OS GALOS DA MANHÃ, por Letícia Copatti Dogenski

As velhas sabidas hão de dizer que com o dom da premonição não se permite brincadeira. Os que preferem a justiça terrena defenderão que um homem nascido para a dedicação aos seus apenas descansa no cumprimento de sua sina. Razão qualquer que se dê, porém, acomoda quem ouve pela primeira vez o berredo do prefeito Olívio Eutalha pelas ruas da cidade de Santo Saí, despertando os conterrâneos num cacarejar medonho, mas sem abalar aquelas almas já habituadas ao cotidiano clamor. Indignando os galos da manhã, anuncia com sua garganta rouca pelo tempo o irromper do sol, rondando pelas alamedas até que se complete o amanhecer. Os mais compreensíveis hão de dizer que trabalho feito melhor, só pela própria natureza. Já o prefeito dirá que o flagelo exculpa e honra os querelados. Todos admitiam, no entanto, aquela pena como o produto cabido por seu falho tino.

Aconteceu que, há anos idos, quando a calmaria rotineira não surpreendia a cidade no transcorrer de seu fado de acordar com os galos, trabalhar com os burros e dormir com os passarinhos, o prefeito Olívio Eutalha despertou numa manhã certo do presságio apenas anunciado em seu sono. A reminiscência do sonho o aturdia de modo que não andava sossegado nas ruas da pequena cidade, onde os animais se exibiam na mesma constância que os transeuntes, coisa inconcebível diante de seu novo pavor. Esquivava-se de uns e outros na rua, trocava de calçada às vistas dos amigos de tão longa data, de maneira que logo teve de explanar seu modo antipático incomum. “Não é tu”, dizia a uns, “Não são vocês”, dizia a outros. “São as galinhas”, dizia a todos. Afirmava de pés juntos e mãos em rogo a lisura dos disparates proferidos, baseados num sonho tão lúcido quanto o dia em decorrência, tão rememorável quanto o dia da criação do mundo.

Desenvolvera o dom da premonição, dizia, na fatídica noite de abril quando lhe foram desvelados os intuitos perversos das galinhas daquela cidade, que ideavam tomar o lugarejo todo para si, fazendo dos homens temerosos por suas vidas. “Já no meu primeiro sonho inaugural como servente das vistas videntes do futuro”, ele falava alto, revolvendo os braços ao tentar estimular o terror nas faces de seus ouvintes, “Deus me mostrou o que há de vir pelo ciscar maldoso dessas criaturas”. Tramavam artimanhas, as diabas, e debochavam deles diante de suas sandálias, ciscando o chão como fazem os touros antes do ataque. O alvoroço do prefeito ante qualquer cacarejo e suas maldições às destemidas que se acercavam mesmo que a plenos pulmões ameaçasse depená-las, acabou por despertar a curiosidade do povo quanto a suas juras premonitórias. “Uma visão do futuro é diferente de um sonho comum”, explicava, para convencê-los de pronto, “Porque no sonho não te doem os braços com as bicadas das galinhas”.

Contou que, naquela noite, durante sono tão aterrador, foi-lhe revelada a imagem da cidade tiranizada pelos galos e galinhas, enfim libertos do fado mundano de serem servis doutras criaturas. Investiriam à princípio, segundo seu conhecimento futurístico, na calada da noite, bicando orelhas e ciscando em costas nuas até a carne viva brotar cruenta. Com o tempo e a sanha impune gradando em seus interiores, atacariam à clara luz do dia, desraigando olhos para suprir a suculência ausente do comum milho seco. Afrontariam sem qualquer temor, armariam arapucas aos que se escondem, envenenariam com suas carnes pútridas pela impiedade os que insistissem em enfrentar suas ofensivas. Não tarde, seriam possessoras de Santo Saí, fazendo dos homens submissos à seus intentos, das mulheres serviçais de suas ânsias, e das crianças detentos de seu mais puro maltrato.

Tendo uma brecha de recontar o fadário popular ante a supremacia galinácea, fazia-o acentuando o barbarismo do presságio, a fim de legitimar a tamanha aversão que sentia no topar com seus algozes. Saltitava como se descalço em brasa quente ao perceber as aves se abeirando de seus pés, trepava nos bancos e murados até que fossem bem longe de sua fraqueza, bravejava conhecer os segredos cacarejados umas às outras, e arremessava britas nos galos a declarar o despontar do sol todos os dias. Não pelo mero devaneio que Olívio Eutalha se empenhava em fazê-los crer, mas pelo feitio amalucado para com os pobres animais tão medrosos quanto ele, que em nada sua gente lhe deu crédito. Riam-se por dentro ao ouvir sobre sua centelha, segurando o mijo para evitar que a comédia os fizesse molhar as próprias calças. À surdina das taipas de suas casas e dos botequins não frequentados pelo alcaide, eclodiam as gargalhadas e remedavam sua apreensão diante das galinhas que aqui e acolá se viam.

O prefeito, mesmo dessabido sobre as paródias em seu tributo, reparava na mansidão dos compatrícios apesar da iminência do terrível vindouro, de modo que procedeu só seu plano de impedir a dominação galiforme. Criminaram-no logo, portanto, pelo que se achou naquela manhã de meio abril, quando o povo acordou na estranheza da quietude dos galos. Deixando suas casas ao debutar do novo dia, deram com as fuças nas aves todas tombadas no infinito folgar, tenras ao toque do fenecimento, quando não depenadas ao exibir o fel assassínio. O prefeito Olívio Eutalha, enfim desprovido de seus temores, ia pelas ruas saudando os conhecidos pasmados pela visão e assobiando o livramento de não ter inimigos que se saiba. A bonança de sua passeata, contudo, não resistiu aos gritos acesos dos homens que seguiam sua marcha ameaçando seu coro e pelos.

Encafuou-se por detrás das paredes da prefeitura, rogando aos sentinelas da rua que o viessem resguardar, conter quem se acercasse com paus e pedras em punho. E apesar das promessas de injúria terem durado lá seus dias, logo os homens se dissiparam na investida e tornaram ao cotidiano exigente de recursos que comutassem as galinhas faltantes. Calhou que, sem demora, sentiram do que a falta duma só galinha é capaz: não lhes afligia apenas a saudade do despertador matinal, ordenando o dia à sua precisa maneira, mas também a carência de víveres dos quais se abastavam, fazendo das refeições ainda mais insossas. Logo perceberam, também, que as plantas em suas hortas feneciam cheias de furos de lagartas, tornando-se morada e manjar de rugas e besouros, todos insetos cujas infestações, eram as galinhas e seus bicares insistentes que refreavam.

O prefeito, cuja prévia placidez de se safar das galinhas já não o acompanhava há muito, angustiava-se de ver o pão faltando pro café da manhã, o prato do almoço tomado por alfaces esburacadas, os pêssegos do lanche infestos de larvas. Reconhecia seu delito na precariedade do sustento, no desalento das faces dos granjeiros, dos que viviam de lavrar e dos que viviam de quem lavrava. Na padaria, já não recebia o melhor pão, fresco e quente do recém desenfornar, mas aqueles já ressequidos do passar do ponto; já não era bem acolhido nas missas dominicais, mas com olhos revirados de ira contra seu assento solitário na capela. Constatou seu agir precipitado ao envenenar as galinhas da cidade, fundamentado num sonho miserável que não se manifestou como prometido. Assim, admitiu seu encargo e, empoleirando-se numa cadeira defronte à prefeitura, bradou aos seus que o viessem ouvir, que se redimiria: “O dia da remissão dos pecados”, anunciou.

Esperava ter a chance de ser absolvido, eximir-se de seu lapso e compensar aos conterrâneos. “Compro galinhas pra todo mundo”, clamou aos que se apinharam em curiosidade, “Faço de Santo Saí, o Santo Saí de perto das galinhas”. O povo admitia que, reconhecer a falha era o mínimo, quitá-la era imperioso. “Pois compre as galinhas”, gritavam uns, no que outros pleiteavam que não só pela carteira se sanam as dívidas. “Escolham o preço que eu pago”, Olívio Eutalha dizia, ao mesmo tempo que rezava por uma quantia modesta ou, adendo o custo da má conduta, teria a alma empenhada pelo resto da eternidade. Muitos argumentos nutriram a contenda: uns diziam que o prefeito Olívio, além de oferecer novas galinhas, deveria se encarregar de suas salvaguardas, inaugurando um cartório de registro das mesmas; outros diziam que o depurar do prefeito era engolir do mesmo que tragaram as galinhas, ou a ele seria vendido apenas o sobejo das colheitas, suprimido da carne e dos ovos das novas aves que se achegassem.

Entre ideações de uns e outros, a discussão se apaziguou num consenso, e um mandatário do povo elevou a voz ao ofertar a sentença, ouvida e aceita por Olívio Eutalha como o puro condigno de seus atos. Os granjeiros recolheram as penas que ainda se achavam esparsas pelas ruas da cidade, e que as costureiras as bordaram ao longo dum saco de estopa, no pobre enfeitar carnavalesco da justiça. Encobrindo seu tronco até a metade das coxas, o novo traje do prefeito era um quinhão do aresto de devolver ao povo o que se perdeu, de ser o galo da manhã e as galinhas da tarde, de cumprir os encargos daqueles massacrados pela sua insensatez. E, assim, deu início ao tormento que muito bem acolheu como tarefa primordial enquanto prefeito: acordar todas as manhãs antes de o sol nascer e vozear pelas veredas de Santo Saí o irromper do novo dia, remedando tão grotesco o cacarejar dos galos que, à princípio, fazia-os todos despertarem no relembrar do rancor para com ele.

Aquietaram e relevaram com o tempo, porém, não apenas pelo habituar de seus gritos rasgados, mas por vê-lo tão bem se prestar à sanção. Olívio Eutalha percorria Santo Saí a velar os pomares e as hortas, extirpando do seio das plantações mais diversas as larvas, as rugas e os besouros, amarrotando-os entre seus dedos como os bicos das galinhas, e assim assegurando os pães da manhã, as alfaces do almoço e os pêssegos da tarde. Sem chapéu a refrear o quente do sol no lombo nem guarda-chuva que evitasse o fedorão de sua roupa de penas abaixo de mau tempo, não restringia sua senda: saía com a mesma vontade no decorrer da semana, aos sábados, domingos e nos feriados santos. Os encargos que o prefeito não podia conceder, a carne e os ovos, faziam suas faltas, mas eram minúcias diante do contento de vê-lo arcar com o que lhe era devido dentro de sua farda bordada em penachos. Alguns hão de dizer que o acaso é certeiro, e o próprio homem designa seus flagelos. Outros defenderão que não há melhor instrução ao tolo do que o suplício. Nenhuma justificativa que se dê, porém, acomoda quem ouve pela primeira vez o berredo do prefeito Olívio Eutalha pelas ruas da cidade de Santo Saí, sucedendo em sua sina de despertar os conterrâneos num cacarejar medonho, mesmo que há muito as galinhas já tenham retornado àquele cotidiano. Junto dos novos galos da manhã, anuncia com sua garganta rouca pelo tempo o irromper do sol, rondando pelas alamedas até que se complete o amanhecer. Muitos hão de dizer até que o ofício praticado com tanto esmero o fez melhor que a natureza. O próprio prefeito dirá que o flagelo exculpa e honra os querelados, e sua incumbência será paga até que as penas lhe aguentem.

Letícia Copatti Dogenski é gaúcha, cirurgiã-dentista, mestranda em Diagnóstico Bucal pela UFSC e autora das novelas “Onde as Nuvens Fazem Sombra”, “A Última Rosa do Verão” e do livro de contos “Previsões de Mau Signo”. Alguns de seus contos estão disponíveis em https://medium.com/@leticiadogenski

FICÇÃO

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