PHALAENOPSIS OU ORQUÍDEA BORBOLETA, por Carolina Panta

Pena os crisântemos serem tingidos de azul. Manchavam as mãozinhas, tinta sob as unhas por semanas. Que bobagem essa a de pintar flores. Emporcalhavam a boneca e o único vestidinho possível.

Gostava mesmo era de correr sol de sábado entre os jazigos familiares. Perdia-se nas histórias de gárgulas e anjos. Portas de ferro, castelos e fadas. E aquela gente de ir a enterro de terno, coisa bonita. Mulher de meia calça preta e óculos de sol. Não economizavam em rosas e sempre pediam a coroa em forma de diamante. Aí sobrava um tantinho pra besteiras, pra picolé no parque. E as senhoras salto alto sorriam um pouco para ela, às vezes até um troco para o lanche. A vó agradecia, não precisava se incomodar, não senhora. Mas elas não se incomodavam. A morte e a miséria dos outros lhes caía bem.

E essa coisa de colocar gente dentro de parede não entendia muito disso. Como voltar à terra estando dentro de cimento, não é a bíblia que diz, vó?

Levava algumas vezes as encomendas ao crematório esquina acima, mas não gostava nada daquilo lá. Sentadinha na cadeira na calçada, cuidava a fumaça preta. Às 11h, 17h e, quando era mês frio, às 20h também.

No inverno o movimento da banquinha sempre melhorava. Vento cutelo de vida, dizia a vó. Aliás, a vozinha se foi em um junho desses céu chumbado e frio nos tornozelos. Pegou uma febre era fim de maio. Tossiu dois dias, um chá acalmava o pulmão. Fez buquê de gérberas na segunda, na terça, 38,3º. Pronto Socorro lotado, vagaram as duas de ônibus. Aguardando vaga na emergência para o Cristo Redentor, deu dois suspiros perto das duas da manhã. Perguntou se a netinha tava bem para a enfermeira, sim, vozinha, a guriazinha vai ficar bem. Pena a enfermeira não conhecer a guriazinha e não saber nada sobre ficar bem.

E a vó foi para um dos cubículos, emparedada. Ficaria ali três anos. Ossadas descartadas, daria lugar a outro sem chão.

E o tio quando assumiu as flores disse não ser mais tempo para insensatezes, boneca era besteira, tinha até peitinho, já podia trabalhar de madrugada. E de tão mal que era o homem, as flores se desajeitavam em suas mãos. Se recusavam a formar buquê ao toque bafo de cachaça.

À menina não cabia a rebeldia dos lírios. Ela não podia debater-se recusando-se ao contato. Calada, olhos fechados, mal respirava quando os dedos do monstro, cortados pela desobediência das rosas, tocavam-lhe blusa abaixo.

E cresceu a menina entre copos de leite e margaridinhas. Ao longe, aves maria e choro abafado. Padre subindo e descendo lomba de cemitério dia sim e outro também.

Em dias de céu tombado em chuva, imaginava a própria cabeça escorrida em boca de lobo, um corpo esborralhado e perdido, só mais uma das mil mortes na tv.

Mas haveria de ser bonita. Planejava entre antúrios mil formas de morrer. Desistia dos desvarios quando o fornecedor de orquídeas chegava. Aí deixava de lado essas bobagens. Viveria apenas pelas phalaenopsis, orquídea borboleta. Além do mais, apavorava-lhe a ideia da parede. E encapsulada não voltaria à terra, não era isso que a bíblia dizia?

Comprou a partida com os trocos roubados do casaco do tio. Gastou 72,95 na passagem janela para Cambará do Sul. Era 22 de setembro, um dia bonito para morrer.

Chorou ao ver tanto verde. E foi-se nossa menina para o lado de lá dos limites de proteção da cerca. Acariciou os matinhos. Deixou a terra preta entrar de baixo das unhas. Em algum momento, dançou em meio às árvores centenárias, acostumada que estava à solidão.

Desalojou a phalaenopsis de dentro da sacola. As estrelas eram bonitezas no céu. Pés no chão, amparada pelos musgos das pedras, segurou a orquídea junto ao peito. Eram duas horas quando suspirou por duas vezes.

O mergulho rápido e profundo. Até que volte à terra, já que dela foi tirado; és pó, e ao pó retornarás.

Sem paredes ou cubículo, brotaram nela uns capinzinhos sem importância. E chegou nova primavera. Agora, tudo virado em flor. E aquele foi um dia bonito para nascer.

Carolina Panta nasceu em Porto Alegre e é professora de Língua Portuguesa e Literatura formada em Letras pela UFRGS. Editora da revista literária La Loba, é ativista em busca do protagonismo feminino na cultura. Tem na mulher seu tema principal de escrita, como em seu primeiro romance, Dois Nós. Olivetti Lettera 32 é seu segundo mergulho às profundezas da dor e do prazer de ser mulher.

FICÇÃO

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