minuano. Vestiam o de sempre, com um poncho grosso de lã por cima de tudo. Andavam armados. E falavam pouco, nem o essencial.

Numa dessas, sem mais, o peão levou a mão direita na garupa do cavalo, assim de repente, desembainhou o facão e zuniu a lâmina no ar, que brilhou. Girou o corpo na direção do velho, sem desmontar, apoiado nos arreios, um meio círculo perfeito, o rabo dos olhos mirando o vivente, a arma empinada e certeira, a mão mui firme, o golpe, tuc. Se piscasse não via nada. O corpo caiu com um baque surdo no pasto. O talho embaixo do pala ia da orelha direita até o meio do pescoço, um bom palmo de faca, pelo menos três dedos de fundura.

Hermenegildo cuspiu no homem depois. Limpou o facão nas crinas do cavalo e embainhou, como se tivesse matado uma ovelha. Cuspiu de novo. Ficou olhando um tempo, como se dissesse uma oração. Cravou depois o animal, que arrancou de um supetão, no trote leve, despreocupado. Seguiu no caminho oposto ao que tinha combinado com o homem, pai da sua mulher.


O vulto sumia devagar no horizonte verde. Elpídio ficou ali, estrebuchado, o sangue se misturando com o barro e abrindo um sulco caudaloso até a sanga, pertinho. O olho direito caiu mergulhado no pasto, com a pálpebra cerrada. O esquerdo – aberto, arregalado – ainda enxergava o espectro de Hermenegildo, que diminuía de tamanho à medida que o sol se escondia. Um vento leve abanava as crinas de Corisco, que ficara ao lado do dono, esperando. Os galhos de maricá se roçavam uns nos outros e o ruído lembrava a corda que sustentava um enforcado. Tinha visto o homem pendurado, ainda piá, lá nos campos de Uruguaiana. Uma rajada mais forte fez o cavalo se assustar. Elpídio Umpierre Macêdo sentiu um tremor ao perceber que não sairia dali, daquela grama encharcada. Não se livraria daquele talho na cara que lhe secava todo o sangue que tinha nas veias.

Pensou em levar a mão no corte, para estancar o jorro, mas os braços não responderam. Caíra de bruços e assim ficara, imóvel. Pensou se sentia dor: sentia. Uma ardência que doía. O que o incomodava mais era o zumbido do tempo, passando.

Pensou em espantar Corisco, talvez se o vissem a esmo pudessem procurá-lo em algum canto do caminho. Nenhum movimento se fez. Tentou mexer a cabeça, apenas o pescoço, para um lado e para outro, mas não superou a atração que a terra lhe impunha. Tinha toneladas de quilos sobre o corpo. Estava grudado no chão. Mas dali a pouco apenas, podia pressentir, estaria voando em direção aos braços da Virgem Maria.

Quis falar, então. Um grito para assustar o animal, êêêê!, como faz com as vacas, uma palavra que deixaria à sorte do pampa para socorrer alguma alma como a dele, vaga. Talvez assim pudesse revelar quem era, quantos filhos tinha, mas nem isso pôde. Respirou longamente; a voz não saiu. Talvez o corte tivesse atingido a goela, talvez os músculos da cara tivessem sido rasgados. Não conseguia explicar. Apenas o olho esquerdo, sobre a grama, movia sua órbita do céu avermelhado ao horizonte quase negro.

Pensar ainda podia, consolou-se Elpídio. Mas não por muito tempo, como viria a perceber. Aos poucos os sentidos começaram a falhar. Por exemplo: não sentia mais o pasto na cara, nem o cheiro da bosta de Corisco. Não sentia o frio que acabou afastando-o do genro um pouco antes, ficando para trás um pouquinho, quase nada, para aproveitar um resto de sol antes de se embrenharem na Serra das Encantadas. Não sentia as mãos formigarem, como há pouco. O vento. O sol que lhe esquentava os ossos, até então. O gosto do charque que comeram ao meio-dia.

Aos poucos as coisas ficavam mais longe, apesar de nada se mover naquele fim de campo. A luz sumia, a voz não havia mais; as mãos sob o corpo cravavam a terra, fincadas como se o prendessem ali no chão que agora era seu algoz. O pensamento ficava fraco, mas compelia-o a mexer o único órgão ativo, o olho esquerdo, que agora mirava uma nuvem preta vinda do sul, como tudo ali vinha do sul, o frio, a roupa, a mulher, o gado. O frio, pensou. É hora da noite gelada, e úmida, e sozinha.

Ainda lhe restavam alguns segundos antes de morrer. E pôde ver com o olho miraculoso o voo de um quero-quero, gritando. Pôde ouvir, também, ainda que longe, o ruído do vento remexendo a grama sob seu corpo, deslocando as formigas, a poeira do pampa. Tudo saía de perto do velho como se ele se isolasse no que não era mais mundo, era algo que não sabia identificar, um sonho que o deixava aos poucos despojado de todas as coisas que ele conhecia e tocava. Tentou abrir a boca. Queria engolir um pouco do chão para se misturar ao pasto que o devorava. Quem sabe não fugia assim desse sentimento que o comprimia ao mundo e que o estava matando, o peito apertado. Mas não engoliu nada porque não havia gosto nem tato. Só o pensamento, puro.

Elpídio começou então a contar os filhos, os netos, os amigos, começou a entoar uma ladainha em forma de prece, mas as palavras fugiam, se embaralhavam, perdiam a feição, se confundiam com sua vida que sumia no ar. Queria agarrar o pensamento com as mãos, amarrar um cincerro em seu pescoço, mas ele também se ia, o pensamento, se perdia para sempre. Rodopiava no espaço. Elpídio nem mais sabia definir sua tristeza com a noite que se impunha. O olho, assustado, olhou o breu, viu as primeiras (e últimas) estrelas, as corujas-do-campo planando esbranquiçadas sobre seu corpo. Mas o olho não se emocionou.

Havia uma coisa a fazer ainda antes de morrer. Precisava reconstituir na memória que ainda restava a cena, o golpe dado por Hermenegildo, certeiro. Lhe espantava tamanha decisão. Lembrou que não diziam nada a léguas, nem quando comeram pela última vez, o peão calado no seu canto, soturno. Que Hermenegildo manejava muito bem o facão. E que se encanzinava com qualquer pensamento arrevesado. Mas podia entender pela mão de quem pudera fazer o que fez: pressentiu até o zunido do aço estalando no maxilar, despedaçado na lama, e mal teve tempo de levantar os olhos cegos pela lâmina brilhante e ligeira. O guri não desgrudava os olhos dele, sempre lhe acompanhando nas invernadas. Aguentava calado as implicâncias do velho, que reclamava do frio, praguejava os parentes, falava mal de Hermenegildo e da filha. E da terra, da maldita terra que se embrenhava em seus dentes, em suas unhas, seus pensamentos, e não o deixava ir, nunca o deixava ir a lugar algum do qual não pudesse voltar. O silêncio do genro era um aviso.

Foi o que lembrou. Elpídio achava que tinha visto os olhos do tinhoso brilhando para seu lado naquele dia, de manhã, antes de deixarem a estância, mas só achava, não sabia ao certo. Morreria dali a pouco sem ter dado um grito. Morreria como o boi velho que era. E não poderia mais espezinhar o genro, dizer a todo mundo que ele não valia nada. Não poderia mais esfregar na sua cara que tudo, da mulher que tinha às vacas que campeava, das roupas que usava aos filhos que emprenhara, tudo era dele, tudo era devido a ele, tudo era graças a ele.

Então, quando amanhã só sobrarem os restos do que Elpídio havia sido um dia, apenas beliscados pelos caranchos nômades do pampa, ainda se ouvirá ao relento o zunido da lâmina cortando o espaço em busca da quietação. Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz. E o tuc do golpe, certeiro e mortal. Antes de cerrar o olho esquerdo de vez, perdoou o homem pelo gesto que lhe roubaria a vida uns instantes depois. Perdoou para mostrar a Hermenegildo, mesmo que ele não visse ou já soubesse ou ainda não se importasse, de quem continuava sendo aquele pedaço de chão.

Flávio Ilha é jornalista, escritor e editor. Autor de Longe daqui, aqui mesmo (2018) e Ralé (2019).

FICÇÃO

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