5 poemas de Thamar de Araújo

Sinto que ficarei
à deriva.
Mas desta vez
não cristalizarei
as tempestades.
Transformarei o além-mar
em marolas
suficientemente
frágeis,
para eu repousar.

Enquanto
o
susto
não
passa,

enquanto
a
tristeza
não
cansa,

intentarei novos altares.
Amanhecerei outras.
Carregarei flores,
com cores inventadas
que ainda nem sei,
por lugares inimagináveis,
onde escaparei.
Anoitecerei eras.
Reconhecerei poucas.

Decantarei.

“Tsunami” in “Memorial de Lilia.”

Descobertas insensatas.
Pequenos fracassos.
Busco pontes movediças,

inauguro naufrágios
de centenas de barcos de papel
em dias ensolarados.

Respiro por entre os cantos
de movimentos imaginários.

Incapaz de dar o salto,
modelo réplicas perfeitas
das visões que tenho:

Todas incompletas.
Não há par.

Janelas abrem e fecham
em velocidades assustadoras.

O ranger das dobradiças
lembram barulhos,
mas são ruídos.

Atendo ao seu chamado
num telefone de fios cortados.

O silêncio.
O dilúvio.
As águas paradas,
após a chuva.
Uma canção
que ampara.
Os sinos. Que não tocam.
A mesa não posta.
A carta.

[A carta trago dentro dos bolsos
da capa de chuva.
E, com os dedos da mão,
comprimo suavemente a entrada,
[dos bolsos]
para que se mantenha seca.
Para que se mantenha salva.

Pois nada pior que uma carta escrita,
que não se pode mais ler,
que se desmanchou em água.]

“A [À] espera” in “Memorial de Lilia”.

Telas em branco.
E pedaços de arco-íris
por toda a casa.
Alimento meus medos
– todos –
com banhos de sol.
Para enxergá-los bem.
Na sombra
dispo-me
de todas as honras,
revisito
todas as máculas.
Cultivo vagalumes imaginários
à noite,
como companhia.
Os pesos acumulados
no ar não me impedem
de dançar.
Por trinta segundos bailo
pernas e pés,
braços e mãos.
Até esbarrar-me
em vírgulas.
Ofereço meus segredos
para ninguém.
Pausas.
Corro. Corro. Corro ainda mais:
cada vez mais imóvel.
É que voo através de asas
diárias, que saltam
em espirais.
Como malabaristas.
Respiro por diafragmas.
Francos, meus gatos
olham-me
com amor,
e espanto.
Aranhas tecem discretas
um futuro,
que já existe,
que ainda não sei.

“Esses dias, dias esses” in “Memorial de Lilia.

Era uma manhã azul,
mas o dia nem começou.
Não havia folhas de João aos pés da cama,
ou na entrada da porta.
Entretanto, todas as matizes do sol já estavam lá,
em tons de amarelo pálido, dourados, e sabiás,
naquele súbito momento em que me dei conta de quem eu realmente era.
Foi assim, como num estalo, o despertar lento após tantos anos.
O tempo em espirais,
um pedaço de lembranças corroídas,
outro de lembranças intocadas:
um camafeu de eternos.
As quimeras.
Todas as ausências de coragem, nas coragens.
Todas as coragens, nas ausências.
Todos os desejos, todos os desenhos, todas as reticências.
Todas as demoras,
as escolhas,
as falências,
as quase esperas.

[Veja:
ainda sem a ousadia
do canto dos pássaros
na antevéspera.
Bicos silentes.

Sem a inocência
do acaso,
na prematura primavera.

As vulneráveis letras tortas,
na melodia
certa.]

“Anunciação” in “Memorial de Lilia”.

Thamar de Araújo é memorialista, escritora e pintora. Participou da antologia poética “Rio in Versos” da Confraria de Autores. Tem dois livros publicados pelo Clube de Autores: “Livro Um – Do Amor” e “Memorial de Lilia”. Foi lançada no meio digital pela “Germina – Revista de Literatura e Arte”. É mestre em Psicologia Clínica. 

POESIA

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