3 poemas de Iolly Aires

desidentificação

convidaram-me a sentar à mesa
com a condição de que me alienasse de mim
apenas para comer as sobras
ao invés de oferenda que alimentasse o meu ser
por isso, começo a expelir a bílis da assimilação
de um desejo alheio ao que me constitui
de um parâmetro alheio a quem sou.

o quanto de mim foi perdido
desacreditado, esvaziado?
quem é este eu, diaspórico?

ser neste corpo

este corpo em constante travessia, com muitos atravessamentos
tem a sua própria geografia
este corpo marcado
com ferro em brasa
veias abertas pelo teu arado em minha pele
extensa cicatrização do queloide que permanece, séculos mais tarde
este corpo que é o testemunho mais eloquente do que qualquer palavra
este corpo conta uma história
muito anterior a que viesse a ser habitado
corpo-consciente
este corpo não é uma ameaça, meu inimigo
não o temo
não tema ele também
este corpo não está disponível
não foi modelado para outrem
não necessita de uma função
para validar a sua existência
este é o corpo da mudança
habitação da vida, da potência
este corpo é tudo quanto possuo
sei que ele é suficiente
este corpo, continuamente, eu o emancipo.

na trilha de seus passos

Fortunato Lopes da Silva
fugido de Alviçaras em 18 de outubro de 1854
desde então, vem correndo, em constante travessia
pelas rotas mapeadas no trançado nagô dos cabelos
rumo ao quilombo
rumo à manutenção da potência da vida
em meio à brutalidade
seus pés estão rachados, feridos
mas ele não pode parar
não tem escolha
há uma recompensa pela denúncia do seu paradeiro
a Eduardo Laemmert, rua da Quitanda n.° 77
ele mantém seus olhos aterrorizados no porvir
tem coragem o bastante para sentir esperança
da terra prometida tem apenas um vislumbre, sabe que existe, está próxima
às vezes sente que a liberdade está muito perto
mas suas mãos não podem segurá-la, antes desfalece
às vezes sente a liberdade atingi-lo, queimar dentro de sua pele
prossegue só, mas porque se move
tudo se põe em movimento junto com ele
a multidão se distancia conforme ele avança
vê apenas um vulto que não pode ser aprisionado
tão veloz que está prestes a voar.

Iolly Aires, Planaltina-DF. Estudante de Letras e revisora de textos. Possui poemas e contos publicados nas revistas LiteraLivre, Cultural Traços, Toma Aí Um Poema, La Loba, Paranhana Literário e Zine Marítimas. Participa do projeto Habeas Liber, da UnB, que visa incentivar a leitura. Colunista no site Valkirias. @dissolvendoempoesia.

POESIA

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